Contos

As Lâminas do Santo Ofício – Capítulo 02. Fogo de Origem Desconhecida

A Retalhadora é a atual detentora de quatro das sete Lâminas do Santo Ofício, espadas com habilidades sobrenaturais cobiçadas por duas facções que se enfrentam em uma terrível batalha pelo fim do mundo. A Raça de Fogo e a Raça de Marfim travam uma guerra nas sombras da humanidade e ambas acreditam que a portadora das Lâminas pode influenciar os rumos do confronto. A Raça de Marfim tenta matá-la. A Raça de Fogo uma vez também tentou, mas agora precisa tê-la como aliada por causa de um objetivo em comum. O problema é que a irmã da Retalhadora faz parte da Raça de Fogo. Elas têm um passado doloroso de ódio e vingança com o qual precisarão lidar se quiserem sobreviver a essa guerra.

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As Lâminas do Santo Ofício


02. Fogo de Origem Desconhecida

Um. Dois. Três. Quatro…

Era difícil dormir depois de tanta matança, tantos respingos vermelhos entranhados na alma. Mesmo o banho demorado, o esforço de esfregar a esponja cheia de sabão até quase arrancar a pele, não adiantava para sumir com o cheiro mórbido de sangue que a acompanhava onde quer que fosse. Ela contava mentalmente na vã filosofia de que a faria dormir melhor.

Dezesseis. Dezessete. Dezoito. Dezenove…

Tolice sem sentido.

Revirava para um lado, revirava para o outro, esfregando nervosismo no travesseiro e nos lençóis, impregnando a cama com mácula sangrenta de sonhos vazios. Quando o sono viesse, a dor passaria. A realidade entraria no eixo.

Quarenta e dois. Quarenta e três. Quarenta e quatro…

A pele estava descascando. Sem realmente estar. Infectada por manchas rubras e escaras de queimaduras purulentas. A podridão do corpo era a podridão do espírito. O sonho da morte era o sonho da solidão. As unhas arranhavam feridas, coçando e coçando, crescendo e quebrando, coçando até sangrar. O estômago doía. De fome e de prazer. De incômodo pelo desejo de matar. De satisfação pela excelente arte de assassinar.

Cento e trinta e um. Cento e trinta e dois…

O coração pulsou um solavanco. O silêncio estraçalhado por um estrondo. O ruído agudo do rádio despertador. A voz esganiçada de um locutor excessivamente feliz rompeu o silêncio para um anúncio de qualquer coisa:


“…pra você que queima dentro de si mesmo, perdido em suor e solidão, aqui vai uma canção para equilibrar as coisas e trazer ânimo nessa noite quente de verão. JBFM, música e informação…”


When you pass through the fire, you pass through humble

You pass through a maze of self doubt

When you pass through humble, the lights can blind you

Some people never figure that out


A mão tateou sonolenta sobre o pequeno criado-mudo ao lado da cama até encontrar o rádio despertador. As pálpebras lutaram para se abrir, os olhos rastejando em grãos de areia. Pequenos fachos de luz da cidade invadiam timidamente o quarto através das persianas da janela. O relógio do aparelho marcava 21:17 em números digitais esverdeados que riscavam a escuridão.

Os dedos vasculharam entre pedaços bagunçados de palha de milho e punhados espalhados de tabaco, agarrando o isqueiro e um cigarro mal enrolado de uma pequena pilha. Ela levantou-se deixando o lençol escorrer até as pernas cruzadas enquanto se posicionava sentada, vestindo apenas roupa íntima, o torso nu e lustroso por causa do suor; pôs o cigarro de palha nos lábios, acendeu e tragou devagar, o calor na garganta despertando os sentidos, o sono escapando lentamente junto à fumaça enquanto fazia uma anotação mental

(preciso limpar esse chiqueiro.)

As mechas ruivas caíam sobre o rosto enquanto suspirava pelo quarto sujo e desarrumado, as pilhas de folhas soltas, livros e cadernos largados pelos cantos empoeirados, as roupas sujas da noite anterior jogadas em cima da poltrona velha que normalmente lhe servia de cabide; o armário embutido na parede oposta à janela estava escancarado com meia dúzia de mudas de roupa, alguns pares de tênis, botas e sapatos, uma bolsa de viagem, uma mochila, e uma katana guardada em uma bainha preta. Ela amargou por um instante o ressentimento de não conseguir controlar plenamente a Dança da Morte a ponto de absorvê-la no corpo como fazia com as outras três Lâminas do Santo Ofício sob seu poder. A Dança da Morte era a espada preferida do pai.

