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Sinto falta do cinema de rua

Sinto falta do cinema de rua

O local do cinema mudou muito, especialmente a partir dos anos 1980. Os antigos cinemas de rua deixaram de ser estabelecimentos dedicados à arte e se tornaram outras coisas – em geral, igrejas e templos religiosos. – Algumas poucas salas foram reformadas e permanecem como parte do cenário urbano atual, assumidas por grandes empresas que arcam com os custos e as responsabilidades de mantê-los, como é o caso dos cinemas do Grupo Estação, atualmente com a NET, ou o Cine Roxy, inaugurado em 1938 e uma das principais salas de cinema de Copacabana, atualmente sob administração do Grupo Severiano Ribeiro. Hoje ainda temos o Cino Odeon, na Cinelândia, também por causa do Grupo Severiano Ribeiro, que o transformou em um espaço cultural após ele ficar um período fechado e incerto se abriria novamente. Outros casos, como o Cine Joia, que divide Copacabana com o Roxy, exibiu filmes de 1969 a 2005 e foi reinaugurado em 2011 depois de permanecer cinco anos fechado. Raras são as salas novas inauguradas nas ruas hoje em dia.

Eu lembro de uma época em que ia a estas salas de cinema para assistir às estreias, não aos shoppings. Sei que o sentimento é fruto, principalmente, de nostalgia, mas as experiências sociais e cinematográficas deste passado me trazem uma sensação agradável de que, antes, ir ao cinema era algo mais simples. Mais barato também. Lembro de assistir a Jovens Bruxas em 1996 no Cinema ParaTodos, do Méier, por R$ 6,00 o ingresso. O Cinema ParaTodos foi inaugurado em 1935 e fechou no final da década de 1990. Hoje, como você deve saber ou imaginar, o lugar virou igreja. Semana passada, neste ano de 2017, fui assistir ao filme Guardiões da Galáxia vol. 2, por “singelos” R$ 30,00 o ingresso. A mudança do cinema da rua para o shopping teve impactos significativos na cultura cinematográfica da cidade e das pessoas, e o preço é apenas uma representação disso.

Por essa e outras razões, pensei em escrever esta coluna. Até certo ponto, eu gostaria de tentar resgatar um pouco dessa memória cultural que sempre fez parte do nosso coração cinéfilo. Eu descobri o amor por filmes em uma sala de cinema de Madureira, onde em 1992 vi A Bela e a Fera pela primeira vez. Alguns anos depois, em 1994, assisti a O Rei Leão neste mesmo lugar. Assisti também a alguns filmes dos Trapalhões, O Mistério de Robin Hood e A Árvore da Juventude. Às vezes era tão lotado, que as pessoas tinham que sentar no corredor. Durante algum tempo, as salas do Madureira 1 e 2 se tornaram uma boa opção de assistir a filmes para quem morava em Jacarepaguá, principalmente depois que, em 1989, o Cine Theatro Baronesa, na Praça Seca, fechou as portas e se tornou – sabe o quê? – uma igreja!

O Baronesa, inaugurado em 1950, foi um ponto de encontro bem famoso de sua época, com cabine equipada com projetores 35 mm da Fuji Centra e um espaço de 961 lugares. De volta ao cinema Madureira 1 e 2, foi lá que assisti a Titanic pela primeira vez, em 1998. O cinema naufragou algum tempo depois disso. Hoje não é uma igreja, o que quase considero um milagre.

Em alguns casos, as salas estão fechadas ou sem um uso cultural e comercial definido. Um exemplo é o Cine Paissandu, no Flamengo, decretado Patrimônio Cultural Carioca em 2008 e fechado desde então. A revitalização de salas como o Paissandu seria um resgate importante para o ambiente urbano e para o acesso à cultura e à arte.

A verdade é que dezenas de cinemas de rua, especialmente nas Zonas Oeste e Norte do Rio de Janeiro, deram lugar a igrejas, edifícios comerciais ou farmácias. Eram pequenos pedaços de comércio que foram consumidos pela voracidade comercial do mundo moderno e pela especulação imobiliária. Barbearias, padarias, açougues, botequins, livrarias de bairro, mercadinhos de esquina, que traziam consigo um elemento social e cultural muito forte, perderam espaço para butiques de carnes, livrarias megalomaníacas, casas de pães, hortifrutis gigantes, botecos chiques e afins. O mesmo aconteceu com as salas de cinemas. Mudaram com a mudança dos tempos e, fatalmente, dos interesses envolvidos.

O crescimento do cinema em shopping centers, ampliando custos e lucros típicos do multiplex – os complexos que englobam várias salas de exibição – criou uma otimização total do espaço, oferta múltipla de filmes, economia de escala na administração, projeto inteligente de automação, oferta de serviços adicionais, além de uma pulverização do risco de fracasso de bilheteria (devido à possibilidade de manutenção de um título em cartaz por um tempo maior) e a alta rotatividade entre as várias salas. Se tornou um chamariz para as empresas do mercado cinematográfico. Em contrapartida, para o público, a rua deixou de ter atrativos e sofre com a falta de segurança e todas aquelas variáveis que atormentam qualquer lugar que dependa de assiduidade e público pagante, elementos que envolvem políticas urbanas sérias dificilmente encontradas em nossas cidades.

Além disso, hoje temos acesso maior a televisão, internet, Netflix, DVD, Blu-ray, e uma série de mídias que não existiam antigamente. Em uma época que o Festival de Cannes está enfrentando polêmicas por permitir que filmes da Netflix concorram em sua mostra competitiva, é um fato que, mais uma vez, o cinema precisa repensar seus valores e posicionamentos diante da História. Não significa que acredito em um retorno massivo dos cinemas de rua, não é isso. Como a atriz Tilda Swinton disse durante uma entrevista em Cannes sobre seu filme Okja, “há espaço para todos”. Acredito que estamos vivenciando novas mudanças no mundo do cinema e, mais uma vez, teremos que aprender a lidar e conviver com essas mudanças. De modo que o passado possa ser lembrado com carinho, e como algo que nos ajudou a crescer e amadurecer para o que nos tornamos hoje, enquanto pessoas e enquanto cinéfilos.

Hoje temos Odeon, Leblon, Roxy, Cine Joia, Itaú Artiplex, Estação Botafogo, entre outros poucos. São os que restaram e que deveríamos valorizar todos os dias, o máximo que pudermos. O cinema de rua, normalmente, é lembrado como um pedaço saudoso de um passado glorioso, mas dificilmente é reconhecido como parte de um patrimônio cultural da cidade. Os rastros deixados pelas antigas salas são mais perceptíveis graças à nossa consciência emocional. Por isso, é sempre bom lembrar que é um espaço dotado de emoções voltadas para a socialização, a discussão saudável e a vivência da diversidade. Uma das razões pelas quais gosto tanto do Festival do Rio é justamente porque, nessa época do evento, estes pontos de encontro ganham um fôlego renovado e eu consigo sentir essa magia diferente que assistir a um filme me despertava na juventude, um misto prazeroso de interação, arte e saudosismo. O cinema de rua proporciona o encontro com o outro e favorece a troca de experiências. São lugares onde se pode confrontar o desconhecido.

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  • Leandro Sobrinho

    Alan , não esqueça do Cisne , que ficava na Freguesia em Jacarepaguá e hj passa a Linha Amarela. Ali o esquema era pagar um ingresso e assistir 2 filmes rs
    Não eram lançamentos , mas divertiam até pelo valor.

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