Trocando Ideias

As causas sociais na arte dos quadrinhos

Causas Sociais na Arte dos Quadrinhos

A roteirista Mairghread Scott anunciou recentemente o cancelamento do título Till All Are One da franquia dos Transformers publicado pela editora IDW, após um ano de publicação. Apesar das declarações de Scott sobre a decisão de terminar a revista ter sido porque ela já havia contado a história que queria contar, o encerramento de Till All Are One trouxe à tona a discussão sobre a forma como as causas sociais são tratadas nos quadrinhos e o reflexo disto nas vendas. Após a publicação da revista The Death of Optimus Prime, que encerrava o arco da saga Chaos Theory, a equipe criativa de James Roberts deu um novo rumo aos títulos da franquia e introduziu alguns elementos de causas sociais na história, elementos cujas questões têm sido levantadas cada vez mais, principalmente nas redes sociais.

O título Till All Are One era centrado na personagem Windblade e em como ela lidava com as questões políticas envolvendo Cybertron e suas colônias há muito tempo perdidas. Windblade, por si só, é uma personagem muito interessante, pois, além de ser uma representação do empoderamento feminino, o grande desafio dela, por ser alguém que procura ser correta com tudo na sua vida, é aprender a lidar com todas as nuances que figuram entre os limites de certo e errado no meio político.

Por mais que o objetivo principal das HQs seja o entretenimento e o elemento comercial tenha presença fortíssima nelas atualmente, os quadrinhos de um modo geral, queiram ou não, são uma forma de expressão artística. Logo, nada mais justo que uma causa social ou política figure a essência da obra, independente da forma que ela tome, situação que ocorre em boa parte das obras de arte desde que o mundo é mundo. Além disso, causas sociais são mais do que necessárias nas manifestações artísticas, principalmente, nas que têm grande alcance como as revistas em quadrinhos, para se gerar o questionamento e/ou a conscientização de uma determinada questão e, assim, procurarmos evoluir socialmente como cidadãos.

No caso dos quadrinhos dos Transformers, após Optimus Prime ter aberto a Matriz da Liderança fazendo com que seus efeitos fizessem o planeta Cybertron retornar a sua forma mais primitiva e, pouco tempo depois, a guerra civil entre Autobots e Decepticons terminar, o foco das histórias direcionou para a reconstrução dos cybertronianos como sociedade e, com isso, é dada uma atenção maior na questão dos robôs como indivíduos fora do contexto da guerra, coisa que, até então, havia sido pouquíssimo explorada na franquia. Por conta disso, muitas questões sociais começaram a ser abordadas na história e é justamente isso que têm dividido a opinião de muitos dos fãs da franquia. Especula-se, inclusive, que isso tenha sido refletido nas baixas vendas das histórias de Till All Are One.

Seria injusto afirmar que o motivo das vendas de Till All Are One seja exclusivamente por conta das causas sociais abordadas na história, visto que, se formos fazer um retrospecto, várias HQs tiveram suas vendas oscilando ao longo dos anos por diversos motivos e pode-se afirmar que este fenômeno é algo bastante corriqueiro no mercado de quadrinhos.

No entanto, é preciso saber dosar a abordagem de causas sociais nas histórias, pois, quando se modifica o conceito de um personagem ou um título, o resultado pode acabar sendo negativo. Explorar algum tipo de militância em uma obra, sempre gera repercussão, e a forma como o tema é desenvolvido pode ser essencial para que a mensagem seja passada de forma coerente sem parecer invasiva. Se isso afeta na redução das vendas ou não, provavelmente, depende da quão eficientes são os escritores e quadrinistas para trabalhar estas ideias. E ainda assim, mesmo em uma obra com causas sociais bem trabalhadas e inseridas na história, ainda há a possibilidade de uma redução das vendas, pois, nem sempre um consumidor da HQ está disposto a concordar com a mensagem que a história quer passar. Por outro lado, mesmo alguém que apoie uma bandeira levantada em uma história pode não estar consumindo aquela HQ, o que também resultaria em uma queda nas vendas. Esse tipo de variação social/econômica é outra coisa que o mercado tenta levar em consideração, às vezes sem sucesso.

Logo, o uso do bom senso é primordial para que a mensagem seja passada da forma desejada. Desenvolver mensagens sobre causas sociais nos quadrinhos pode ter um ótimo resultado com uma abordagem mais natural e dentro do contexto da história em questão. O melhor exemplo de um caso de sucesso são os X-Men, da Marvel, que foram criados com uma proposta de se conscientizar as pessoas sobre a questão do preconceito social e do racismo, de certa forma. Foi algo que a Marvel sempre soube desenvolver muito bem em suas histórias. Se trabalhada de forma a fluir mais naturalmente com a narrativa, uma ideologia certamente terá mais chances de vencer as possíveis resistências de um leitor, alcançando-o com sua mensagem e permitindo que ele pare para pensar sobre ela. Uma conscientização social seria facilitada nestes casos.

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