Trocando Ideias

Eu acredito no filme da Liga…

Liga da Justiça

…mas isso não significa que ele vai ser bom.

Isso te parece confuso? Não tanto se você olhar para a minha breve, porém tumultuada, lista de filmes favoritos, donde cabeceia o famigerado Highlander 2.

Peraí, isso é sério?

Recolha o queixo, cara-pálida. Isso é muito sério.

Mas eu não vou tirar o seu tempo para defender o indefensável (apesar de que, só sendo muito tonto para não curtir o Sean Connery invadindo uma apresentação de Hamlet, capangas trajados como passarinhos, um screensaver que protege a Terra de raios ultra-violetas…), o lance aqui é falar do filme da Liga da Justiça.

Nem a Marvel nem a DC/Warner chegaram com os pés na porta, apresentando seu monte de heróis reunidos logo no primeiro filme. Eles tiveram que construir um universo, estabelecer certas regras (que, se você parar pra pensar, não foram exatamente seguidas nem num universo nem no outro – assim como acontece nos quadrinhos) até que pudessem aparecer com a geralzona poderosa soltando fogo pelas ventas, o Batman comandando de um lado, Homem de Ferro e Capitão América numa queda de braço do outro.

Nessa altura do campeonato, você já deve estar sabendo que esses arremedos de história custando meio bilhão de dólares, não passam de um monte de efeitos especiais e uma desculpa esfarrapada para heróis e vilões saírem no tapa em ritmo frenético, certo? E também já deve estar consciente de que nos quarenta e cinco do segundo tempo da produção de Liga da Justiça, o técnico Zequinha Snaider saiu de campo e deixou o pepino pro Joelho Uélton, que já fez lá seu sucesso com outro filme de equipe e, por isso mesmo, devia ser mais do que capaz de tocar a bomba sem que ela explodisse no próprio pé.

Não são apenas os filmes da DC, meu ingênuo amigo, todas essas pérolas cinematográficas que custam a dívida externa de um pequeno país, repito, todas elas, são uma colcha de retalhos, com roteiros e edição constantemente submetidos aos olhos e gostos de pessoas que nada tem a ver com o público consumidor de quadrinhos. A não ser que você ache que o público padrão de quadrinhos tenha saído de um episódio de The Big Bang Theory. Mas se você acredita nisso, receio que não haja muito o que se fazer por sua alma. Um banho de Flávio Colin, Will Eisner e Hugo Pratt podem dar jeito, mas não estamos aqui para te exorcizar… Quer dizer, eu sempre topo um exorcismo, mas talvez você fique meio incomodado com as amarras, os crucifixos e a água benta.

Que é o kit que eu recomendo você levar para as suas sessões de Liga da Justiça. Porque se tem uma coisa que sempre acontece com o monstro de Frankenstein (ele também é cheio de retalhos, sacou?) é que ele acaba saindo do controle. E os aldeões adoram pegar em tochas para resolver a situação. E é com isso que eu tô contando.

E, sinceramente, a Warner também.

E, se for esperta, a indústria dos quadrinhos também tá torcendo por isso.

“Ah”, um incauto levanta a mão lá no fundo, “você então tá torcendo pro filme fracassar?”

Nem um pouco, cidadão. Eu quero mais é ver essa meleca, me divertir e sair de lá com mais um filme do Bátima no currículo. E te digo mais, ainda vou brigar por aí, batendo o pé que essa merda é boa. Mas o que isso quer dizer?

Que eu sou um sacana, obviamente.

Vamos lá. Dois diretores, um roteiro tão flexível que se permite cortar quase uma hora dele sem que ninguém sinta falta… E um sem número de executivos em cima de produtores que querem só uma coisa. E eu não estou falando de uma boa história. O lance aqui é grana, cumpadi.

A indústria dos quadrinhos, embora milionária, paga mal, vende mal e constantemente enfia os pés pelas mãos. Mas isso tudo a um custo muito menor do que as tentativas frustradas de fazer grandes filmes que temos presenciado nos últimos anos.

Aí você me diz que o problema tá na DC, que os filmes da Marvel estão ótimos… Belê, vá lá, mas até quando, cara? Porque, venhamos e convenhamos, o cinema agora é isso? O que aconteceu com os etês e Goonies e até os Deu a Louca nos Montros? Cinema pra molecada agora é isso, uma coisa edificante, saudosista, desesperada para agradar o público velho enquanto amealha uma juventude sem espírito crítico que engole qualquer jornada do herói cheia de buracos de roteiro? Pô, se for isso, tem razão de dizerem que o cinema tá morrendo (uma cantilena repetida lá de trás, da época do advento da TV, agora reensaiado com a internet), o que estamos vendo aí são os estertores de uma indústria – um negócio lucrativo, porém rareando de boas ideias e precisando, constantemente, que grandes orquestradores regurgitem fórmulas, conceitos e franquias que se recusam a morrer, a cultura pop querendo impor mundialmente um imaginário coletivo cosmopolita.

Viagem, né? Então, me fala aí o nome do chefe do Super-Homem no Planeta Diário?

“Great Caesar’s Ghost!”, você exclamou. Entendeu o que eu disse?

Vá ver o filme da Liga da Justiça. Divirta-se. Mas, lá no fundo, faça-se o favor de torcer para o fracasso do filme. Quanto antes essa indústria do cinema de super-heróis afundar, mais rápido chegaremos ao próximo estágio. Onde boas e novas ideias podem imperar novamente.

Porque do jeito que tá, mermão, a gente tá se envenenando com kryptonita achando que é picolé de kiwi.

—–

Tompinhão Coelho é escritor, personagem e viajandão do romance Macuconha: Coelho, Lagarto e Samurai – uma street view narrative pornoterrográfica.

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  • Milton Feitosa de Mendonça

    Perry White. Sem ver no Google. E sim porque sou nerd há tanto tempo, que já nem sei. E vamos combinar: fazer textinho mimimi, só para ganhar like, não dizer NADA COM NADA, e se dizer CONHECEDOR, é muito fraco, né não?

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