Meus Contos

Garota Assassina #As Lâminas do Santo Ofício 1

A Retalhadora é a atual detentora de quatro das sete Lâminas do Santo Ofício, espadas com habilidades sobrenaturais cobiçadas por duas facções que se enfrentam em uma terrível batalha pelo fim do mundo. A Raça de Fogo e a Raça de Marfim travam uma guerra nas sombras da humanidade e ambas acreditam que a portadora das Lâminas pode influenciar os rumos do confronto. A Raça de Marfim tenta matá-la. A Raça de Fogo uma vez também tentou, mas agora precisa tê-la como aliada por causa de um objetivo em comum. O problema é que a irmã da Retalhadora faz parte da Raça de Fogo. Elas têm um passado doloroso de ódio e vingança com o qual precisarão lidar se quiserem sobreviver a essa guerra.

Encontre em outra plataforma: Wattpad

Ouça as músicas no Spotify: As Lâminas do Santo Ofício

As Lâminas do Santo Ofício


1. Garota Assassina

Este é um mundo à beira do colapso.

Onde se mata e se morre por sete espadas.

As lendárias Lâminas do Santo Ofício.

Promessas de poder e onipotência. Por um preço. Maior do que qualquer homem ou mulher possa imaginar. Mais pesado do que qualquer um possa suportar. Nenhuma alma que as tenha empunhado consegue encontrar paz. Portar uma Lâmina do Santo Ofício é queimar pela eternidade em um tormento inescapável.

***

O pai reservou-lhes um olhar agradável.

— Esperem aqui, meninas. Não vou demorar.

A expressão confiante de um guerreiro no auge da forma física e das habilidades não poderia ser superada por qualquer desafiante que fosse. À frente havia um único homem, de máscara de ferro contornada por linhas finas de metal cromado, que papai dizia fazer parte de uma das duas facções que lutavam pelo destino do mundo. Papai sempre fora neutro em uma guerra na qual ele não tinha outra escolha se não lutar. Desafiantes sempre apareciam. Sempre em busca de um duelo, espada contra espada. Eles desejavam uma única coisa, o poder que papai guardava com dedicação, a Lâmina do Santo Ofício.

Por baixo da máscara, podia-se ouvir a respiração pesada e distorcida, como quem respirava com auxílio de aparelho mecânico. Era enlouquecedor o ruído cadenciado de inspirar-expirar. O sobretudo negro sacudia ao vento; a cor preta ocupava toda a roupa. O homem parecia um demônio saído de um pesadelo horrendo.

— Nos encontramos de novo, Retalhador? — a voz saiu grotesca, abafada pelo ruído mecanizado da máscara. O tom de desdém sugeria que estava sorrindo de satisfação pela chance do duelo. — Dessa vez a Lâmina será minha.

Aquele era o homem que matara mamãe anos antes. Aquele era o maior desafiante de todos e o mais perigoso. Papai estreitou os olhos, um misto de raiva e pesar:

— Isso acaba aqui e agora.

Papai nunca foi vingativo. Até aquele duelo.

Quando executou o primeiro movimento, a pisada profunda levantou poeira do solo, soprada pelo vento. Ele empunhou a Lâmina do Santo Ofício na direção do adversário. O homem da máscara de ferro preparou-se, sacando a espada de lâmina grossa e fosca que trazia atada às costas. O duelo começou em movimentos rápidos e pesados, de espadas chocando-se furiosamente uma contra a outra. Duas Lâminas do Santo Ofício. O homem da máscara de ferro também possuía uma.

Papai lutava com a agilidade sobrenatural proporcionada por sua lâmina escura, a Dança da Morte, o cabelo ruivo e cheio ondulando a cada movimento de ataque ou esquiva contra a espada do inimigo. O homem da máscara de ferro era mais lento que papai, porém, mais preciso nos ataques. Quanto mais lutavam, os golpes se tornavam mais potentes. Cruzaram espadas, uma, duas, três vezes, movendo-se em círculo, quase que completamente engolfados em uma nuvem de poeira que não parecia incomodá-los. Papai deu um passo atrás e cortou na horizontal, obrigando o adversário a aparar o golpe e jogar o corpo para trás a fim de evitar um contragolpe. Papai tentou aproveitar a chance e avançou; a pisada firme levantando mais poeira. O homem usou o impulso do ataque de papai para encostar a lâmina fosca na máscara de ferro e arrastou-a com um puxão; a fricção fez o aço brilhar como fogo. Não flamejava, apenas brilhava alaranjado. O calor intenso da Tempestade de Fogo obrigou papai a se afastar.