Sobre a cômoda de madeira descascada à frente, a televisão de tubo a encarava desligada, eventualmente iluminada pelo brilho do Moto G ao lado que piscava cada vez que registrava uma notificação de mensagem. Quando terminou o cigarro, saiu da cama e arrastou os pés pelo carpete marrom até o banheiro no corredor de entrada, ao lado da porta. Escovou os dentes apoiada com uma mão sobre a pia, esperando o corpo voltar a ter forças para ficar de pé sozinho por mais do que alguns segundos.

Ligou a torneira, bochechou um pouco de água e cuspiu a espuma na pia; os olhos pararam por um instante no espelho. Esfregou com o dedo uma pequena espinha que se formara entre as sardas do nariz e da bochecha. Maldita adolescência. Chegar aos 20 anos ainda não era o bastante para se livrar totalmente dela. Não espremeu a espinha; não queria ficar com marcas desnecessárias no corpo além das cicatrizes que colecionava por causa de uma vida de duelos de espada e assassinatos por finalidades questionáveis. Encheu as mãos juntas de água, lavou o rosto, secou na toalha e voltou para o quarto; vestiu uma calça jeans surrada que catou no armário, tênis, um sutiã e a primeira camisa que encontrou. A blusa estava toda amarrotada.

Deu uma olhada no celular ao lado da televisão, que não parava de piscar, a bateria quase no fim. Passou os olhos pelo display apenas para constatar o que imaginava. Simone estava preocupada: 16 ligações perdidas e 54 mensagens não lidas. Deslizou o dedo na tela com um suspiro e abriu o aplicativo de mensagens com alguns toques. Não conseguiu evitar outro suspiro, e de levar a mão ao rosto pelo sentimento divertido de vergonha alheia. O exagero de mensagens ansiosas da amiga a fizeram relaxar.


“Onde vc tá?”

“Vc não me responde”

“Odeio quando vc sai sem celular”

“Vc saiu sem celular não saiu?”

“Vc foi matar alguém, né?”

“Meudeusdocéu pelamordedeus responde mulher!!!”

“Meudeus vc morreu!!! Mataram vc!!!”

“Putaquepariu o que vou fazer putaquepariu o que vou fazer???”

“Vc quer me responder, eu sei que vc tá aí”

“Droga, não vou conseguir dormir desse jeito”

“Bom diaaaa!!! Vc tá bem?”

“Vc continua sem responder, tá foda heim!”

“FELIZ NATAAAAL, sua vaca, te amo!!! Espero que esteja viva!”

“Ah é… vc não morre fácil, que idiota que sou”

“Mas ainda me preocupa”

“Um dia quem vai morrer sou eu… affff”


Foram algumas das mensagens que conseguiu garimpar no meio de um monte de carinhas sorridentes e desesperadas, pontos de exclamação e coraçõezinhos coloridos. Simone usava corações como quem usava reticências. Com toques rápidos na tela, digitou uma mensagem para a amiga.


Bia:

“Tô bem e viva, fica tranquila, só estava dormindo”

“Noite cansativa”


A resposta veio de imediato.

Simone:

“Porraaaa!!! Até que enfim! Quer me matar do coração?”

“O que aconteceu?”


Bia:

“Te conto depois, preciso sair e comer, dormi o dia todo”


Simone:

“Tá de sacanagem???”


Bia:

“Vou te ver amanhã e te conto”


Simone:

“Acho bom mesmo”


Bia:

“Também te amo. Até mais.”


Ela finalizou com mais alguns coraçõezinhos e uma carinha mandando beijos. Bia largou o celular de volta sobre a cômoda, ao lado da televisão. O rádio tocava alguma outra música. Ela o desligou sem prestar atenção. Pegou o último cigarro de palha que tinha enrolado na bagunça do criado-mudo, acendeu e saiu. O relógio marcava 21:59 quando fechou a porta do apartamento.

Alguma coisa no ambiente do lado de fora do edifício despertava-lhe um pressentimento inconveniente de familiaridade. Não era o calor intenso típico de uma noite de verão no Rio de Janeiro. Nem o cheiro de urina das sarjetas usadas de latrina pelos incontáveis moradores de rua dos arredores. As ruas exalavam um cheiro exageradamente místico. Algo de magia no ar. Nem mesmo o tabaco queimado do cigarro de palha conseguia sobrepujar o odor de cloro que se misturava à leve sensação ferrosa de sangue derramado. Bia conhecia aquele sentimento de falsa pureza; dos justos que tentavam lavar o sangue das ruas com a falta de inocência.

