Trocando Ideias

Os Sofrimentos do Jovem Wertham

Os Sofrimentos do Jovem Wertham e 13 Reasons Why

“Sejamos realistas, exijamos o impossível”, clamavam as barricadas de Maio de 68. Quase 50 anos depois, não conseguimos nem o impossível, nem ser realistas. Ao contrário: a utopia morreu, e adentramos numa distopia onde cada um busca ficar confortável como pode dentro da sua bolha.

A polêmica recente em torno da série 13 Reasons Why mostra como anda nosso estado de espírito. Para quem ainda não a conhece, a trama fala sobre o suicídio adolescente, com cenas fortes de abuso. Isso bastou para que houvesse (mais uma) gritaria na internet, com acusações contra os produtores e criadores pelo tratamento que deram ao tema.

Houve até um crítico brasileiro que explicitamente recomendou que a série não deveria ser assistida. Citou o chamado “Efeito Werther”, referente ao livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, que teria causado uma onda de suicídios na Europa no século XIX. Mas eu prefiro chamar de “Efeito Wertham”, fazendo referência ao psiquiatra Fredic Wertham, que nos anos 50 liderou uma cruzada contra as histórias em quadrinhos sob o pretexto de que estas mostravam imagens fortes e inadequadas para as crianças, o que as desviava da retidão moral e as levava ao mundo do crime. Wertham agia com boas intenções, só queria proteger as crianças, mas acabou fazendo um estrago que prejudicou a indústria dos quadrinhos nos EUA por pelo menos uma década (sem levar em conta o preconceito com as HQs que até hoje ainda perdura).

Em 2016, a OMS apresentou uma pesquisa afirmando que vivemos uma epidemia mundial de depressão. Cerca de 10% da população mundial possui a doença, e esta percentagem está em ritmo de expansão. Então, temos uma série falando seriamente sobre o tema, e a nossa preocupação é ficar cagando regras de como um artista pode ou não tocar no assunto. Pois é lógico que é ver a série na TV que vai levar alguém a se matar, e não todo uma estrutura social massacrante, que aliena seu trabalho do resto de sua vida, estimula a competição desenfreada e premia comportamentos abusivos de toda sorte. Mas buscar soluções que realmente procuram resolver o problema é difícil e desestimulante, e nossos cérebros estão cada vez mais viciados em obter satisfação instantânea. Por isso, é mais fácil descarregar as frustrações em algo mais tangível como uma obra audiovisual.

Este é apenas um exemplo de como estamos fugindo de nossos problemas. A cada dia surge uma nova polêmica, e estamos todos preocupados em fazer aquele post lacrador que vai ganhar uma enorme quantidade de likes. O problema é que os algoritmos das redes sociais cada vez mais fazem com que só quem concorde conosco consiga ler o que postamos. Sua timeline vai cada vez mais se tornando a sua bolha, mostrando apenas coisas que lhe agradam ou pessoas que pensam como você. É assim que podemos explicar, por exemplo, as surpresas das eleições sobre o Brexit e Trump. Se eu só converso com pessoas razoáveis e inteligentes que pensam igual a mim, como é que a realidade pode contradizer o que sempre todos me asseguram ser verdade?

O documentário HyperNormalisation de Adam Curtis bota com vontade o dedo na ferida: estamos cada vez imersos numa narrativa que mistura realidade e ficção onde fica impossível distinguir o que é uma ou outra. O pior, sabemos que estão mentindo para a gente, mas continuamos agindo como se a mentira fosse verdade. Nos tornamos cada vez mais cínicos para tentar nos adaptarmos ao que nos é cobrado. Como na União Soviética dos anos 1980, que implodia a olhos vistos, mas todos seguiam com suas rotinas habituais. Nossa sociedade cada vez mais pende para o individualismo enquanto desaba, e tudo o que fazemos é entrar em nossos bunkers virtuais para ter a ilusão de que estamos seguros.

E assim, de polêmica em polêmica, vamos atacando os sintomas e deixando intocada a doença. Não resolvemos nada, mas escolhemos coletivamente um caso para que nele seja feita a justiça. E quando o ator machista é demitido ou o abusador é expulso do reality show, ficamos com a sensação de dever cumprido, de satisfação pessoal por aquele nosso post ou comentário ter contribuído para o final feliz. O que não percebemos é que cada um desses casos que ganham notoriedade é uma gota no oceano, e toda a energia que gastamos no episódio singular nos falta para enfrentar o problema social e político em toda sua complexidade. Voltando ao HyperNormalisation, o que aconteceu com movimentos como Occupy Wall Street e a Primavera Árabe é que, enquanto gastaram suas energias focando no micro, foram atropelados pelo macro.

A nossa fuga da verdade é tão grande que agora estamos querendo nos preocupar em o que pode ser dito, e como deve ser dito. Houve até um comentário sobre 13 Reasons Why falando que a série era ruim por não dar esperança. Mas a função do artista agora é dar esperança, tal como um religioso consola seus fiéis? Imaginem se Édipo-Rei terminasse com o protagonista sendo perdoado pelos deuses, ou se em 1984, o Grande Irmão fosse derrotado e todos terminassem livres da opressão.

O objetivo aqui não é apontar o dedo para ninguém. Este é um problema coletivo: nossas forças e nossas boas intenções nos levam a buscar soluções imediatas. O que não percebemos é que nossos esforços podem estar sendo em vão. A urgência em tudo e a eterna sensação de correria nos deixa cansados, sem forças para perceber que o problema é muito mais profundo e complexo do que aparecem nas redes sociais. E não por acaso, a depressão e o suicídio só fazem aumentar. O que nos falta é parar, dar aquele respiro profundo e começar a agir, não só reagir. Ou atacamos a raiz do problema, ou vamos continuar uma sociedade doente e sem esperança. Como o Dr. Wertham, nossas boas intenções podem estar mais agravando a situação do que efetivamente as resolvendo, nos jogando cada vez mais nos braços de quem controla esta distopia chamada Século XXI.

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  • Marcos Wagner Curcio

    Não duvide sobre Hannah Backer aparecer viva ao final da serie para justificar uma lição de moral sobre bullyng.

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