Os dois ofegavam, encaravam um ao outro, empunhando as espadas com as duas mãos, aguardando por um momento para executar o próximo ataque. Dança da Morte contra Tempestade de Fogo. Papai deu um passo à frente e cortou na vertical; o homem da máscara de ferro aparou e faíscas voaram nos olhos de papai, cegando-o por um instante. O visor preto da máscara protegia os olhos do adversário. Papai não parou de atacar; cegueira não era um empecilho para alguém com o treinamento dele. Os dentes trincavam de raiva. Aquela definitivamente era uma batalha de vingança.

O homem da máscara de ferro também atacou, girando a lâmina no eixo e cortando de baixo para cima. Papai esquivou, deu outro passo atrás e estocou, tentando perfurar o inimigo, que usou a lâmina incandescente para se defender. Espada se chocou com espada. Papai aproveitou a força do próprio adversário; impulsionou sua lâmina contra a lâmina dele e com um movimento brusco a empurrou para cima, obrigando-o a largar a espada e desarmando o homem da máscara de ferro. A Tempestade de Fogo voou rodopiando, o brilho alaranjado começando a evanescer. Papai teve certeza da vitória, os olhos arregalados, a espada descrevendo um arco para desferir o golpe final no oponente que o desafiara e matara sua esposa. A Dança da Morte arrancaria a cabeça do homem da máscara de ferro.

A cabeça de papai voou em um esguicho de sangue.

Antes mesmo que terminasse o movimento de ataque.

O homem da máscara de ferro estava com a Tempestade de Fogo de volta na mão, banhada no sangue de papai, cujo corpo levou alguns segundos para tombar após ser sumariamente derrotado; o mesmo tempo que o sangue levou para evaporar da lâmina aquecida. Foi tudo rápido demais para os olhos de uma criança acompanhar.

As filhas gêmeas do Retalhador testemunharam a morte do pai com lágrimas nos olhos, paralisadas pelo desespero de não saber como ajudar ou o que fazer.

Elas tinham apenas dez anos.

O que poderiam fazer? Não havia como ajudar. Não havia o que fazer. A morte era o fim de tudo.

Morreriam também pela espada do homem da máscara de ferro. O corpo pequenino sequer se mexia, apenas as lágrimas continuavam a escorrer pelas bochechas, pingando e pingando, formando uma pequena poça de desolação, que rapidamente secava no calor da terra batida. O medo e o desespero não permitiam que os músculos se movessem. Elas morreriam.

O homem pegou a Lâmina do Santo Ofício da mão do cadáver de papai, a respiração ruidosa lhes arranhando os nervos:

— Finalmente tenho a quarta Lâmina do Santo Ofício em minhas mãos — regozijou-se o assassino. — Quando tiver todas as sete, terei cumprido meu destino.

Ele virou o rosto em direção a elas num movimento brusco, olhando-as por cima do ombro como quem se lembrava de alguma coisa trivial que precisava resolver. Demorou-se por alguns segundos, encarando-as implacável por trás do visor escuro da máscara, a respiração mecânica, pesada, o som do inferno.

Ante a sombra do homem que matara o pai, os joelhos estremeceram e o corpo cedeu. Elas se arrastaram uma para perto da outra e deram as mãos, em prantos silenciosos de pesar, incapazes de dizer uma palavra de raiva contra o assassino ou de consolo uma para a outra. O horror as consumia. Elas morreriam como o pai.

O homem da máscara de ferro se recompôs e seguiu caminho para longe dali, um sorriso lunático de vitória escapando por entre os ruídos sinistros. Levou consigo a Lâmina do Santo Ofício que pertencera ao pai. Elas apenas observaram enquanto ele se afastava, até que não puderam mais vê-lo na paisagem amarga daquelas montanhas remotas onde haviam crescido; que agora lhes era nada mais do que um cemitério. Elas não morreram, mas definitivamente estavam mortas. O horror não mais as consumia. Apenas o ódio.

(Dez anos se passaram)

Lembrar daquele dia fatídico ainda doía no coração.

Embora sempre se questionasse se ainda possuía um coração.

