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Sociedade do Ódio

Sinto falta do cinema de rua

Certa manhã, ao acordar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa descobriu que em sua testa estava tatuado “Eu sou ladrão e vacilão”. Talvez fosse assim o início de A Metamorfose de Kafka se fosse escrito nos primeiros anos do século XXI. Embora a novela seja de 1912, mostra-se essencial para entender o tempo em que vivemos.

Em “Engenharia Reversa”, episódio da terceira temporada de Black Mirror, somos apresentados a um futuro onde soldados estão combatendo um grupo de pessoas que se transformaram em monstros devido a uma infecção virótica e, se não forem exterminadas, poderão espalhar a doença e levar a humanidade à extinção. Não à toa, estas pessoas são chamadas de “baratas” pelos soldados. No entanto, ao longo do episódio descobrimos (spoilers!) que, na verdade, não existe doença alguma. As vítimas são todas seres humanos comuns, provavelmente imigrantes, que são vistas como insetos pelos soldados devido a implantação de um chip no cérebro destes, que os induz a enxergarem assim.

Separadas por um século, ambas as obras se utilizam da transformação de humanos em insetos como reflexão sobre a nossa capacidade de desumanizar quem é visto como diferente. Em Kafka, já se vislumbrava a sombra do fascismo que viria em duas décadas e exterminaria o povo judeu. No entanto, esta característica está presente mesmo no capitalismo e sua tendência a querer enquadrar sentimentos humanos em números para aumentar a produção, assim como no comunismo que esmagava individualidades em prol de uma igualdade formal que servia à casta que ocupava o poder.

Hoje, vivemos uma polarização onde cada lado busca criar no outro a figura do inimigo a ser combatido. Não há espaço para o debate, o que importa é a imposição à força de sua verdade como a única. Seja pela religião, seja pela política, tolerância é um termo caindo em desuso. E para o inimigo, nem o rigor da lei é mais suficiente: só o aniquilamento é aceitável.

“Direitos humanos para humanos direitos” é isso: a recusa em entender a criminalidade como problema social. Defende-se a barbárie como a única solução possível, sem perceber que este discurso serve apenas para evitar a discussão sobre os reais motivos de tantos seguirem o mundo do crime.

A população carcerária brasileira cresceu 270% entre 2002 e 2016, e mesmo assim, a sensação de impunidade só aumenta. Miramos nos políticos e descontamos na população pobre, que é de onde vem a quase totalidade dos presos no Brasil. Ainda assim, somos o campeão mundial de linchamentos, ainda que isto venha eventualmente a atingir inocentes. Aliás, somos também campeões mundiais de violência contra professores e violência contra a população LGBT. Isso para não falar da violência contra a mulher, que de tão sistêmica foi preciso criar uma lei própria para combatê-la.

Esqueçam o país do futebol, somos o país da violência!

Assim, é, de certa forma, compreensível o episódio recente do adolescente que supostamente teria furtado uma bicicleta e foi capturado por dois adultos, que tatuaram em sua testa as palavras “Eu sou ladrão e vacilão”. O que ocorreu foi uma verdadeira tortura, e o fato de ter sido filmado e colocado nas redes sociais denota a intenção sádica de humilhar e aniquilar o outro como sujeito de direitos. Obviamente, não faltaram aplausos e apoio. Depois, veio-se a descobrir que o garoto tem doença mental, e um dos tatuadores já foi condenado pelo crime de roubo. Mesmo assim, quem defende o ato como bárbaro é que é tachado de defensor de bandido.

Esse clima violento, obviamente, passa para a política. Desde a eleição de 2014, a virulência passou a ser a regra em qualquer debate, o que levou o país a um processo polêmico de impedimento da Presidente da República e a um governo que a substituiu sem legitimidade ou apoio popular, onde seus ocupantes estão mais preocupados em se livrar de processos criminais e vender todo o patrimônio público que puderem para se dar bem.

Costuma-se dizer que o povo assiste a tudo isso de maneira passiva, mas não é bem assim. Os índices de violência mostram uma realidade diferente. Nas grandes metrópoles, os tiroteios e pequenos crimes já entraram no dia a dia do cidadão. Na política, cada vez mais vemos os “escrachos” serem arma de intimação política (como nos episódios com os jornalistas José Trajano e Miriam Leitão). Há um verdadeiro clima de ódio na população, que não está sendo direcionada em um processo, digamos, revolucionário, mas para uma espécie de estado pré-contrato social onde o Homem segue sendo o lobo do Homem. E alguns políticos já perceberam isso e tentam utilizar esse clima para benefício próprio, numa espécie de messianismo que nos levará ao Inferno.

Voltando a Black Mirror, no sexto episódio da terceira temporada, “Odiados Pela Nação”, temos uma série de assassinatos ligados a utilização de uma hashtag (#DeathTo). No que aparentemente é um jogo, as pessoas escolhem alguma figura odiada no momento e juntam seu nome à hashtag. Quando algumas delas realmente morrem, percebe-se que podemos estar lidando com uma espécie de julgamento instantâneo, sem direito de defesa ou necessidade de provas concretas que impliquem em alguma culpa da vítima. Esse parece ser o julgamento perfeito para grande parte da população: pra que gastar dinheiro e dar chance ao criminoso de se redimir? Bandido bom é bandido morto. O problema é que pau que bate em Chico também bate em Francisco, e quando for você que estiver na mira, também não haverá choro nem vela. Desta forma, toda a evolução do Direito que busca nos livrar do arbítrio do Absolutismo e das ditaduras de plantão é jogada fora em nome de um falso senso de justiça que parece não se importar em produzir danos colaterais.

Não é preciso chips no cérebro ou metáforas oníricas para desumanizar o próximo. Estamos fazendo isso muito bem por nós mesmos. Em breve, teremos nossos pecados todos marcados na testa, para que um lado nos escolha de alvo para descarregar suas frustrações e instintos primitivos. Estamos abandonando toda a pretensão de civilização para abraçar a barbárie. Resta saber o quanto de sangue ainda deverá ser derramado até que resolvamos encarar nossos problemas de frente.

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