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Precisamos Falar Sobre Bullying

Os 13 Porquês

A adaptação do livro Os 13 Porquês (de Jay Asher, lançado no Brasil em 2009 pela editora Ática) como série para a Netflix levantou um debate saudável na internet sobre bullying, depressão adolescente e tudo mais relacionado a esses temas. Muita gente, assim como eu, sentou e assistiu aos treze episódios de uma vez, mesmo com a temática pesada, que fala sobre uma menina que comete suicídio e deixa 7 fitas com as 13 razões que a levaram a cometer o ato.

Ser adolescente é difícil, a gente precisa lembrar disso. Hormônios em ebulição que geram novos sentimentos, além de um corpo em transformação, pode ser uma combinação terrível. Muitas vezes é difícil se sentir à vontade no próprio corpo e é horrível quando alguém percebe e usa isso contra você. A angústia adolescente é uma realidade, podendo ser mais forte em uns do que em outros, mas ela está ali o tempo todo.

Lembro perfeitamente quando eu tinha entre 14 para 15 anos e precisei mudar de escola. Eu estudava numa escola bem pequena, a quatro prédios da minha casa, e estudava praticamente com as mesmas pessoas desde o jardim de infância. Com 14 anos, fui para uma escola maior, com duas turmas por série e a três ruas da minha casa. Eu sei que meu mundo não mudou tanto assim, mas quando você é adolescente, o seu mundo é sua escola, e essa mudança foi grande sim. Na verdade, eu estava empolgada de mudar de escola, de conhecer gente nova e começar uma nova etapa. Só que tudo desandou muito rápido, por causa de uma fofoca. Com poucas semanas na escola nova, a menina mais marrenta da sala tinha se virado contra mim, porque outra menina inventou uma história entre nós duas. Foi um pesadelo. Eu tinha medo de ficar sozinha na hora do recreio, de ir embora para casa e muitas pessoas passaram a me olhar meio estranho porque eu era a menina nova que arranjara confusão com a marrenta.

Sempre gostei muito de ler e de ver filmes e eles se tornaram meu refúgio naquele momento ruim. Mas o que realmente me ajudou e segurou minha barra foi outra menina, que ficou minha amiga e me apoiou como pôde nessa situação. Na verdade, meu sofrimento durou só algumas semanas. Logo a história foi esquecida. A fofoqueira arranjou outro alvo e descobri que a menina brigona nem era tão má assim. No ano seguinte, entrou uma aluna nova na minha turma e eu acabei me aproximando dela, talvez por lembrar como era ser a aluna nova. Curioso é que sou amiga dela até hoje e, também, da menina que ficou do meu lado, mas não tenho contato com quase mais ninguém daquela turma.

Quando olho para trás, essa é uma história que nem me incomoda mais, até acho meio engraçada toda a confusão, mas lembro de ter ficado muito triste na época, de querer sumir, sair daquela escola, foi realmente muito ruim. Fico pensando como teria sido hoje em dia, com Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat e todas as formas que podem tornar algo pequeno em uma coisa enorme e horrível. Por isso achei a série 13 Reasons Why (Netflix, 2017) tão relevante, porque a série mostra que pequenas ações podem tomar proporções enormes, que uma pessoa que já está propensa a ser depressiva e duvidar de si mesma passa a sentir tudo isso com muito mais intensidade. E sim, é muito difícil para um adolescente se abrir sobre o que está acontecendo com ele, porque a primeira reação de um adulto é achar que é besteira. Lembra quando VOCÊ tinha 16 anos e como o mundo pesava muito nas suas costas? Mesmo que o seu mundo fosse só a escola? Imagina se esse mundo se virasse contra você e não houvesse apoio em lugar algum. Imagina estar descobrindo que você não é mais criança, que tem uma sexualidade e que o mundo pode te machucar de várias maneiras, física e mentalmente.

Há muito mais exposição hoje em dia, o bullying ganhou uma proporção perigosa, onde cada vez mais lemos histórias de adolescentes que se mataram porque não aguentaram a pressão, por se sentirem sozinhos e sem amparo. E aqueles que sobrevivem, muitas vezes tornam-se adultos traumatizados. Por isso acho que 13 Reasons Why deveria ser obrigatória para que todo adolescente a partir dos 16 anos assista, de preferência com os pais. E que todos os adultos assistam também. Ela fala sobre temas que sempre são tratados como tabu ou com uma sutileza que não cabe mais. Com muita sensibilidade e um elenco maravilhoso, a série é bem honesta sobre bullying, cyberbullying, sexualidade, assédio, abuso sexual e suicídio. É preciso continuar esse debate que a série abriu nas redes sociais e trazê-lo para a vida real, deixar claro que para toda ação há uma reação e essa reação pode custar a vida de alguém.

*A série contém gatilhos que podem gerar angústia, mas levanta um questionamento válido sobre suicídio. Se você acha que precisa conversar com alguém, um bom apoio é o Centro de Valorização da Vida, responsável pelo Programa CVV de Valorização da Vida e Prevenção ao Suicídio. Existem Postos do CVV em todo o Brasil. Há atendimento pessoal em cada um deles, assim como por e-mail, chat e telefone através do número 141. Para mais informações sobre o Programa acesse o site: cvv.org.br 

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  • André Luis Costa

    E assistam o documentário de meia hora com a equipe e elenco falando sobre os temas. Incômodo e angústia sim, mas conhecimento e reflexão também estão presentes

  • Alice Silva Viana Moura

    Tô louca pra ver essa série.

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