Os olhos endurecidos por uma vida de lutas e duelos pelas Lâminas do Santo Ofício observavam a corja de homens ao redor, armados até os dentes com facas, facões, correntes, pistolas e escopetas. Nem mesmo aquele arsenal seria capaz de pará-la. Eles eram tolos por acreditar nisso. Nada seria capaz de parar seu ódio. Ou sua lâmina.

Sempre que se via encurralada em uma batalha de vida e morte, o assassinato horrível do pai consumia seus pensamentos e memórias. Lembrava-se da irmã de quem foi forçada a se separar anos atrás. Ela tinha um único objetivo. Pelo pai e pela irmã, jamais o esqueceria. O sangue continuaria a ferver enquanto não o completasse. Ninguém poderia pará-la até lá.

— Esse é o fim da linha, Retalhadora! — um dos tolos que a cercavam deu um passo à frente, colocando-se como porta-voz do grupo que a encurralara. Eles eram capangas da Raça de Marfim. Os malditos Puros. — Somos mais de vinte, uma garotinha como você não tem chance contra todos nós. Nosso chefe quer de volta as Lâminas do Santo Ofício que você roubou.

Ele estendeu a mão de forma displicente:

— Entregue as lâminas e pouparemos sua vida.

Ela permanecia no centro, encarando-os, impassível.

O vento noturno soprou, lançando nuvens cinzentas sobre a luz pálida da lua que iluminava o terreno baldio encravado no meio da cidade quieta pelas festividades natalinas. As pessoas comemoravam e confraternizavam em casa com suas famílias. Ficavam longe de confusões desnecessárias e dos poucos que se aventuravam pelas ruas vazias. Ela era a Retalhadora. Não tinha família. Preferia não ter que matar pessoas no Natal. Ainda assim não se privaria de fazê-lo e se refestelar no sangue dos que ousavam desafiá-la.

O cabelo ruivo, cheio como o do pai, ondulava como chamas ao vento, amarrado em um rabo de cavalo no topo da cabeça. Os olhos azuis ferinos, reluzentes mesmo sem o luar. As roupas negras perdiam-se na escuridão; quase a faziam parecer um fantasma prestes a reclamar a alma dos incautos. Ela tinha uma reputação. Mesmo assim aqueles imbecis tentavam enfrentá-la. A Raça de Marfim errava ao subestimá-la.

O cerco se fechou ao redor dela, os pés dos homens arrastando-se lentamente e apreensivos em sua direção, as armas em posição para o ataque.

A Retalhadora moveu a perna esquerda para trás em um semicírculo, arqueou os joelhos e assumiu a posição de saque. A mão direita aberta em direção a mão esquerda. Mal se podia perceber sua respiração, tamanha a calma de sua postura. Os olhos fitavam o porta-voz do bando. Ele hesitou, por um breve instante, e sacou o machete que trazia preso à cintura:

— Vai pagar pela insolência, sua puta!

Ele apontou-lhe o facão:

— MATEM-NA!

Os homens correram, passando por ele em ondas, apressados e descoordenados, atacando como loucos, sem qualquer ponderação ou análise de situação. A Retalhadora observava cada passo, cada movimento. Mesmo os que vinham por trás, ela conseguia sentir e prever. Eles gritavam, chiavam, esbravejavam. Ela escutava apenas a si mesma, até que deixou os pensamentos cessarem. Esvaziou a mente em um comando simples

(Tempestade de Fogo)

A palma esquerda se abriu em um rasgo na pele, revelando de dentro da mão o cabo ensanguentado da Lâmina do Santo Ofício empunhado pela mão direita em um saque que durou milésimos de segundos; o movimento da espada quase invisível de tão rápido. A primeira cabeça voou em direção à lua que começava a ressurgir detrás das nuvens para testemunhar o banho de sangue. O corpo ainda correu por alguns segundos antes de se estatelar no chão, as duas mãos agarradas ao facão, um chafariz de gotas escarlates esguichando do pescoço.

Girou o corpo desferindo um corte seco que arrancou ambos os antebraços de um atacante que vinha por trás. As mãos caíram também segurando um facão, os braços decepados balançando soltos enquanto o dono rolava no chão aos berros, sangue espirrando e vazando em poças na grama seca.

