O Contista

Revolução 01. Olho Por Olho

Revolução

O futuro abandonou o mundo.

Deixando para trás os restos de um presente fatídico.

As luzes tremulavam em formas sombrias nas dezenas de casas, que se tornavam centenas e, logo, milhares, incrustadas na beira do agreste arruinado, onde areia, sal e montes de entulho se perdiam na profusão de paredes e pisos que se alastravam e se espremiam em uma batalha silenciosa para preencher o espaço. Fazia dois dias que o espadachim vagava a passos lentos pela estrada em meio ao deserto de destroços, desde que teve sua motocicleta acidentalmente destruída enquanto lidava com ladrões. Os malditos ladrões de estradas só serviam para causar problemas a quem ousasse atravessar os Planaltos. Estavam sempre à espreita, como urubus sedentos por carniça.

Passou por uma placa de madeira carcomida com os dizeres “Sol Poente”, que indicava sua entrada em uma das maiores favelas do mundo. A Sol Poente marcava a fronteira entre a paisagem desoladora do deserto de destroços e a megacidade de Tarsila, estendendo-se por uma vasta extensão de casas de tijolos vermelhos, barracos mal construídos e edifícios deteriorados até se embrenhar nas ruas de um dos maiores complexos urbanos da região. O nome fazia jus ao lugar. O centro urbano de Tarsila podia ser visto ao longe, com seus edifícios imponentes, cada vez maiores e mais opulentos, derramando os resquícios de uma quantidade obscena de luzes e neon sobre os telhados escuros da comunidade, espalhando-se por toda a Sol Poente em um lusco-fusco amarelo, azul, rosa, avermelhado que o espadachim facilmente reconhecia como o crepúsculo da humanidade.

Sombras ameaçadoras rondavam as nuvens, deslizavam pelo chão de pedra da velha comunidade, espreitavam na escuridão dos becos sem saída, uma paisagem de detritos, lenha, carvão, ferro e vidro, para onde o centro urbano despejava, além das luzes, todas as suas impurezas. Chaminés cuspiam poluição escura para o céu. O cheiro inquietante de sujeira e lixo, do esgoto acumulado e expelido em valões e canais, disputavam a atenção de seus sentidos com sons caseiros, discretos, que aos poucos, aumentavam de volume. Houve uma reverberação, um fervor de luzes bruxuleantes e ruídos metálicos, que guiou o espadachim a um estabelecimento com o nome “Olho Por Olho” esculpido em uma placa de madeira. A placa balançava com as carícias de um vento tímido. Ao contrário das Terras Primordiais, onde chovia com frequência, o clima nos Planaltos era semiárido e desconfortável, normalmente quente durante o dia e mais fresco à noite, quando o vento ganhava força para superar as chapadas e formações rochosas do território, com raros momentos de chuva ou tempestades. Bonamarte, a megacidade nas Terras Primordiais de onde o espadachim estava vindo, passava por longos períodos chuvosos, o que dificultava ainda mais para resolverem o apagão que ele causara em um terço da cidade antes de deixá-la para retornar à Tarsila.

Não conseguiu evitar o alívio por encontrar aquele bar aberto, ainda que parecesse pouco amigável. O espadachim ansiava por um lugar para descansar. Fazia tanto tempo que estava na secura desértica, que já sentia os órgãos internos se contorcendo pela falta de água. O som abafado de transmissão televisiva, distorcido pela estática de um aparelho de tevê velho, sobressaía em meio ao vozerio caótico que o tinha levado até o bar.

Quando entrou, atraiu imediatamente todos os olhares e houve um momento breve de silêncio e apreensão. A porta vai e vem rangia bastante, um barulho que conseguia sobrepujar qualquer outro som no ambiente ao atrair a curiosidade dos clientes para quem quer que entrasse. Era quase como um mecanismo de defesa, instalado pelo instinto popular de sobreviver ao vasto monstro que se escondia por trás das esquinas pronto para devorar aqueles que não fossem fortes o bastante para combatê-lo. As dezenas de olhos se demoraram avaliando sua estranheza. O espadachim atraia a curiosidade local por suas vestimentas adaptadas para viagens, pelo manto preto que vestia e pela espada atada às costas, por sua pele negra, uma cor de oliva escura como bronze queimado, marcada pela exposição constante ao sol, por suas cicatrizes ainda mais evidentes e seus cabelos com tranças ngozianas escapando pela lateral do capuz.

