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Clube da Luta 2

Nove anos depois, Tyler Durden está de volta. E desta vez, ameaça não só destruir o mundo, como também a família de Sebastian e Marla.

(Fight Club 2) – Drama. Estados Unidos, 2016.

De Chuck Palahniuk e Cameron Stewart. Com Sebastian, Marla, Tyler Durden, Chuck Palahniuk. Editora Leya. 280 páginas.

Nível Exemplar

Clube da Luta 2


A destruição de Tyler Durden

A primeira regra você sabe qual é. A segunda também. Mesmo assim, eu, você e todos viemos as quebrando desde 1996, quando Chuck Palahniuk a quebrou pela primeira vez ao publicar o livro Clube da Luta. Passado tanto tempo, o que nos resta agora da ideia original?

Quando anunciou que faria uma continuação de sua obra mais conhecida, logo surgiu a desconfiança que Palahniuk poderia apenas querer surfar na onda da nostalgia para faturar uns trocados. Mas ele a anunciou somente em quadrinhos, algo ousado, e com isso criou expectativa. Ao finalmente ler a graphic novel, temos a certeza que o último sentimento que moveu o autor foi a nostalgia. Na verdade, ele quis fazer o que não conseguiu no final do primeiro livro: matar Tyler Durden.

Palahniuk revela nesta continuação todo o incômodo que sentiu por ter sido engolido pelo personagem que criou. E isto aparece em cada quadro, onde ele busca descontruir tudo o que estabeleceu no primeiro livro. Nada de críticas à sociedade alienante, nada do niilismo sedutor de Durden, ou do mistério sobre a identidade do personagem. Até o narrador ganhou nome e família, e passa a agir como o típico “loser”. Palahniuk faz uma continuação para desmoralizar a própria obra, cheio de ironias e metalinguagem.

O narrador se chama agora Sebastian, casou com Marla e ambos tiveram um filho. No entanto, o casamento vai mal. Sebastian se sente impotente e infeliz, e Marla volta a frequentar os grupos de apoio para doentes. Sebastian faz consultas semanais com um psiquiatra, e descobre, para o próprio desespero, que Tyler Durden nunca esteve morto. E pior, agora parece ter voltado com o intuito de destruir sua família.

A arte de Cameron Stewart é o grande destaque. Ela consegue manter não só a narrativa, como traduzir toda a ironia do texto de Palahniuk de forma visualmente criativa. O design das páginas, os enquadramentos, a brincadeira com a metalinguagem, tudo isto é feito de forma brilhante. A arte acaba sendo o grande destaque da hq. Chuck Palahniuk, estreante na mídia quadrinhos, até demonstra um bom uso da linguagem. É no conteúdo, entretanto, que os problemas aparecem.

Atenção: A partir de agora, a resenha contém spoilers da hq. Leia por sua conta e risco.

Quando falei que o autor tem raiva do personagem, não foi por acaso. A intenção dele parece ter sido a de destruir todo o “legado” de Tyler Durden. Isso inclusive irritou muitos leitores, resultando numa recepção morna da hq lá nos EUA.

A ideia que o autor lança é a de que Durden é um vírus que passa de pai para filho. Assim, esteve presente no pai e no avô de Sebastian, e também está em seu filho. Inclusive há uma cena de luta entre os dois no final, com Durden no corpo da criança. Toda a sutileza do primeiro livro é jogada fora aqui.

A metalinguagem inclui aparições do próprio Chuck Palahniuk, inclusive ligando para personagens da trama para dizer o que devem fazer a seguir. E a hq termina com Tyler Durden dando um tiro na cabeça de Palahniuk, numa forma do autor dizer que nunca será maior que o personagem que criou.

Todas ideias talvez funcionassem se não fossem tão exageradas. Em alguns momentos vemos boas ideias (como a invasão dos asseclas de Durden a um museu), e depois a coisa cai no ridículo como na luta do pai com o filho, entre outros exemplos. Se por um lado o autor foi corajoso em fugir do original, por outro ele em alguns momentos passa a ideia de que quer realmente destruir sua própria obra. O que até poderia resultar em algo épico, mas acaba sendo apenas extremamente irregular.

Quando rompeu a primeira regra e criou o Clube da Luta, Chuck Palahniuk acabou abrindo a Caixa de Pandora e liberando o demônio que é a síntese perfeita de todos os medos masculinos da sociedade capitalista da virada do milênio. Uma vez liberto, não há mais como prender o gênio de volta para a garrafa. Nesse novo livro, aprendemos que não são ironias pós-modernas que irão derrotar arquétipos. Talvez essa seja a lição que o próprio Palahniuk tenha a duras penas aprendido.

Clube da Luta 2

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Clube da Luta 2 Rafael Monteiro
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