Trocando Ideias

O Valor da Humanidade

O Valor da Humanidade

Recentemente, estávamos conversando sobre A Múmia, alguns amigos e eu, e me lembrei da série de jogos de RPG da White Wolf, a linha Mundo das Trevas, em especial Vampiro: A Máscara. Foi o jogo que me apresentou ao mundo do RPG, e minha primeira experiência verdadeira jogando. Então, enquanto pensava no texto desta coluna, me veio à cabeça a coluna anterior, que o Rafael escreveu sobre a sociedade do ódio; tudo aquilo o que ele estava falando me fez pensar, e remoer sobre o estado das coisas e o que eu queria para o estado das coisas. Enquanto escrevia a coluna, encontrei esta arte de Lucas Iacono e achei uma boa imagem para ilustrar o texto.

As criaturas que culminaram na criação do universo de Vampiro: A Máscara marcaram suas épocas, assim como o próprio Vampiro: A Máscara marcou sua época, a primeira edição publicada originalmente em 1991. Estourou no Brasil por volta de 1994, após o lançamento de sua segunda edição. Curioso como a percepção do vampiro, e do valor da humanidade, mudou de lá para cá.

Vampiros brilham e deixam de brilhar em sopros fugazes, que desaparecem tão imediatamente quanto apareceram, sem deixarem as marcas de suas presas (há até mesmo a falta de presas). Alguns, até mesmo, tornam-se super-heróis. Raramente se vê o vampiro atormentado por viver sob a Máscara da monstruosidade, inspirado em uma época quando as dores não eram tão negligenciadas. Buscava-se algum sentido na dor, entendê-la, reconhecer o que de valioso vinha com ela, ao invés de simplesmente afastá-la e fingir que ela não existe. O valor da humanidade de Vampiro: A Máscara era uma representação da tentativa do monstro de reencontrar seu lado humano.

O lançamento de Vampiro: O Réquiem, que veio para substituir A Máscara, trouxe uma nova característica de jogo no lugar da humanidade: a Potência do Sangue. Em meados dos anos 2000, o desejo por encontrar o humano escondido no interior do monstro dava lugar à necessidade pura e simples de ser um monstro mais poderoso e superior aos demais. A Potência do Sangue, ao contrário da Humanidade, tornava o vampiro uma criatura mais forte, mais terrível, mais insaciável. Aumentava o poder, e o poder aumentava a sede de sangue. O monstro não se preocupava mais com o humano, apenas em consumir o máximo da humanidade que conseguisse para se tornar maior e mais forte. Sinal dos tempos, provavelmente, que já começavam a se desenhar.

Em Vampiro: A Máscara, a Humanidade era uma medida do abismo que separa o monstro do humano. Era uma resistência contra a selvageria interior que se chamava de A Besta. Quanto menor o valor da humanidade, menos se resistia à bestialidade. Havia, então, uma luta constante e dolorosa para não se sucumbir à monstruosidade. Na cultura daquela época, Louis lutava para manter sua humanidade. Lestat lutava para pertencer à humanidade. Buffy lutava pela humanidade e por humanidade. No mundo de hoje, as lutas parecem ter perdido a potência, apesar da Potência do Sangue.

A Humanidade caracteriza um sentimento de bondade, benevolência, em relação aos semelhantes, ou de compaixão, piedade, em relação aos desfavorecidos. É a convergência de valores morais universais, que manifesta o princípio da empatia, à medida que nos permite perceber e compreender o sofrimento do outro. A Humanidade é ainda mais intensa por incluir o desejo de aliviar ou ajudar a diminuir a dor ­­do outro. Impulsiona a mente que sente apreço pelos outros e que busca libertá-los dos efeitos da desesperança e do desespero.

Às vezes, talvez sem perceber, talvez conscientemente, exercemos a Humanidade por razões egoístas, especialmente em relação às pessoas próximas a nós. Por exemplo, se um amigo está doente ou se sente mal ou triste, queremos que ele melhore logo para que não precisemos lidar com aquela dor, aquela tristeza ou aquele desespero. Às vezes, se for um amigo de trabalho, torcemos para que ele se recupere logo para que possamos retomar nossos afazeres sem sermos assombrados por fantasmas de mágoas ou angústias. Pensar desta forma faz parte do que é ser humano. O exercício da Humanidade é árduo. Não é à toa que ganhar pontos de Humanidade em Vampiro: A Máscara era uma das tarefas mais difíceis do jogo, algo que muito raramente acontecia em uma crônica. Alcançar os 10 pontos de Humanidade, o máximo permitido, era uma tarefa quase impossível. A razão é simples. Quando nossa família ou amigos estão sofrendo, conseguimos simpatizar com eles facilmente, mas achamos difícil sentir o mesmo por pessoas que consideramos desagradáveis ou por estranhos. Nosso grau de Humanidade é limitado e parcial.

