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Detroit em Rebelião

Filme tem como pano de fundo os distúrbios de Detroit de 1967, que foram iniciados por uma invasão policial a um bar sem licença na ala oeste da cidade. Os confrontos tornaram-se violentos, resultando na morte de 39 pessoas e deixando centenas de feridos em tumultos que duraram cinco dias.

(Detroit) – Histórico. Estados Unidos, 2017.

De Kathryn Bigelow. Com John Boyega, Anthony Mackie, Chris Chalk, Nathan Davis Jr., Kaitlyn Dever, Austin Hébert, Joseph David-Jones, Malcolm David Kelley, John Krasinski, Jacob Latimore, Jason Mitchell e Hannah Murray. 2h23min. Distribuidora: Imagem Filmes. Classificação: 16 anos.

FESTIVAL DO RIO 2017 – Exibição na Mostra Panorama do Cinema Mundial

Nível Exemplar

Detroit em Rebelião


O horror da guerra em um âmbito urbano

Kathryn Bigelow é uma diretora frequentemente interessada em explorar as marcas que momentos históricos de guerra deixam nas pessoas e na sociedade. Se antes ela o fez com Guerra ao Terror ou A Hora Mais Escura, agora ela aborda o aspecto da guerra em um âmbito mais urbano, focando em um fato trágico da história dos Estados Unidos. Contar histórias como estas é uma tarefa normalmente ingrata, que Bigelow assume para si mesma. Apesar de ser um filme em uma escala mais contida, diferente da amplitude de uma Guerra do Iraque, Detroit em Rebelião possui um alcance muito maior pela temática que aborda, o que faz Bigelow perder a mão de vez quando.

Longe de sofrer de uma falta de perspectiva, Detroit em Rebelião é conduzido com um misto de cautela e rigidez, que vão assumindo tons mais extremos à medida que a história se aproxima do caso do Argel Motel, que aconteceu durante os conflitos raciais de Detroit em 1967. Em torno deste evento (o confinamento ilegal de negros norte-americanos em que três deles foram mortos por policiais racistas), o filme se organiza a partir de um primeiro ato, o melhor, com o caos urbano em escalada, um segundo ato sufocante e doloroso de assistir por causa dos acontecimentos no Motel, e um terceiro ato que retorna pacientemente às consequências e conclusões do caso que é o centro da história.

De acordo com esta construção, que é bem clara e direta, o trabalho de Bigelow é articulado em torno de um eixo: mostrar as relações de violência e racismo que regem as interações entre os diferentes protagonistas e, assim, ligar os pontos um a um para obter uma visão geral desse mal que, até hoje, corrói a sociedade norte-americana (e o mundo). O filme, assim, faz com que situações complexas passem de um ponto de vista para o outro, com muitas tomadas em close, sempre olhando mais de perto, com foco em gestos e olhares, permitindo um aprofundamento maior nos personagens e nas nuances da narrativa.

Bigelow encontra, neste aspecto de seu filme, um personagem capaz de passar de um lado para outro, trazendo assim um panorama maior das coisas: o agente de segurança desempenhado por John Bogeya, Melvin Dismukes, oscila entre duas posições. Representado como um estrategista pragmático, capaz de se dobrar diante dos brancos para fazer o seu caminho e ganhar uma simpatia que ele não teria conseguido se partisse para um confronto franco e direto, Dismukes tenta negociar com o sistema que oprime seus iguais na tentativa de evitar o conflito, mas acaba, inadvertidamente, se tornando um cúmplice indireto das escolhas ruins que levam à crueldade. Ele se torna uma representação de que a omissão também faz parte do problema. Como resultado, sua estratégia acaba transformando-o em algo que ele esperava não ser, deixando-o sozinho para lidar com as consequências, isolado dos dois lados do conflito.

O que Bigelow mostra muito bem no filme é que cada negro, qualquer que seja sua aspiração ou sua posição na sociedade (e em relação aos brancos), está inserido na opressão do racismo e no sofrimento que isso traz. É tão lamentável quanto lógico que o filme não torne Dismukes uma figura mais ativa, mas simplesmente uma peça no mosaico fragmentado de personagens. Ele é apenas um espectador, que não se intromete e acabando pagando por isso.

Por essa razão, Detroit em Rebelião quase nunca encontra o vigor de sua primeira meia hora (as cenas noturnas, mergulhadas na fumaça e marcadas pelos estampidos dos tiros, destacam-se do resto). Ainda assim, tem o mérito de encontrar soluções narrativas para explorar outras faces de seu assunto. Um exemplo, entre outros, é a transformação do cantor da banda The Dramatics, aos poucos se afastando de seu sonho de se tornar um astro da música e, por fim, abandonando-o completamente ao tomar consciência do lugar que ocupa na sociedade. A perspectiva do filme sobre este personagem reflete os malefícios de uma sociedade desigual e como é prejudicial o medo provocado pela descrença na justiça. A impunidade perpetua a crueldade destes fatos. Os sonhos de um mundo melhor simplesmente morrem, vítimas da brutalidade. É algo que pode ter acontecido nos anos 1960, mas que ainda é uma realidade doída até hoje. Ainda que o filme tropece em alguns momentos, conta uma história importante de se conhecer, para que, em um sonho de mundo melhor, ela não se repita.

Detroit em Rebelião

Detroit em Rebelião

Detroit em Rebelião

Detroit em Rebelião Alan Barcelos
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