Retirou o capuz da cabeça, sentindo o cheiro azedo do próprio suor após dias de viagem. Sem o burburinho de vozes, pôde ouvir o som da tevê mais nitidamente. Enquanto caminhava pelo salão, viu um homem esparramado em uma cadeira, com um controle na mão, os olhos fixos na televisão, ainda que não parecesse realmente interessado no que ela exibia. Na tela, palavras em off floreavam a propaganda de pacotes de algum tipo de comida industrializada, junto a pratos bonitos e bem arrumados, do tipo que nobres adoravam consumir:

“Todas as famílias concordam que Língua de Pássaro transforma vegetais comuns nos vegetais que elas adoram. Língua de Pássaro. Agora sim, o seu jantar está completo.”

Imagens da cidade surgiram, com seus monumentos colossais e edifícios metálicos repletos de cartazes luminosos e propagandas holográficas, sobrepostas na tela pelo logotipo do noticiário local pulsando em ondas, seguido pela voz em off do âncora masculino:

“Ao vivo do centro de Tarsila, esse é o Jornal da Noite na CN44. Notícias que você pode confiar.”

O apresentador apareceu na tela ao lado da apresentadora:

“Boa noite e obrigado pela preferência. Eu sou Muto Perrone. Espero que tenha começado a noite com o pé direito. E eu sou Laura Nacnek.”

Muto prosseguiu:

“Ainda não reclamaram o bilhete milionário, registrado nas casas de jogos de Tarsila, no valor de 600.000 orbos. A pergunta é: será você? Não perca a chave vencedora, e corra atrás de seu prêmio.”

O homem com o controle trocou de canal, para um noticiário apresentado por uma mulher de descendência kurogani:

“… as recentes evidências levam a polícia a uma investigação interna.”

A câmera mudou para o apresentador, bem-vestido, de voz grossa e barba branca:

“Um ladrão de joias procurado há anos foi capturado após uma fuga dramática pelas ruas de Garjia, que deixou dois mortos e treze pessoas feridas. O aumento crescente nos índices de criminalidade preocupa as autoridades, e novamente a câmara municipal discute se a cidade não deveria aceitar o apoio oferecido pela Autocracia e sua Legião. O governador continua irredutível. Enquanto isso, nossa polícia continua despreparada e nossos filhos continuam morrendo. A crise na segurança…”

O sujeito mudou novamente de canal, e assim ele permanecia: parado, indiferente, sentado em sua cadeira, mudando e mudando de canal, o controle vítima da impaciência dos dedos, um cigarro queimando vagarosamente na boca. O espadachim desconfiou que o homem zapeando os canais nem mesmo prestava atenção no que estava fazendo.

Logo, o som da televisão voltou a se misturar ao vozerio e aos tilintares das canecas de vidro e dos talheres. Sua presença perdeu importância para aquela gente, tão rápido quanto chamara a atenção. Além do homem com o controle, uma meia-dúzia de nativos da comunidade cercava a velha televisão de madeira no canto do bar, talvez esperando pela oportunidade de pegar o controle e escolher o próximo canal. Outros quatro jogavam cartas apaticamente nos fundos do salão. Mais para o centro, três homens tomavam cerveja, fumavam e conversavam, e havia um senhor de cabelos grisalhos comendo torresmos no balcão. Uma garçonete morena, de cabelos pretos levemente descolorados nas pontas, entrava e saía de uma porta com cortina de contas atrás do balcão, anotando e trazendo pedidos aos clientes nas mesas. Ele ficou feliz pelo lugar não ser uma aglomeração de pessoas se apertando umas nas outras como eram os bares dos centros metropolitanos. A dona do lugar era robusta, de feições quadradas, cabelo ensebado e expressão pouco amigável. Usava um pano sujo como bandana na cabeça e limpava alguns copos com uma toalha quando o espadachim se aproximou.

— Você tem hambúrguer?

— Só se você puder pagar — respondeu a mulher atrás do balcão.

— Eu posso pagar — disse o espadachim. — Quero dois hambúrgueres, batatas fritas e uma cerveja.

— Vai custar nove orbos.

O espadachim pegou um volt e pôs em cima do balcão.

— Pode ficar com o troco.

Os olhos ao redor novamente se voltaram para o forasteiro, brilhando e seguindo a moeda esbranquiçada de platina, alguns por curiosidade, outros por inveja, e outros por malícia. Poucas vezes aquelas pessoas deviam ter visto um volt. O comércio normalmente era feito através de orbos. Os volts eram algo além, raros, cunhados com a marca de um relâmpago. A atendente pegou a moeda, deu uma mordida e abriu um sorriso largo. Seguiu para a porta com cortina de contas e desapareceu no pequeno aposento nos fundos. Voltou com duas peças de carne e um pacote plástico transparente onde se podia ver as tiras de batatas congeladas. Colocou as duas peças sobre um fogão industrial fumegante atrás do balcão, salpicando-as com um pouco de sal que pegara em uma vasilha próxima. Ao lado, despejou as batatas em uma frigideira cheia de óleo escuro, que borbulhou e espirrou gotas quentes para os lados. O cheiro empesteou o lugar, fazendo os clientes ao redor se remexerem nas cadeiras.

