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Capitão América, Agente da Hidra: Boa ou Má ideia?

Capitão América Agente da Hidra

A atual fase do Capitão América nos quadrinhos está cercada de polêmicas. Conduzida pelo roteirista Nick Spencer, a trama das últimas revistas do personagem revela que Steve Rogers foi um agente nazista infiltrado no exército norte-americano. Sob a liderança do Caveira Vermelha, sua missão era repassar informações à Hidra, a organização terrorista surgida para apoio ao nazismo e que ganhou vida própria com o fim da Segunda Guerra Mundial, e até hoje é a principal fonte de inimigos para os heróis da Marvel.

Pois bem, para muitos fãs do personagem, essa foi uma notícia dura de aguentar. O herói que sempre representou o sonho americano, inclusive contra os próprios políticos por muitas vezes (como bem demonstrado no filme Capitão América: Soldado Invernal) de repente “sai do armário” e diz que esse tempo todo estava nos enganando. Na verdade, ele sempre acreditou no oposto do que sempre fez. Logo surgiram leitores revoltados nas redes sociais, discordando como só um fã consegue dos rumos que estavam dando ao Capitão.

Passado o susto inicial, pode-se analisar que esta tática já foi muito usada no passado: tudo o que você sabe sobre seu herói favorito é uma mentira, e só agora vamos contar a verdade. Os resultados costumam não ser os melhores, sendo A Saga do Clone do Homem-Aranha o melhor exemplo de quão desastrosas podem ser, na prática, as consequências deste tipo de abordagem.

O grande problema é que as grandes editoras de quadrinhos dos EUA entraram em um ciclo vicioso de depender de grandes jogadas de marketing para conseguir alguma atenção. Assim, a cada seis meses vem, ou uma nova megassaga para mudar todas as regras, ou uma revelação chocante sobre algum personagem, ou uma morte inesperada. O pior é que depois de um tempo tudo volta como antes, o que faz com que estes anúncios caiam cada vez mais em descrédito.

A Marvel, por exemplo, sofreu uma queda vertiginosa em suas vendas do ano passado para cá. Por coincidência, justo após a saga Secret Wars, que resolveu criar continuações para todas as boas histórias do passado da editora ao mesmo tempo. Houve até quem culpasse a diversidade pela queda nas vendas, mas isto não se mostrou verdadeiro, uma vez que o novo título do Pantera Negra, por exemplo, foi um dos mais vendidos no ano. Mas aí qual foi a grande ideia da editora? Criar mais dois títulos do personagem.

A DC, por seu lado, segue na mesma toada, com o agravante de agora querer forçar uma ligação do seu universo tradicional com Watchmen, ao mesmo tempo em que desfaz tudo o que começou há poucos anos com os Novos 52, o que mostra o quanto está perdida editorialmente.

Ambas parecem não ter aprendido com os erros dos anos 90: sagas intermináveis, mudanças “definitivas” que não permanecem por muito tempo. Até para as capas variantes estão apelando cada vez mais. Enquanto isso, o conteúdo das histórias parece não importar. O que vale é fazer algo espalhafatoso para tentar aumentar artificialmente o número de vendas. Essa tática não se sustenta a longo prazo, e a consequência é o que aconteceu na época e agora está se repetindo: vendas cada vez mais baixas e retração do mercado.

Somado a tudo isso, ainda temos reboots constantes que do dia para a noite mudam tudo o que o leitor estava acompanhando. Tudo isso para inundar as lojas com revistas número 1. Isto foi feito tantas vezes nos últimos anos que já não faz mais efeito no total de vendas, sinal claro de saturação do público.

É nesse contexto que a ideia de transformar o Capitão América em um agente da Hidra parece ter sido uma má ideia: traz uma mudança que todos sabem que no longo prazo vai ser revertida e dá início a mais uma grande saga (Secret Empire), algo do qual o público mostra estar cada vez mais cansado.

A intenção do autor parece ter sido boa, refletir a divisão política pela qual os EUA vêm atravessando nos últimos anos. Mas não foi assim que o público a recebeu, principalmente quando veio junto das acusações da editora ser contra a diversidade dos seus personagens. Agrava ainda o fato de o atual Presidente da Marvel, Ike Pelmuter, ser uma das pessoas que mais doou dinheiro para a campanha de Donald Trump.

Para piorar, nos quadrinhos, foi retirada a conexão da Hidra com o nazismo, isso em meio à ascensão de movimentos de supremacia branca nos EUA, o que ajudou a botar mais lenha na fogueira. Enfim, conseguiram trazer para a HQ toda uma discussão pretérita que sem dúvida afetou os ânimos dos leitores.

O problema chegou a tal ponto que a editora teve que fazer um anúncio oficial para assegurar aos fãs que o Capitão América continua sendo um herói, pedindo ainda aos leitores para terminar de lerem a saga antes de tirarem conclusões definitivas.

O próprio Universo Marvel do cinema está mostrando o quanto a popularidade destes personagens é forte. O primeiro Homem de Ferro é de 2008 e até hoje o público não dá sinais de que cansou dos heróis. A editora, por algum tempo, conseguiu capitalizar essa popularidade para os quadrinhos. Contudo, se preocupou tanto em fazer jogadas de marketing que parece ter se esquecido do principal: contar histórias simples e divertidas com as quais os fãs consigam se identificar.

Assim, o episódio vem coroar uma série de equívocos editorais e, ao mesmo tempo, serve de alerta. A editora precisa mudar de rumos o mais rápido possível, sob pena de perder boa parte do público que conquistou nos últimos anos.

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  • Luísa Domingos

    Melhor texto esclarecedor que li sobre!

    • Rafael Luppi Monteiro

      Obrigado, Luísa!

  • Yuri Gonçalves

    Acho que o problema está mais no fato do marketing e das pessoa hoje lerem as coisas só através das manchetes. A história em si não esconde que está relacionada aos efeitos de uma distorção da realidade/cubo cósmico…

    • Rafael Luppi Monteiro

      Acho que o problema está muito no marketing sim, a Marvel vem abusando muito dele e nesse caso foi totalmente equivocado.

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