Caminhou sem pressa pela parte baixa da mureta, o movimento de pedestres reduzido a não ser pelas travestis que tentavam ganhar a vida nas calçadas da Avenida Augusto Severo. O cigarro fumegava na boca. Entre uma ou outra tragada, faróis iluminavam toscamente o paredão. Carros iam e vinham, as janelas dos motoristas sempre abertas para os serviços que a calçada tinha a oferecer. Mais a frente desviou de um morador de rua empoleirado em um universo particular de guimbas de cigarro espalhadas pelo chão para subir as escadas até a Rua da Glória na parte de cima.

Parou por um instante com o pé no primeiro degrau e lançou um olhar por cima do ombro para o morador de rua. Parecia mais morto do que vivo, embora estivesse apenas dormindo abraçado a uma meia dúzia de jornais que usava de travesseiro. Bia puxou uma nota de cinquenta da roupa e com um gesto suave, colocou no bolso da calça surrada do homem de rosto sujo que roncava saliva na barba desgrenhada.

(Feliz Natal)

Ele balbuciou alguma coisa desconexa e por um instante pareceu que acordaria. Não acordou. Apenas se atracou um pouco mais com o jornal.

Bia subiu a escada e seguiu caminho, o cigarro de palha pela metade, as cinzas caindo preguiçosas nas pedras portuguesas a cada passo em direção a um dos poucos lugares onde ela conseguia se sentir minimamente confortável na existência. O bar estaria aberto mesmo em plena noite de 25 de dezembro.

Passou por um garoto de aparência encardida e maus modos que vinha caminhando malemolente, comendo um cachorro-quente quase no fim que esparramava molho no chão a cada mordida. Ele andava e comia, mastigava e andava, comia mais um pouco, até que encheu a boca com o último pedaço, amassou o guardanapo sujo e largou por ali mesmo. Duas amigas bem vestidas que conversavam alegremente se contorceram por um instante, uma delas mirando o garoto com ares de desaprovação. Ele sequer olhou para elas, ou para o mochileiro gringo que saía da estação de metrô e quase foi atingido pelos braços inquietos. Bia soltou a fumaça de um trago e deu um passo para o lado antes que também se tornasse alvo de um esbarrão desavisado.

O bairro costumava ter aquela agitação o tempo todo, durante o dia e durante a noite, mesmo em um feriado de tão pouca gente nas ruas. Ela preferia aquela calmaria ao invés do burburinho habitual. O ar noturno exalava decadência mais intensa que durante o dia e inspirava certa nostalgia em meio ao monte de prédios baixos, sobrados, casarões antigos e igrejas neogóticas da Rua Benjamin Constant.

O cheiro de sabão barato marcava a esquina da Rua do Fialho e a sensação de pertencimento que aquele lugar despertava. Ali um grupo de homens passava o dia inteiro lavando carros e táxis que estacionavam perto dos muros desenhados com jogadores de futebol. O falatório animado dos lavadores e a cacofonia de buzinas dos taxistas cediam vez para os cachorros passeando barulhentos ou latindo presos por coleiras dentro das casas escuras. A noite se contentava com o burburinho ocasional do bar que se entocava entre tantas portas metálicas fechadas, próximo à escadaria ainda decorada com as cores verde e amarela da Copa do Mundo.

O botequim “EZEQUIEL 25:17” não passava de uma porta de metal grosseira em um canto escuro, e ainda assim era mais apresentável que a maioria dos bares da região. Bia seguiu pelo corredor escuro até o salão nos fundos, iluminado por um misto de luzes neon que coloria o ambiente ocre com uma penumbra levemente azulada.

Os frequentadores eram tão rudes quanto o lugar; homens em busca de cachaça ou perversão, ou talvez as duas coisas juntas não necessariamente na mesma ordem. Quase nunca se via mulheres, nem mesmo prostitutas; as travestis eram possessivas com o território. Duas delas estavam no salão, em mesas separadas, acompanhadas cada uma de um homem que lhes pagava bebida e em breve pagaria por outras coisas. Bia piscou para uma delas, que piscou de volta um sorriso de canto de lábio. A única mulher do local a olhou de relance detrás do balcão enquanto limpava alguns copos de vidro com um pano em frangalhos. Era a dona do bar.

