Trocando Ideias

No Hay Banda!

No hay banda!

“No hay banda!”, nos lembrava David Lynch em Mulholland Drive. Neste filme, a protagonista vivida por Naomi Watts tem uma vida perfeita, onde chega à Hollywood e tudo dá certo, conseguindo uma grande carreira e vivendo uma história de amor. Contudo, à medida que a trama se desenrola, compreendemos que aquilo é literalmente um sonho: ela não consegue grandes papéis e seu grande amor na verdade a abandona à própria sorte em prol de interesses pessoais. O momento de transição é justamente a cena mais onírica, na qual o apresentador no palco nos alerta de que tudo aquilo não passa de ilusão.

Pois o que nos falta hoje é alguém para nos avisar que vivemos uma ilusão. No tempo da pós-verdade, a realidade se apresenta como algo fugaz e que perde sua importância. O que vale é a construção do discurso que valide todas as premissas de quem o produz ou consome. Os fatos passam a ser irrelevantes se não confirmam o que o receptor desse discurso já acredita. As discussões passam então a ser apenas afirmações de força contra quem pensa diferente. Trocar ideias não importa, o que se pretende é “lacrar”, de forma a calar outras visões de mundo.

A cultura pop já trabalhou de diversas formas com essa dualidade real/irreal. A mais icônica, sem dúvida, foi Matrix, onde a divisão fica clara para o espectador. As irmãs Wachowski se inspiraram na obra de Jean Braudrillard, que em seus livros apontava para a irrealidade do que se tinha como real. O filósofo francês, contudo, rejeitou a obra porque, para ele, essa divisão não era assim tão clara: aqui é o mundo real, aqui é o mundo imaginado. Na verdade, ambos são misturados, e quem está imerso nessa experiência não consegue distinguir claramente onde começa um e termina outro.

De qualquer forma, essa abordagem não foi única nesse período de transição da virada do século. Também podemos lembrar de eXistenZ, de David Cronenberg, Clube da Luta, de David Fynch, além do já citado Mulholland Drive. Olhando em retrospectiva, parece que a arte já estava antevendo qual seria a tônica do Século XXI: se não questionássemos o que entendemos como real, poderíamos todos ser engolidos pelas forças hegemônicas sem nem percebermos.

A própria teoria da relatividade e a física quântica já deram os indícios de que precisamos reescrever o que entendemos ser natural. Seus postulados implicam na aceitação de uma realidade que não só não está ao alcance de nossos olhos, como na verdade que muitas vezes implica em aceitar que nossa visão não corresponde à verdade.

Assim, não é surpresa que o obscurantismo volte com forças, criando um apelo a um passado idealizado que também não corresponde a como as coisas realmente eram. A rejeição à ciência, a recriminação de qualquer um que fale em racismo ou feminismo, tudo isso entra num mesmo balaio que implica admitir que há algo de errado no mundo. As mudanças são vistas como ameaça, e não como formas de fazer justiça. A presença de diversidade na cultura pop implica em lembrar que algo nesse passado idílico não era tão bom assim, e isso destrói a nostalgia por esta época. Justamente por isso é que são tão fortemente rejeitadas: são um constante lembrete de que antigamente não era melhor do que hoje.

A virulência das redes sociais ocorre porque nelas não há como cada um fugir para seu cantinho. A não ser que se bloqueie qualquer pessoa que pense diferente, incluindo aí familiares e colegas de trabalho, haverá sempre esse choque de ideias. E nesse contexto proliferam os sites de fake news, que ganham cliques por dizer o que as pessoas querem ouvir. E as notícias falsas se proliferam ao ponto que, cada vez mais, vai ficando impossível se distinguir o que é fato do que é invenção. E a maioria parece na verdade nem se importar com isso, criando uma seletividade que só lembra da realidade quando esta lhe convém.

O autor que mais trabalhou de forma consistente essa dualidade foi Philip K. Dick. Seus protagonistas sempre se encontram em situações onde precisam questionar o que entendem como realidade para poder se salvarem. Abraçar o real é se entregar ao inimigo e à morte. Somente rejeitar a realidade torna a libertação possível. O que acontece hoje, porém, é o oposto: a falsa realidade não liberta ninguém, mas apenas mantém todos aprisionados em seus próprios grilhões.

Na obra de Dick, toda a realidade construída era elaborada com a preocupação de beneficiar quem ocupava o Poder. Talvez seja esta a grande lição: a quem beneficia manter as coisas como estão? É só ver quem realmente manda no mundo que fica fácil responder. O problema, contudo, está justamente no fato de que não podemos mais confiar em nossos próprios olhos.

Essa coluna é fruto de uma troca de ideias com Alex Mandarino, Diego Aguiar Vieira, Dell Freire e Lucio Manfredi, e é dedicada à Bernardo Parreiras Salgueirinho.

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