Despertamos nossa Humanidade por aqueles cujo sofrimento é evidente, mas, geralmente, não a despertamos para aqueles que desfrutam de luxos, ainda mais em uma realidade onde ter luxos significa, na maioria das vezes, corrupção. Perdoar aqueles que cometem atos que prejudicam os outros ou ferem outro ser humano, isso é ainda mais difícil; uma tarefa (talvez uma missão) para pouquíssimos. Cultivar a Humanidade requer um nível de iluminação que, para ser alcançado, demanda uma viagem longa por uma estrada pedregosa. É um caminho que exige paciência e dedicação; não é imediato. Às vezes, dói, e por isso, precisamos ajudar a cuidar, proteger, dar coragem e força quando outro precisa superar o sofrimento. Sentir e entender a dor do outro, para chegar a esse sofrimento e agir; fazer algo para que isso mude. Um dia esse outro pode estar ao seu lado quando você precisar superar o sofrimento.

A Humanidade também está relacionada com o valor de piedade e compaixão, sentimentos que nos unem como… humanidade. Dessa forma, superamos os infortúnios da vida, que nos levam um ao outro, mesmo que seja um estranho que possa, de repente, fazer algo para nos apoiar em um momento oportuno. A Humanidade é a inimiga do egoísmo e do egocentrismo, nos faz olhar para o lado e perceber que alguém está do nosso lado, mesmo que seja uma pessoa completamente diferente de nós. Um ser humano que perdeu essa capacidade, geralmente como resultado de experiências desastrosas, chega mais perto da bestialidade. Abandona a sua essência para se tornar um monstro.

Queremos acreditar na Humanidade. Nestes dias de crises em que vivemos, na economia, na política, na sociedade, na vida pessoal – as três primeiras nos levam à última – é fácil não acreditar. Os pessimistas parecem enxergar algo que não enxergamos. Dizem que a Humanidade está fadada ao fracasso e que não há solução, que os obstáculos são intransponíveis. Mas é através destes obstáculos que evoluímos e aprimoramos nossa própria capacidade de ser humano. Os otimistas também parecem enxergar algo além. Para eles, a Humanidade parece algo simples de se acreditar, ainda que exista um mundo de obstáculos que precisem ser superados e, às vezes, eles tenham dificuldade para perceber que o mundo nem sempre se molda às suas percepções e expectativas positivistas. Parece seguro acreditar que a Humanidade esteja em algum ponto onde pessimismo e otimismo se encontram. Os mais realistas tentam construir sua própria noção com base nas oportunidades e vivências.

Lembre-se de sua Humanidade quando uma pessoa estiver em perigo ou passando por problemas. Lembre-se que todos, assim como você, passam por perigos e problemas, e precisam lidar com isso. Pode ser prudente dar-lhe apoio ou apenas um sorriso. Oferecer pontos de Humanidade a alguém que esteja perdendo os seus pode ser um passo para evitar que um ser humano se transforme em um monstro. Acredito que já temos monstros o bastante.

Se não valorizarmos o esforço dos outros e o impacto que têm sobre nossas vidas, simplesmente os veremos como objetos a serem usados, e não como os seres magníficos que são. Um bom exercício de Humanidade é pensar sobre de onde vêm todos aqueles que nos rodeiam e como eles contribuem, com sua Humanidade, para que nós possamos exercer a nossa. A maneira como vivemos, desde a roupa que vestimos até a comida que comemos, é fruto dos esforços e dos trabalhos de muitos outros. Assim como o contentamento de outros em alguma instâncias de suas vidas pode ser fruto dos nossos esforços e trabalhos individuais. Se você notar que, às vezes, na correria cotidiana, não sente nada diante da sua dor ou da dor do outro, pode ser que seus pontos de Humanidade estejam diminuindo, de 8 pontos para 7, de 7 para 6, de 4 para 3, de 2 para 1, até chegar a zero e desaparecer. Por isso, é uma coisa boa que continue doendo. O dia em que parar de doer, provavelmente, tudo estará perdido. Apenas a Humanidade pode suplantar a Besta. É a esperança contra a sociedade do ódio. E a esperança, dizem os mais realistas, é a última que morre. Um pessimista poderia dizer que já morreu. Um otimista diria que é imortal.

Compartilhe este Post

Posts Relacionados



Inscreva-se no Canal

Resenhas Populares

Rogue One: Uma História de Star Wars

Rogue One: Uma História de Star Wars

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Raw

Raw

Capitão Fantástico

Capitão Fantástico

O Homem nas Trevas

O Homem nas Trevas

Nível Épico em Imagens

Google Plus

Facebook

SoundCloud