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Vazante

Crítica Vazante

Nível Exemplar

Pelo tema, deveria ser mais questionador

(Vazante) – Drama. Brasil, 2017. De Daniela Thomas. Com Luana Nastas, Jai Batista, Fabrício Boliveira, Vinícius dos Anjos, Sandra Corveloni e Adriano Carvalho. 1h56min. Distribuidora: Europa Filmes. Classificação: 14 anos.

Em preto e branco, Vazante possui uma proposta bastante digna: voltar ao século XIX para se aprofundar nas relações humanas no Brasil durante o período da escravidão. A história é forte, desenvolvida com um apelo estético que reforça ainda mais as diferenças entre brancos e negros. Mas a escolha dos protagonistas é o que caracteriza sua maior fragilidade.

O filme acontece em uma decadente fazenda na região dos diamantes, em Minas Gerais, onde brancos, negros nativos e recém-chegados da África enfrentam dificuldades de comunicação que apenas tornam os conflitos raciais e de gênero ainda mais acirrados em uma época que o país passava por fortes mudanças. Antonio (Adriano Carvalho), um fazendeiro português dono de terras, gado e escravos, sofre com as perdas pela ruína iminente do regime escravista.

Depois da morte da esposa durante o parto, Antonio casa-se novamente com uma menina da 12 anos, Beatriz (Luana Nastas). O fazendeiro constantemente deixa a jovem esposa sozinha em casa e ela cria relações com os escravos do local, especialmente com um jovem escravo, o que acaba mudando a rotina da propriedade. É o conflito gerado pela jovem protagonista que move a trama de Vazante.

Por um lado, o filme é eficiente ao trazer o ponto de vista feminino de uma garota de 12 anos sendo entregue a um casamento forçado. Mas por outro, peca por não explorar com vigor a questão dos negros na sociedade brasileira quando se constrói sobre uma história cuja linha guia é justamente a escravidão. Nesse ponto, Vazante demonstra despreparo, talvez até certa arrogância, de sua diretora Daniela Thomas, em seu primeiro trabalho na direção, com roteiro co-escrito por Beto Amaral, que trabalhou anteriormente com Thomas em Insolação.

Vazante possui um tema poderoso para a sociedade atual, que é a relação entre os brancos fazendeiros e os negros escravizados. Mas ao invés de tentar se aprofundar no assunto dando mais evidência aos escravos, contenta-se apenas com o ponto de vista dos protagonistas brancos, Antonio e Beatriz. Alguns dos escravos, como o alforriado Jeremias (Fabrício Boliveira), o jovem Virgílio (Vinícius dos Anjos) ou Feliciana (Jai Baptista) poderiam ter recebido mais atenção, mas apenas orbitam Beatriz, não vão além dos estereótipos de seus personagens.

É nisso que o filme perde força. Com algum grau de equilíbrio entre os pontos de vista, certamente, seria bem mais contundente e questionador. Mas faltou sair do lugar comum que muitos outros filmes ou séries ou telenovelas brasileiras já exploraram quando se trata do tema escravidão e da situação do negro no país até hoje. Jai Baptista é a única que consegue sobressair um pouco mais nesse sentido, unindo as questões raciais e de gênero em uma mulher negra e escrava que sofre com a submissão aos desmandos do senhor que busca em Feliciana desejos que não compartilha com a jovem Beatriz.

Verdade seja dita, Vazante é um filme com objetivos progressistas em relação à temática da escravidão, especialmente neste Brasil contemporâneo de interesses políticos que tentam enfraquecer a luta contra o trabalho escravo. Ganhou recepção cordial no Festival de Berlim e uma recepção mais dura no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A diretora Daniela Thomas recebeu críticas exaltadas em Brasília, que beiraram o “linchamento”, mas não acho que tenha merecido os excessos. Acredito, sim, que houve um despreparo, uma falta de ousadia e percepção que se faziam relevantes para uma obra com este perfil. Vazante precisava questionar, e se confortou em não fazê-lo. Mas discursos agressivos ou raivosos não contribuem com o debate. E este é, pelo menos, um mérito do filme: ele estimula o debate.

Repare que não estou invalidando a importância dos outros temas da história, como a questão de gênero que envolve a personagem Beatriz. Longe disso. Não se trata também de fazer militância. O que faltou em Vazante foi um equilíbrio entre os temas, e uma dose de sensibilidade para compreender a complexidade do filme que estava sendo construído. Um pouco mais de empatia teria aberto possibilidades bem-vindas de se explorar diversos sentimentos e pontos de vista no roteiro, podendo, por fim, colocá-los em conflito para uma história de plena emoção.

As divagações do roteiro e os interesses em desarmonia fazem com que Vazante acabe se perdendo em suas próprias ambições. Apenas no ato final, o filme consegue se estabelecer melhor dentro de seus conceitos, revelando mais claramente um Brasil criado pela mistura de diversidade e injustiça que persiste até hoje no seio da sociedade. É louvável na intensão, mas pouco eficiente na execução.

Vazante Alan Barcelos
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