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Dunkirk

Dunkirk

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Christopher Nolan é um artista do cinema

(Dunkirk) – Guerra. Estados Unidos, 2017. De Christopher Nolan. Com Fionn Whitehead, Tom Hardy, Kenneth Branagh, Mark Rylance, Cillian Murphy, Aneurin Barnard, James D’Arcy, Jack Lowden, Barry Keoghan, Tom Glynn-Carney e Harry Styles. 1h46min. Distribuidora: Warner Bros. Classificação: 14 anos.

Em uma guerra, o que há de melhor e pior parece ser todo o universo emocional que compõe o ser humano. Mas, provavelmente, o grande protagonista de uma história de guerra é o medo de perder a vida, a dor de perder tudo, por dentro e por fora. E esse sentimento não é algo fácil de se controlar ou gerenciar, mesmo se anestesiado com bebida, remédios ou pelo cansaço. O medo é uma sensação incapacitante, e sobrepujá-lo em nome da sobrevivência é o que nos dá noção de como a guerra pode ser horrível.

Há muitos filmes que glorificam os combates, o fervor bélico, sem se aprofundarem na sujeira, no desespero, na vertigem, nos espasmos paralisantes que surgem ante o terror. Outros, contudo, se esforçam para mostrar a coragem de homens em uma situação extrema, seja em batalha ou tentando escapar dela, sobrevivendo ou sucumbindo à própria sorte, buscando progresso ou simplesmente tentando não ficar paralisado, seja por um ato de coragem para resgatar um companheiro ou apenas pela necessidade de salvar a própria pele. Eu imediatamente me lembrei de O Resgate do Soldado Ryan. Você deve ter se lembrado de alguns filmes também, então vai lá nos comentários me dizer alguns deles e o que você achou.

Com o intenso Dunkirk, Christopher Nolan mergulha na humanidade dos combatentes, em um filme que nos transmite com sinceridade os sentimentos de soldados britânicos e militares franceses lutando, abatidos e impotentes, para fugir de um dos piores momentos da Segunda Guerra Mundial na extensa praia de Dunkirk durante o início da invasão alemã na França.

A Batalha de Dunkirk (traduzido para o português como Dunquerque) foi uma operação militar que aconteceu na cidade de Dunkirk, na França, durante a Segunda Guerra Mundial. Foi travada entre os Aliados e a Alemanha Nazista, como parte da Batalha da França na Frente Ocidental, e tinha como objetivo a defesa e a evacuação das forças britânicas e aliadas entre 26 de maio e 04 de junho de 1940. Recebeu o nome de Operação Dínamo e, mais tarde, passou a ser conhecida como o Milagre de Dunkirk, graças a evacuação bem sucedida dos soldados aliados das praias e do porto da cidade. A operação começou quando um grande número de tropas britânicas, francesas e belgas foram rechaçadas e cercadas pelo exército alemão durante a Batalha da França, que acontecia desde 10 de maio. Na época, o primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, definiu os acontecimentos na França como “um desastre militar colossal” e foi quando iniciou a operação de resgate.

Por várias vezes, me peguei sobressaltado pelos disparos e bombas lançados sem piedade contra os soldados fugitivos, como ratos presos em ratoeiras. A sensação é, o tempo todo, de angústia e claustrofobia, mesmo com boa parte do filme se passando na paisagem aberta de uma praia. É um efeito realmente impressionante. Em dado momento, quase nos esquecemos de que é um filme; apenas compartilhamos os sentimentos dos personagens. A crueza e o apuro histórico concedem ares documentais a uma obra que transita bem pela tensão e pelo drama.

Nolan produz este efeito através da criação do que poderíamos definir como ‘o cinema em sua essência’. O diálogo é escasso, curto e pontual, e não há necessidade de tê-lo, uma vez que a linguagem através das imagens é muito mais poderosa, encadeada pelos sons, ruídos e silêncios de uma trilha sonora em perfeita sintonia com o que vemos na tela.

Se você acompanha a carreira de Hans Zimmer, sabe que ele é a música dos filmes de Christopher Nolan. Foi assim com a trilogia Batman: O Cavaleiro das Trevas, A Origem, Interestelar. Se Nolan faz do cinema a sua arte, Zimmer é quem dá o tom. O compositor alemão (que ganhou o Oscar de 1995 pela trilha sonora de Rei Leão) trabalha em conjunto com a sonoplastia impactante de Richard King (vencedor do Oscar por A Origem), Lee Smith e Alex Gibson.

Os cortes secos reforçam a separação dos três núcleos temporais: o Molhe, ao longo de uma semana; o Mar, ao longo de um dia; e o Ar, ao longo de uma hora. A hora está inserida no dia, que está inserido na semana. Os três refletem princípios distintos: o desespero, a coragem e o heroísmo. E a trilha é conduzida de acordo com cada princípio. O tique-taque de relógio, ao fundo, eleva a sensação de urgência. Não há tempo a perder. A vida é o custo. O relógio do próprio Nolan serviu para criar o som que nos incita a prender o fôlego em antecipação pelo que pode acontecer a seguir.

Zimmer provavelmente está em seu melhor momento na carreira. Ele pontua a história com sons metálicos, guiando e cadenciando cada acontecimento, cada sentimento. Ao longe, quase como um zumbido no ouvido, o barulho de buzinas e navios nos dá a impressão de que o resgate está chegando, mas ele demora, crescendo pouco a pouco à medida que as embarcações se aproximam. E constantemente, é abafado pelo estrondo dos aviões alemães. Só faz aumentar a ansiedade.

Os soldados têm pouco a fazer, a não ser esperarem em filas gigantescas na areia, cabisbaixos, os rostos ocultos por capacetes circulares, enquanto os aviões Spitfire desbravam o céu enfrentando os caças bombardeiros alemães. O maior impacto é causado pelo fato de que não vemos claramente um inimigo. Há o que poderíamos chamar de “vilão”, mas ele não é mostrado em sua plenitude. Nós o conhecemos pelo fato histórico, não pela ótica do filme. O antagonista é a própria Alemanha e seu exército nazista. Mas ele não é personificado. Não há um homem, um soldado alemão, em que possamos descontar nossa raiva. E devido a isso, sufocamos nossa angústia como os soldados sufocam as deles, porque não sabemos o que pode acontecer. O imprevisível é a lei.

Dunkirk oscila entre horror e suspense, ação e drama de guerra, por terra, mar e ar, cada um representado por um período de tempo daquele momento dramático da história. Uma semana, um dia, uma hora; todos intercalados com maestria por um edição primorosa, até convergirem no ápice de tudo. Durante esta espera pelo resgate, encontramos coragem e solidariedade, cada homem lutando por si mesmo; e mesmo ante tamanho desespero de mortos, feridos e buracos na areia, descobrimos pessoas que mantêm a integridade e a sanidade para resistir enquanto outros, destruídos emocionalmente, são condenados à escuridão de suas próprias mentes. A glória, por incrível que pareça, está na derrota. No fim de tudo, fica apenas uma certeza. Christopher Nolan é um artista.

Dunkirk Alan Barcelos
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