— Boa noite, Nina — cumprimentou Bia.

— Boa noite, querida, você está com a cara péssima.

Bia sorriu:

— Deve ser fome.

— O que vai querer?

— Dois quarteirões com queijo e um copo de leite.

— Leite? — a voz veio de um sujeito bêbado sentado em uma mesa próxima ao balcão. — Olha só rapaziada, a ruivinha gostosa está querendo leite. Ninguém vai oferecer? Eu tenho bastante pra você ruiva — disse apertando o meio das pernas com a mão.

Bia sequer olhou.

A travesti para quem piscara segundos antes se desvencilhou delicadamente do abraço do homem que a acompanhava, levantou-se e calmamente andou até o sujeito atrevido. Antes que ele percebesse, ela estava inclinada sussurrando-lhe algo no ouvido. Os olhos dele arregalaram por um instante e a mão tremeu quase derrubando o copo de cachaça; o homem virou o líquido ardente na garganta em uma única golada, deixou alguns trocados sobre a mesa e saiu cabisbaixo, murmurando o que parecia ser um pedido de desculpas.

A travesti se aproximou:

— Dia difícil — a voz saiu mais grossa do que pretendia, apesar da delicadeza nos gestos —, é o segundo babaca que expulso hoje. Desculpe, Nina, sei que você não gosta que eu use a voz aqui.

— Contra idiotas pode usar seus truques Jedi sempre que quiser — Nina sorriu.

Ela piscou com um sorriso de canto de boca, os lábios bastante destacados pelo batom rosa choque.

— O que você disse pra ele? — perguntou Bia.

— Que você arranca testículos com um garfo.

Bia engasgou um riso:

— Parece mais truque Sith pra mim.

Nina se empertigou:

— Olha só, quem diria, ela entendeu a piada — referindo-se à Bia.

— Assisti aos Episódios I e II — ela disse como se fosse uma grande conquista.

— A gente conversa no Império Contra-Ataca, querida — Nina fez uma expressão condescendente. — Ainda me pergunto como alguém pode nunca ter visto Guerra nas Estrelas.

— Não queira saber — a sombra que passou pelos olhos de Bia jogou o salão em um silêncio desconfortante.

Nina desviou o olhar, pegou um copo de vidro recém-limpo e saiu pela porta que levava à cozinha nos fundos do bar, a pele magra e ressecada transparecendo ainda mais palidez em meio ao azul.

— Um dia ainda vou descobrir por que você sempre faz essa cara de enterro quando o assunto é seu passado — a travesti se inclinou para Bia sorridente, os cabelos descolorados caindo pela lateral do pescoço. — Acho que vou usar a voz em você só um pouquinho — sinalizou fechando os dedos polegar e indicador.

— Você não seria indelicada a esse ponto, Pam — Bia relaxou, embora não tenha sorrido.

— Tem razão, não seria… sou uma lady! — ela jogou o cabelo para trás com um safanão.

Nina voltou com o copo de leite:

— Botei duas colheres de açúcar, como você gosta.

Pam estendeu a mão para a dona do bar:

— Me dá uma ficha pro jukebox, honey. Precisamos de um pouco de música por aqui. Essa melancolia de Natal cansa minha beleza.

Nina abriu uma pequena gaveta metálica embaixo do balcão, pegou uma ficha em uma pilha de fichas e entregou à travesti.

— Alguma preferência? — ela perguntou à Bia.

— Me surpreenda.

A travesti sorriu e seguiu até o jukebox nos fundos do salão, colocou a ficha, digitou nas letras e números da máquina e voltou para a mesa onde o acompanhante a esperava. Não sem antes dar outra piscadela e um sorriso rosado para Bia.


Death comes sweeping through the hallway

Like a lady’s dress

Death comes driving down the highway

In it’s Sunday best

A fire of unknown origin took my baby away

A fire of unknown origin took my baby away


Bia teve que sorrir.

— Já trago seus quarteirões — disse Nina antes de sumir novamente pela porta da cozinha.

O maldito cheiro de magia invadiu-lhe as narinas, empesteando o ar com uma sensação sinistra. O leite deixou gosto amargo na língua por um breve instante. Bia sentiu-se impelida a olhar para o corredor de entrada do salão. Encontrou-o entrando com aquela maldita expressão desleixada que sempre a irritava; a barba preta por fazer e a jaqueta jeans surrada com alguns rasgos costurados. Só ele mesmo para usar casaco naquele calor desgraçado.

