Trocando Ideias

Herois e vilões em Game of Thrones

Herois e Vilões em Game of Thrones

Um dos grandes trunfos dos livros de As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, é sua escolha de mostrar cada capítulo pelo ponto de vista de um personagem diferente, ainda que o narrador seja sempre em terceira pessoa. A série de TV não teve como manter essa estrutura, mas ainda assim tenta à sua maneira fugir do maniqueísmo e dar a cada personagem espaço para que o espectador conheça melhor o que move cada um deles. Mas será que a percepção do público dá conta de todas essas nuances apresentadas em ambas as obras?

Este texto contém spoilers dos 3 primeiros episódios da sétima temporada, caso você tenha cometido o destempero de não tê-los visto ainda.

É perfeitamente compreensível que cada um tenha seus personagens favoritos (e se apegar muito é sempre arriscado em se tratando de GoT). No entanto, é preciso estar atento para não cair em certas armadilhas, pois a linha que separa o heroísmo da barbárie muitas vezes é tênue.

Cersei, por exemplo, é uma rainha cruel que não poupa esforços para se manter no poder. Mas será bem assim? Ela foi criada sendo menosprezada pelo pai por ser mulher, sendo apenas um joguete para que ele fizesse política. Pior, casou com o Rei Robert Baratheon, o grande libertador dos Sete Reinos que derrotou o Rei Louco. Como marido, no entanto, abusou de Cersei por diversas vezes, tanto sexual quanto psicologicamente. A forma que ela encontrou de ser forte foi através da crueldade, e tentando proteger sua família a todo custo. A grande tragédia é que, graças às suas decisões pela violência, ela acabou perdendo os três filhos. Olenna Tyrel matou Myrcella por vingança, e Cersei se vinga de volta envenenando a filha de Olenna na sua frente. Crueldade sim, mas será que não há aí um senso de justiça?

O próprio Joffrey, que todos amavam odiar, se via como um herói. Em sua cabeça, precisava ser forte para honrar os passos do pai (que, para ele, era o Rei Robert, e não Jaime), e por isso não hesitava em negar perdão. Ele foi extremamente mimado pela mãe e constantemente negligenciado pelo pai, o que resultou num adulto sem limites que, quando teve o poder nas mãos, fez questão de exercê-lo de forma cruel. Só que, para ele, estava apenas exercendo seu direito de Rei, pois o que lhe foi ensinado é que a um Rei tudo é permitido. Sua morte extremamente dolorosa foi comemorada por todas as redes sociais como um título de Copa do Mundo, numa espécie de catarse coletiva. O detalhe é que esta morte afetou diretamente Tyrion e Samsa, que eram inocentes, e seriam injustamente condenados. Mas para o público, a vingança compensou.

Da mesma forma, quando a sétima temporada inicia, mostrando Arya assassinando de forma cruel todos os homens da Casa Frey, com requintes de crueldade (havendo até mesmo o canibalismo involuntário), todos vibraram por se sentirem vingados pelo Casamento Vermelho. O que ninguém pareceu se atentar é que ela preparou um atentado com ares de genocídio. Será que não foi por ela ter ultrapassado este limite que foi rejeitada por Nymeria quando finalmente se reencontraram?

Isso significa que a obra endossa todo o banho de sangue mostrado? A resposta parece ser negativa por causa de dois personagens: Daenerys Targaryen e Jon Snow.

Assim como Cersei, Daenerys também sofreu abusos, foi menosprezada por ser mulher e joguete político nas mãos de homens. Contudo, em nenhum momento se tornou uma tirana, ao contrário: lutou para acabar com a escravidão e dar uma vida digna a seus governados. Não se deixou seduzir por promessas vazias de poder e, com isso, conseguiu algo que Cersei nunca pretendeu: ser amada pelo povo.

Jon Snow, da mesma forma, não está preocupado com o Jogo dos Tronos. Sua missão é impedir que os White Walkers destruam toda a vida em Westeros (um bom paralelo seria os problemas ecológicos em nosso mundo). Snow não está preocupado em seguir os rituais de poder ou com inimizades ancestrais como a do povo além da muralha e a Patrulha do Norte. Sua intenção é apenas a de manter a salvo não apenas o seu povo, como também o povo de seus supostos inimigos. E justamente por nunca ter pretendido estar o trono é que se torna a pessoa ideal para ocupá-lo.

As Crônicas de Gelo e Fogo mostram que a violência se retroalimenta. Quem é vítima de violência a utiliza de forma vingativa, criando novas vítimas que também irão se utilizar da violência e, por sua vez, vitimando terceiros que também se vingarão, e assim prosseguindo ao infinito. Todos possuem suas justificativas, são heróis da própria história e, ao mesmo tempo, vilões em histórias alheias. Mas as alianças e as traições se tornam pequenas quando se olha o quadro geral, e toda a violência se torna algo sem sentido que apenas provoca dor. A morte de Joffrey ou dos Frey tocam nossos instintos mais primitivos de vingança, nos dando uma satisfação temporária de que a Justiça foi feita. Contudo, não percebemos que manter esse ciclo de sangue acaba gerando mais injustiça, com mais inocentes sendo atingidos. São pessoas como Jon Snow e Daenerys que representam a esperança, nos fazendo torcer por eles e nos inspirando. Eles despertam o nosso melhor, pois suas vitórias simbolizam um sonho de mudança e paz. São, por assim dizer, sonhos de amor, e é apenas quando nos abrimos para o amor que todo o sofrimento passa a valer a pena.

Compartilhe este Post

Posts Relacionados



Inscreva-se no Canal

Resenhas Populares

Rogue One: Uma História de Star Wars

Rogue One: Uma História de Star Wars

It: A Coisa

It: A Coisa

Planeta dos Macacos: A Guerra

Planeta dos Macacos: A Guerra

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Raw

Raw

Siga no Bloglovin’

Follow

Vem Com a Gente

Curta e Compartilhe

Aperte o Play

Nível Épico em Imagens