Pouco depois, a mulher trouxe a cerveja numa caneca grande de vidro turvo. O sorriso continuava estampado no rosto dela. Com a sede que estava, o espadachim bebeu toda a cerveja da caneca com alguns goles. E pediu outra. Ela trouxe: — A segunda é por conta da casa. — O espadachim acenou com a caneca e tomou outro gole. Dessa vez, bebeu devagar.

Alguns minutos depois, as peças de carne chegaram, cada uma montada entre duas fatias de pão, alface, tomate e queijo derretendo pelas bordas, em um prato engordurado e não muito bonito. Mas isso pouco importava, a fome era imensa. O espadachim comeu com voracidade, sem saborear, apenas mastigando e engolindo. O sal ardia seus lábios rachados pelo calor, e ainda assim, em nada diminuía seu ritmo para comer.

Ouviu as mudanças de canais da televisão, o homem ainda sem rumo com o controle nas mãos.

O espadachim teve a impressão de que os clientes lhe lançavam olhares de soslaio enquanto comia. As pessoas evitavam fitá-lo diretamente por muito tempo, uma cultura comum na maioria das cidades colonizadas pela Autocracia, especialmente no que dizia respeito a forasteiros estranhos. Podiam ser Revos, e as pessoas, em geral, temiam Revos.

Enquanto comia a carne e bebia sua cerveja, escutava um ou outro cochicho entre as pessoas temerosas, ora sobre a postura do forasteiro, ora sobre como a vida era mais difícil sob o governo de Tigris.

Tigris Maximilian, o que havia de pior entre os Revos, pensou.

Revos representavam o que havia de mais perigoso naquele mundo desgraçado. Faziam parte de um passado recente e catastrófico, nascidos sob circunstâncias imprecisas para supostamente salvarem o mundo. Eles surgiram como super-heróis protetores, e assim deveriam ter permanecido. Mas os maiores e mais poderosos Revos, os chamados Primordiais, se tornaram vilões e dominaram o mundo.

Agora, as pessoas viviam subjugadas por sua Autocracia.

Não demorou muito até que o domínio de Tigris se fizesse presente. A porta se abriu com um estrondo e um grupo de três soldados vestindo fardas brancas entrou fazendo algazarra, rindo e vociferando enquanto um deles, alto e careca, arrastava uma jovem garota pelos cabelos. O homem que estava zapeando desligou a televisão, largou o controle sobre uma mesa e se afastou sorrateiramente; os outros ao redor fizeram o mesmo. O silêncio tornou a bagunça dos soldados ainda mais inconveniente.

O espadachim ficou quieto, observando os sujeitos, e ouviu dois homens sussurrarem na mesa ao lado.

— Pobre garota, deve ser a vítima da vez, esses boçais acham que ainda vivemos na época da escravidão. Alguém devia capar os filhos da puta!

— Quieto, se eles te escutarem, estamos mortos — o outro fez sinal de silêncio com o dedo. — Não podemos fazer nada pela garota.

Ela não pedia por ajuda; na certa, sabia que não a teria. Pessoas comuns não se metiam com legionários. Eles eram os soldados fiéis da Legião, o temível exército da Autocracia. Eram os mais perfeitos mantenedores da tirania autocrata. Se existia uma coisa pior do que um Revo era um maldito humano com o poder da autoridade e da alta tecnologia. Mesmo com seus aprimoramentos, legionários não chegavam a um nível de poder que pudesse representar perigo para um Revo. Por isso, judiavam dos mais fracos, dos que não tinham o mesmo poder para se defenderem, principalmente em áreas pobres e afastadas das cidades. O poder corrompia rapidamente.

Os soldados puxaram a garota até uma mesa que estava ocupada; o homem que estava nela se levantou apressadamente, jogou algumas notas e moedas para pagar pela bebida e deixou o lugar. Os legionários se sentaram, e um deles gritou para a atendente:

— Ei, coroa, queremos uma jarra de cerveja! Temos uma putinha aqui louca para nos servir um pouco de cerveja antes de ser penetrada por nossas espadas! — o tom pejorativo com o qual pronunciou “espadas” fez a garota estremecer. Ela não devia ter mais do que 16 anos.