— O que você quer aqui, Rafael? — ela murmurou quando ele se aproximou, desviando o olhar de volta para o copo de leite.

— Boa noite pra você, Beatrit, também senti sua falta.

— Nem por um segundo, seu bastardo filho da puta.

— Posso me sentar? — Rafael perguntou com certo divertimento.

Ela não respondeu.

Ele apenas se sentou no banco ao lado:

— A Mãe me enviou.

— Claro que enviou.

— Precisamos da sua ajuda, é importante — a voz deixou transparecer toda a seriedade da situação. Não que isso significasse alguma coisa para Beatrit.

— Vocês não precisam da minha ajuda pra nada, deixaram isso bem claro da última vez.

— Ainda está brava? — o tom entre descaso e sarcasmo. — Pensei que já tínhamos superado nossas diferenças.

Beatrit bateu o copo de leite na mesa num impulso, e sentiu alívio por não tê-lo destruído com a força do impacto. Nina a mataria. Respirou profundamente antes de responder à provocação:

— Vocês tentaram me matar — disse calmamente. — Me obrigaram a abandonar minha irmã.

Rafael suspirou, esforçando-se para desarmar a postura passivo-agressiva que assumia quando precisava fazer alguma coisa contra a vontade. Ia dizer algo quando Nina surgiu pela porta da cozinha trazendo um prato com os dois hambúrgueres sobre pedaços de guardanapo ensopados de óleo. O bacon em fatias escapando pelas laterais do pão, misturado ao queijo, fez o estômago de Bia roncar e a encheu de água na boca. Nem a presença irritante de Rafael tiraria seu apetite.

Nina pôs o prato em frente à Bia e olhou para Rafael com cara de poucos amigos: — Ele está te incomodando?

— Não se preocupe, está tudo bem — respondeu Beatrit enquanto pegava um quarteirão com as duas mãos e preparava uma mordida. — Me viro bem com esse aí — e mordeu com satisfação.

Enquanto mastigava, reparou que Pam não tirava os olhos deles; um sorriso leve brotou involuntário no canto da boca cheia. Por isso aquele era um lugar onde conseguia se sentir minimamente confortável. Era boa a sensação de estar protegida, mesmo sabendo que ninguém ali seria páreo para Rafael se decidisse confrontá-lo.

— Vai querer alguma coisa? — Nina assumiu a abordagem “dona de bar” padrão.

— Uísque… se tiver.

— Não seja mal-educado, você já não é bem-vindo aqui — ela sabia ser bastante afiada quando queria.

Rafael ergueu os braços com as palmas abertas em uma espécie de pedido de desculpas:

— Aceito um uísque, senhora — ele percebeu a aliança no dedo.

Nina pegou uma garrafa de Johnnie Walker Black Label pela metade na estante de prateleiras atrás dela, um copo de boteco embaixo da mesa (seria um copo melhor se tivesse ido com a cara dele) e despejou o líquido amarelado até a borda sem qualquer sinal de boa vontade.

— Sem gelo? — perguntou Rafael.

— Seja homem.

— Gostei de você — ele bebeu o uísque em uma golada e empurrou o copo. Ela o encheu até o topo novamente; dessa vez ele apenas bebericou e voltou atenção para Bia.

— Se precisar de alguma coisa, é só chamar — disse Nina, ao que Beatrit respondeu com um aceno generoso de cabeça. A dona do bar se afastou do balcão para recolher os restos deixados por clientes, arrumar as mesas vazias e lavar a louça na cozinha.

Rafael continuou:

— Onde estávamos mesmo?

— Minha irmã.

— Ela está bem, parecida com você.

— Quer parar de gracinha! — Beatrit odiava as brincadeiras com o fato de serem gêmeas. Embora parecidas em aparência, eram completamente diferentes em personalidade e pontos de vista.

Ele devolveu a reprimenda:

— Ao contrário de você, ela entende que nossa missão é importante e está se preparando para isso.

Ela mordeu mais um pedaço do hambúrguer e o obrigou a esperar por uma resposta enquanto mastigava quarenta e quatro vezes.

Rafael tomou um gole do uísque.

— Eu já disse que não vou ajudar. Você pode ir embora agora, está atrapalhando meu café da manhã.

Ele riu alto, tentando conter uma gargalhada.

— Você continua adorável, e parece que não perdeu os velhos hábitos — os olhos miraram o copo de leite.

