Cinema

Mãe!

O relacionamento de um casal é testado quando visitantes que não foram convidados chegam em sua casa, tumultuando a vida tranquila que levavam.

(Mother!) – Ficção Fantástica. Estados Unidos, 2017.

De Darren Aronofsky. Com Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Domhnall Gleeson, Brian Gleeson e Kristen Wiig. 2h01min. Distribuidora: Paramount Pictures. Classificação: 16 anos.

Nível Heroico

Mãe!


A estranha mitologia de Darren Aronofsky

Desde o início, Mãe! é uma história lentamente desenvolvida, carregada de significados e simbolismos, que parece um horror psicológico, depois se mescla a um tom mais de realismo mágico. O horror existe muito mais pela noção do que a trama representa. A abertura, na qual uma mulher é consumida em chamas, e então sai das cinzas para despertar no quarto, já dá o tom do que esperar a seguir: a mulher como a força que extingue o mal e também como a doadora de toda a vida. Mesmo depois de assistir algumas vezes, dificilmente tocaremos completamente o fundo de todas as imagens e alusões do filme.

O diretor Darren Aronofsky conta sua história com um controle de câmera muito individual, sempre com tomadas próximas ao rosto dos personagens, e sempre focado no ponto de vista da protagonista sobre tudo o que acontece ao redor, seguindo-a por todos os cantos de sua estranha casa. Em certos momentos, é opressivo. Como a própria personagem parece se sentir dentro da própria casa, muitas vezes exaurida por não conseguir acompanhar os atos do marido. Esta angústia aumenta pelo filme não ter música, apenas zumbidos ocasionais. É um filme corajoso, que explora os temas de sua história de forma inusitada e instigante, e pode ser bastante perturbador em alguns pontos. Segue uma lógica de sonho, que na verdade assume aspectos de um verdadeiro pesadelo.

A partir daqui, o texto contém SPOILERS. Se não tiver assistido ao filme ainda, vá ao cinema, assista e depois volte para ler. Mas se quiser ler antes, é uma escolha sua.

Aronofski é um diretor que gosta de explorar temas do cristianismo em seus filmes. Mãe! é uma espécie de interpretação de histórias cristãs, que o diretor conta a sua maneira.

Ele parte de uma premissa. Deus criou o mundo em sete dias.

Imagina que o filme se passa em uma realidade alternativa, onde a casa solitária cercada por uma vasta floresta, é o nosso planeta cercado por um vasto universo. A casa é a nossa casa. O que também pode ser vista como a Mãe Natureza ou a Mãe Terra (o que já envolve outras ideias além do cristianismo). A casa é também o Jardim do Éden.

Como nenhum personagem é nomeado no filme, podemos nomeá-los nós mesmos, segundo nossas próprias concepções ou interpretações.

Imagina que o Poeta é o Criador, Deus, e ele está tentando criar o poema perfeito, e consegue criá-lo, em sete dias (o que é provavelmente o espaço de tempo em que se passa o filme). Em Mãe!, a história de milhares de anos da humanidade se passa em questão de dias. E nesse espaço de tempo, o Poeta vive em sua casa, com sua Deusa, que é a Mãe e a casa da humanidade, frequentemente maltratada e negligenciada por seus filhos, que olham apenas para o Pai, veneram apenas o Pai. Eles são visitados por um homem, que podemos chamar de Adão. O homem está muito doente, tossindo muito, e numa noite, põe algo para fora de seu corpo. A Mãe o vê fazer isso, e vê uma ferida em sua costela. Logo depois, surge sua esposa, que poderíamos chamar de Eva. O Poeta os acolhe em sua casa, e eles devem seguir certas regras lá dentro. Uma delas é que o casal não deve entrar no escritório do Poeta, onde ele guarda uma pedra preciosa que não pode ser tocada. Então, um dia, a mulher (Eva) entra no escritório e toca na pedra preciosa (e o fruto proibido se quebra). É quando os dois filhos homens do casal, irmãos, surgem na casa e começam a brigar pela herança do pai. Na briga, Caim mata Abel. Caim é marcado na testa quando o Poeta o atinge, foge para a floresta e é esquecido por lá (assim como o Caim bíblico é marcado na testa como o primeiro assassino da humanidade e condenado a vagar pelo deserto). Os pais, Adão e Eva, sucumbem aos seus instintos, recebem as condolências e o pesar do Poeta, mas logo desaparecem (expulsos do Paraíso).

A Mãe fica grávida do filho do Poeta e ele, inspirado por ela, finalmente consegue terminar seu grande poema, sua grande Criação. Assim, nesta pequena casa que podemos chamar de Mãe, surgem os humanos: eles são inconsequentes, desrespeitosos, sedentos por compartilhar da casa que o Poeta ofereceu a eles. Alguns são gratos e tentam ajudar o Poeta a cuidar de sua casa, ajudando a pintá-la (a finalizar a obra). Outros querem apenas ter e consumir, indiscriminadamente, todos os recursos que a casa tem a lhes dar. O Poeta, por sua Criação, começa a ser adorado, venerado, e por essa adoração, as pessoas estão dispostas a tudo. Matam e lutam em guerras. Para tocar, ser, chegar perto do Poeta, ou da imagem que têm dele. Há quem diga que Deus é negligente, ou que acredita tanto na humanidade que sempre perdoa os humanos, independente de seus erros. É isso que o Poeta faz. E quando seu filho nasce de sua Deusa, o Filho de Deus, ele o leva para que as pessoas o vejam e o venerem também. Porque ele quer que a humanidade ame seu filho. Mas as pessoas, devotadas e fanáticas, talvez descrentes, matam o Filho. E criam cultos em que o corpo do Filho é consumido (a hóstia) e seu sangue é bebido (o vinho). A Mãe, furiosa pelo que estas pessoas fazem com sua casa e seu filho, destrói tudo em um apocalipse. O mundo acaba em chamas. Apenas para que o Poeta comece tudo de novo, em um novo ciclo (de sete dias), em que a Mãe será diferente da anterior, mesmo que as coisas estejam fadadas a se repetir.

Mãe! aborda uma visão mais pessimista da história do mundo e da humanidade. Não olha tanto para o que há de méritos e virtudes. É mais sobre as falhas e os pecados. O horror está na forma como podemos nos reconhecer no que há de pior enquanto sociedade e civilização. Nos erros que cometemos e com os quais deveríamos aprender para que não fossem repetidos em um ciclo interminável. Parece absurdo, bizarro, surreal. Mas é apenas a história da humanidade. A nossa história.

Mãe!

Mãe!

Mãe!

Mãe! Alan Barcelos



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