Trocando Ideias

Estamos voltando à Idade das Trevas?

The Triumph of Death, de Pieter Bruegel the Elder

Diante do crescimento do conservadorismo atual, diante da participação cada vez maior de religiosos e valores religiosos na política, é cada vez mais comum a comparação entre os nossos tempos e os tempos medievais. Estaríamos voltando à “Idade das Trevas”? Essa comparação é problemática ao ignorar duas coisas. Em primeiro lugar, desatender para as especificidades políticas e culturais de nosso tempo em relação à Idade Média. Em segundo, por desconsiderar que chamar um intervalo de tempo de mil anos de “Idade das Trevas” diz mais sobre os períodos posteriores a ele do que sobre a História da Europa Ocidental entre os séculos V e XV.

Iniciemos com a nomenclatura para o período: “Idade Média”. O termo foi cunhado a partir de historiadores da arte e filólogos do final do século XV e início do XVI. Ao criticarem a história da arte e do latim, enxergaram no período greco-romano o auge e nos séculos posteriores um declínio. Denominam seu momento histórico como “renascimento”, por retornarem alguns princípios artísticos e filológicos dos antigos. O que restou à arte praticada nos séculos entre o fim do Império Romano do Ocidente e o Renascimento? Um nome que caracteriza o fato de ser “intermediário”: Idade Média. Outra denominação que qualificava essa “má execução” da arte e das letras: “Idade das Trevas”.

A nomenclatura surgiu no mundo artístico e filológico, mas logo se alastrou. No início do que hoje chamamos de Idade Moderna (séculos XVI a XVIII), era comum o interesse por mais de uma área de conhecimento – a especialização torna-se uma regra séculos depois. – Assim sendo, uma nominação que foi usada na crítica artística vai sendo ampliada para outras áreas, como a política. Os anos 1500-1600 são justamente os séculos da centralização política em alguns dos países europeus: mil anos com poder descentralizado são, então, considerados ruins. Importante atentar que, no período absolutista, a Igreja participou ativamente dos negócios do Estado: os principais ministros da França foram cardeais; a Inquisição, com o Estado como braço armado, executou muito mais durante a Reforma Protestante do que na Idade Média; um dos principais teóricos do “poder divino dos Reis”, justificando o poder de Luis XIV, foi do século XVI.

Foi no próximo “movimento” intelectual, o Iluminismo, que o conceito de “Idade das Trevas” começou a se alastrar cada vez mais. Se o renascimento científico começou a separar ciência e religião, é no Iluminismo que esse divórcio se dá de forma irreversível. Em conjunto com essa distinção, as críticas às “superstições” e ao poder da Igreja tanto na esfera do poder público como na esfera cultural.

No século XIX, de um lado, temos o cientificismo mantendo a crítica à Idade Média; do outro, o romantismo exaltando-a. Não foram poucos os problemas decorrentes do culto ao cientificismo, e muitos buscaram no cristianismo um contraponto à realidade sufocante. O século XIX foi também o nascimento do nacionalismo como o conhecemos hoje: um sentimento de identidade a partir de uma cultura e história comuns. Muitos dos Estados Nacionais têm como origem linguística/cultural e origens fronteiriças na Idade Média, o que fez nacionalistas a valorizarem.

Preconceito positivo também não ajuda a compreender o passado de forma mais próxima possível ao acontecido. É principalmente a partir do século XX que historiadores passam a se esforçar para interpretar o período a partir das perspectivas medievais e não renascentistas, ou iluministas, ou românticas, ou nazistas (Hitler utilizou símbolos medievais em sua propaganda).

Sendo assim, os estudos medievalistas das últimas décadas têm buscado compreender como era a política, a economia, a cultura, de acordo com os parâmetros medievais. Não se usam, para a Idade Média, conceitos que surgiram em outras épocas. Busca-se entender a cultura medieval de acordo com os parâmetros deles, e de acordo com a relação entre a cultura e os interesses de seu contexto de produção.

Assim, estuda-se o surgimento da álgebra em meio às culturas muçulmanas. Também destas culturas vieram avanços na geografia, na astronomia (Copérnico aproveitou alguns desses estudos), na medicina, nas interpretações dos gregos antigos (Tomás de Aquino foi um conhecido leitor de Averróis). Na Idade Média, surgiram as primeiras universidades – tanto as cristãs como as muçulmanas. – Foram os monges medievais os copistas que preservaram o que conhecemos de cultura letrada greco-romana. Se é inegável que a Igreja detinha grande poder no período, não exercia esse poder juntamente com o Estado. Estado, como conjunto de instituições que controlam um território nacional, só surge na Idade Moderna. A Igreja, aliás, recrutava seus membros de maior poder entre a aristocracia – e aristocracia laica e Igreja disputavam poder com grande frequência, não sendo poucos os casos de violência. – É verdade que a economia monetária e urbana se retraiu em grande parte deste intervalo de tempo, mas quando voltaram a se expandir, esse crescimento possibilitou o surgimento de algo muito conhecido por nós: os bancos. O período é longo, complexo e com conhecimentos e origens de instituições que passam despercebidos a quem somente atribui a ele a alcunha de “Idade das Trevas”.

Comparar a nossa realidade com a Idade Média é incorrer num dos maiores pecados para os historiadores: o anacronismo. Cometemos esse pecado ao comparar situações históricas completamente díspares, igualando-as; quando analisamos a produção textual de um outro período julgando-a de acordo com a nossa cultura; quando aplicamos a ele conceitos e realidades políticas de outras épocas. Sim, o cristianismo tem muito poder na nossa sociedade. Tenta-se legislar de acordo com convicções religiosas. Mas tenta-se ampliar o alcance cristão a partir de instituições contemporâneas, não medievais. Há resistência, inclusive cristã, a essas tentativas de se fragilizar o caráter laico do Estado. Grande parte do mundo é ateu – algo impensável para Idade Média. – Mesmo a parte mais conservadora da Igreja Católica almeja a releitura (não retomada completa) de um concílio moderno, não de algum concílio medieval. As religiosidades evangélicas mais criticadas atualmente ressignificam muito mais as religiões afro-brasileiras do que a religiosidade medieval. A “teologia da prosperidade” é impensável em contexto medieval.

Em suma, não há como comparar o poder político da Igreja na Idade Média com o poder no cristianismo hoje. Também não há como comparar as religiosidades medieval e atual. Vamos parar com o anacronismo, sim? Vamos também parar de reproduzir um preconceito de quinhentos anos atrás. O melhor seria pensar em soluções para nossos problemas analisando-os de acordo com os nossos tempos, não a partir de uma imaginária semelhança com a Idade Média.

A imagem que ilustra esta postagem é The Triumph of Death, de Pieter Bruegel the Elder, pintado em 1562. Está no Museo del Prado, em Madrid, desde 1827.



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