Beatrit suspirou, largando o quarteirão no prato e virando-se para encará-lo:

— O que você quer de verdade, Rafael? Eu tive uma noite difícil ontem, só queria comer em paz. Pensei que pelo menos vocês tinham me dado uma trégua… já não basta os Puros agarrados no meu calcanhar o tempo todo, agora vou ter que lidar com vocês também? Minha irmã não é o bastante?

— Nunca esqueceremos o que você fez, Beatrit — a voz dele saiu engasgada, o olhar pesado e rancoroso. — Eu precisei passar por cima de muita coisa para vir até aqui, mas o que tenho a dizer é importante de verdade.

A música do jukebox parou de tocar.

— Estou escutando — ela arfou, dando de ombros.

— A Mãe está disposta a deixar você ver sua irmã.

Bia arregalou os olhos:

— Que tipo de jogo é esse?

— Não é um jogo. Precisamos da sua ajuda e estamos dispostos a oferecer algo em troca.

— A Mãe deve estar mesmo desesperada.

— Dois condenados escaparam das Masmorras do Saara e vieram para o Brasil.

— O que eu tenho a ver com isso? Vocês não precisam de mim para correr atrás de fugitivos.

— Um dos fugitivos é Cobra, você se lembra dele, não?

— O QUÊ?! Não pode ser! — os músculos enrijeceram e durante alguns segundos, Beatrit tentou encontrar palavras para responder àquilo. — Que merda vocês têm na cabeça?! Ele deveria estar morto! — o tom de voz aumentou mais do que pretendia, chamando a atenção de todos ao redor. Pam ameaçou se levantar outra vez. Bia se conteve e fez esforço para se acalmar, apaziguando um pouco os ânimos no salão. — Porra, Rafael, você sabe que uma prisão nunca seria capaz de segurá-lo por muito tempo, mesmo uma prisão mística da Raça de Fogo.

— Foram ordens superiores, não tive nada a ver com isso. A execução dele estava preparada e foi adiada em cima da hora, não sei dizer por quê.

— Vocês deviam ter me deixado matá-lo quando tive chance.

— Por isso estou aqui. A Mãe quer que você o encontre.

— Se eu o encontrar, não vou deixá-lo vivo dessa vez.

— Ela prefere tê-lo de volta vivo, mas está disposta a fazer vista grossa caso aconteçam “imprevistos”.

Beatrit se empertigou:

— Ainda não entendo por que me envolver nisso. Vocês possuem inúmeros recursos à disposição, poderiam facilmente recapturá-lo.

— Antes de fugir, Cobra roubou um artefato antigo que fornece proteção total contra nossos Armagedons. Dezenas de Renegados foram mortos durante a fuga, incapazes de tocá-lo. Mas existe uma forma de sobrepujar o efeito do artefato.

— As Lâminas do Santo Ofício — não foi difícil deduzir. As lâminas não eram dádivas divinas como os Armagedons; eram artefatos criados com magia rudimentar de tempos imemoriais. Algumas lendas diziam que teriam sido forjadas por um profeta do oriente para equilibrar a balança na maldita guerra pelo fim do mundo travada entre a Raça de Fogo e a Raça de Marfim.

— Sabemos que ele virá atrás delas — disse Rafael.

— Ou seja, vocês pretendem me usar como isca de novo.

Ele ergueu o copo de uísque quase vazio em uma espécie de brinde irônico e bebeu o que restava:

— Bem-vinda de volta à Raça de Fogo, Retalhadora.

— Não estou de volta a nada! Depois disso, vocês me deixam ver minha irmã e eu sigo meu caminho.

Rafael deixou o copo sobre o balcão, tirou algumas notas amassadas do bolso da jaqueta e colocou para pagar pela bebida:

— Uma coisa que você precisa saber sobre Felissa — ele inclinou-se levemente, quase sussurrando para Beatrit, ainda com a mão em cima do dinheiro no balcão. — Ela também não esqueceu o que você fez.

Ele ajeitou a jaqueta jeans e seguiu em direção à saída, deixando Beatrit para trás com um nó na garganta e o barulho de talheres e vidro tilintando no salão. Não colocaram outra ficha no jukebox. Por sorte ela ainda tinha um hambúrguer inteiro para aliviar a pressão das questões que a assombravam desde sempre e com as quais já estava acostumada.

O problema maior era outro.

Cobra estava vivo, solto no mundo para persegui-la.

Ela sabia que em breve teria que enfrentar mais uma vez um dos mais perigosos guerreiros da Raça de Marfim.

O homem que matou seu pai.

***

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