Era uma garota de pele marrom escura, cabelos negros e olhos resignados. Não parecia disposta a evitar os abusos daqueles homens. Eles gargalhavam e gritavam palavrões para ela, puxavam-na de um lado para o outro, obrigavam-na a servir cerveja enquanto passavam a mão em suas pernas e seus seios. Atrás do balcão, a garçonete morena cerrou os punhos e ameaçou ir até a mesa dos soldados, mas foi impedida pela atendente, cuja expressão carrancuda desaparecera em um gesto de negativa com a cabeça, os olhos envergonhados pela resignação de ter que tomar aquele tipo de atitude.

O espadachim deu uma última golada na cerveja e colocou um papel manuscrito sobre o balcão.

— Preciso chegar a essa oficina, sabe onde fica? — perguntou à atendente.

Ela começava a abrir a boca quando o grito do legionário careca a sufocou.

— Olha o que você fez, sua vadia! Você derramou cerveja na minha calça! — ele se levantou jogando a cadeira no chão e sacudindo os braços. A euforia era tanta que quase esbarrou no espadachim. Os legionários estavam tão entretidos que sequer tinham percebido a presença de um forasteiro que destoava da clientela recorrente.

— De… desculpe, senhor, eu vou limpar, eu vou limpar — a garota olhava para um lado e para o outro, assustada, procurando um pano, ou talvez alguém para ajudá-la.

O homem apontou para a mancha na calça, na altura da virilha.

— Sim, você vai limpar, com a língua, agora! — ele sorria maliciosamente. — Ajoelhe-se aqui e limpe essa sujeira!

A garota mordeu o lábio, hesitante, as mãos tremiam sem parar.

O homem estava logo atrás do espadachim, que não se conteve. Levantou-se bruscamente girando o corpo, agarrou o braço do legionário com a mão direita e, com a mão esquerda, empurrou a cabeça dele contra a mesa ensopada de cerveja, prostrando-o diante da garota. Ela arregalou os olhos. Os talheres tilintaram quando as pessoas se remexeram em suas cadeiras, observando a ação com olhos igualmente arregalados e músculos trêmulos.

— Você é quem precisa lamber um pouco de cerveja — disse o espadachim em voz baixa, entredentes.

O soldado fez força e o espadachim afrouxou o apertão, deixando-o escapar de suas mãos. O legionário se juntou aos outros dois, que tinham empurrado a garota para o lado e já se preparavam para sacar suas pistolas e atacar. O espadachim desembainhou a espada longa, uma Nodashi MetaKatana que roubara de um mercenário de Kurogan, e trocou golpes com os três sujeitos, movimentando habilmente pés e pernas por entre as mesas. De aparência esbranquiçada e quase cristalina, metalâminas eram construídas para serem incrivelmente afiadas, e ele não precisou de muito para finalizar. Cortou o braço de um legionário e com um chute no tronco derrubou-o no chão, girou e cravou a espada no peito de outro. O terceiro tentou apontar-lhe a arma pelas costas; o espadachim virou a lâmina para baixo e com as duas mãos empurrou-a lateralmente na barriga do adversário antes que ele pudesse atirar. Girou o corpo com uma cotovelada de esquerda, afastando o soldado que tentava segurar as vísceras enquanto urina escorria pela perna e manchava a calça. O espadachim cortou o pescoço dele, matando-o em um jorro de sangue.

Com os corpos inertes dos legionários estirados em poças de sangue, os clientes observavam a tudo apavorados, escondidos atrás de mesas caídas ou do balcão. O cheiro pútrido de suor e fezes poluiu a atmosfera do lugar. O espadachim embainhou a metalâmina e lançou um olhar para a garota, que sorriu timidamente em agradecimento pela ajuda.

Ele se voltou para a atendente:

— Peço desculpas pela sujeira.

Ela sacudiu a cabeça, isentando-o de se preocupar, os olhos indicando gratidão e medo.

— Então, sabe onde fica essa oficina? — ele perguntou novamente.

— Tre… três quarteirões da… daqui, senhor, é a oficina do Velho Galfre — ela apontava a mão trêmula para a porta vai e vem, indicando uma direção por impulso.

“É ele…”, “O Escorpião…”, “Só pode ser ele…”, as vozes ao redor sussurraram temores supersticiosos, clamores esperançosos, que morreram engasgados em silêncios súbitos de mau agouro, por trás das mesas e cadeiras caídas.

O espadachim agradeceu e seguiu para a saída.

— Espera — parou ao escutar a voz da menina que salvara. — Você é ele, não é? O herói de que as pessoas falam.

— Não sou herói. Sou apenas um andarilho.

— Obrigada.

Sem se virar, ele acenou, e saiu.


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