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A Criada

Creed II

Nível Épico

História de amor e vingança

(Ah-Ga-Ssi) – Drama. Coreia do Sul, 2016. De Park Chank-Wook. Com Kim Tae-Ri, Kim Min-Hee, Ha Jung-Woo e Jin-woong Jo. 2h24min. Distribuidora: Mares Filmes. Classificação: 18 anos.

A ocupação japonesa de territórios asiáticos durante a década de 1930 é um assunto ainda hoje bastante delicado. Volta e meia surge a notícia de algum incidente diplomático tendo como pano de fundo as questões não resolvidas deste período. Coube ao diretor Park Chank-Wook, de filmes fortes como Oldboy e Sede de Sangue, usar esse tema complexo para ilustrar uma história de amor entre uma japonesa e uma sul-coreana em A Criada.

Durante este período, Sookee (Kim Tae-ri) é chamada para participar de um golpe visando obter a fortuna de Hideko (Kim Min-Hee), uma herdeira japonesa que vive uma vida reclusa, controlado por seu tio Kouzuki (Jin-woong Jo). O plano consiste em fazer a herdeira se apaixonar pelo falso Conde Fujiwara (Ha Jung-Woo). No entanto, aos poucos Sookee e Hideko vão se entendendo, o que leva a ambas a passarem a enxergar as coisas de uma nova maneira.

A riqueza do filme está na sutileza com que aborda as polêmicas. Há críticas sutis não só ao belicismo e à ocupação japonesa, como também a própria estrutura patriarcal da sociedade. As protagonistas Sookee e Hideko são mulheres submetidas à vontade dos homens que as cercam, mais interessadas em usá-las como maneiras de obter fortuna ou objetos sexuais. Suas vontades e desejos são sempre reprimidos dentro dessa estrutura social, e somente encontrarão forças uma na outra para saírem do papel ao qual são submetidas.

Conhecido pelas incisivas cenas violentas, Park Chank-Wook desta vez surpreende pelo lirismo e pela beleza das cenas de sexo. A tensão sexual das protagonistas traz um clima de erotismo que vai crescendo ao longo da trama e explode quando elas finalmente se entregam. A química entre as atrizes funciona muito bem, o que faz com que as cenas mais picantes aconteçam de forma bastante natural. Arrisco dizer que são as melhores cenas do gênero filmadas nos últimos anos. A função narrativa delas é muito bem definida, o que dá uma grande força ao filme.

É difícil falar da trama sem dar spoilers, pois o roteiro possui algumas reviravoltas. Mas os personagens são bem construídos, e as atuações muito boas. Os personagens masculinos poderiam cair no estereótipo, mas conseguem ter uma força própria que os retira do mero clichê. A direção de arte de Ryu Seong-hie também merece destaque, com cenários e figurinos belíssimos (não à toa, foi premiada em Cannes). A biblioteca do Tio Kouzuki (Jin-woong Jo) em especial é deslumbrante para os amantes de livros, e ainda garante a cena mais catártica do filme.

Enquanto os homens estão em seus jogos de guerra e poder, as mulheres, abandonadas à própria sorte, constroem seu próprio destino. De países diferentes, em guerra, elas possuem em comum a posição subalterna dentro do patriarcado. Somente unidas, agindo em nome do amor e não de outros interesses, é que encontram sua força. A crítica do filme, portanto, não é só à ocupação japonesa, mas a toda uma estrutura social que objetifica as pessoas. O amor, sem fronteiras e sem limites, parece ser a única alternativa.

A Criada Rafael Monteiro
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