O terceiro corte atravessou o torço de um capanga. A Retalhadora girou novamente e atingiu o rosto de outro com um chute, a sola do pé arrancando dentes com a pressão. Outros três homens vieram pelas costas, estocando com machetes. Ela arqueou os joelhos, esquivou agachando-se; girou nos calcanhares com a lâmina, indo e voltando em ataques que amputaram pernas e braços dos atacantes, que mal tiveram tempo de gritar de dor, tamanha a velocidade dos cortes. Alguns homens curvados despejavam vômitos incontroláveis ante a percepção da morte iminente, o cheiro nauseabundo misturando-se ao odor de urina e fezes dos cadáveres retalhados.

Facas foram disparadas por capangas assustados. A Retalhadora saltou para o lado e contorceu o corpo em uma cambalhota para esquivar; as lâminas terminaram encravadas em comparsas dos atiradores, sangue jorrando de pescoços e bochechas atingidas. Ela levantou-se segurando a lâmina com as duas mãos em um ataque de baixo para cima que atravessou queixo e crânio em uma explosão rubra. Balançou o corpo em um chute giratório nos inimigos que se aproximavam, afastando-os por um instante; quando os homens tentaram voltar, ela descreveu um semicírculo com o braço esticado, a espada atravessando pescoços, lançando cabeças ao céu e corpos sem vida ao solo.

De longe, ainda sem entrar em confronto direto, o porta-voz gritou com voz trêmula e incerta:

— Atirem nela, imbecis! ATIREM NELA, PORRA!

A Retalhadora atravessava o coração de um adversário com a Tempestade de Fogo quando ouviu a ordem; retirou a lâmina e agarrou o cadáver mole pelo antebraço, a mão morta ainda segurando o machete que tentara usar na batalha. Ela encostou sua lâmina fosca no aço do facão e arrastou com um puxão como se fosse uma pederneira em um isqueiro; a fricção acendeu a Tempestade de Fogo. O calor intenso pulsou quando a Retalhadora largou o cadáver e escutou as escopetas e pistolas sendo disparadas. Ela se virou movendo a lâmina em um arco, os olhos vidrados em cada bala, o brilho incandescente tornando-se uma explosão de chamas que estourou toda a pólvora antes que as balas a alcançassem. Os homens se assustaram, não conseguiram fugir das chamas que se expandiram furiosas. Foram engolfados pela Tempestade de Fogo antes mesmo que pudessem perceber. A munição das armas estourou nas mãos deles; pele e órgãos queimavam em meio a gritos de agonia e desespero pela tentativa vã de apagar o fogo que não se extinguiria até consumir completamente seus alvos. Eles gritaram, rolaram, espernearam. A morte exalava o cheiro torpe de tripas carbonizadas. A luz da lua escalou as nuvens escuras revelando pouco a pouco o campo flamejante de corpos retalhados em poças de sangue, vômito e urina.

Ela tinha saído de casa naquela véspera natalina apenas para comer alguma coisa, talvez uma boa rabanada. Mas as malditas facções insistiam em persegui-la e atacá-la nos momentos mais inapropriados. Ela continuaria matando. Eles continuariam pagando com a vida. A palma esquerda se abriu como uma bocarra para engolir de volta a Tempestade de Fogo. Esse era um dos dons que obtivera com o pacto. Ela própria se tornara bainha para as Lâminas do Santo Ofício. Ela própria era uma arma. Pegou no bolso interno da jaqueta um cigarro de palha amassado que enrolara pouco antes de começar toda aquela matança, e de pé no centro da carnificina, levou-o à boca. Puxou um isqueiro e acendeu com uma tragada forte, expelindo a fumaça enquanto relaxava os ombros e o pescoço.

O porta-voz do bando tentava se apoiar na espada fincada no solo, meio-ajoelhado meio-sentado sobre as pernas debilitadas, bolhas vermelhas de queimadura estourando a pele do braço e das mãos, a carne escura pendendo solta como tecido rasgado.

— Você é mesmo o monstro que dizem — ela o ouviu balbuciar delirante, os dentes amostra cuspindo sangue e saliva, metade do rosto queimado. — A mulher que caiu nas graças do Diabo. A Filha do Demônio.

Ela expeliu a fumaça de outra tragada, de costas, sem olhar para o homem. Foi embora dali sem olhar para trás, deixando o rastro de sangue, morte e facões encravados que demarcavam as lápides do cemitério que se tornara o lugar onde a atual portadora das Lâminas do Santo Ofício passara a ceia de Natal.

“Nenhuma alma que as tenha empunhado consegue encontrar paz. Portar uma Lâmina do Santo Ofício é queimar pela eternidade em um tormento inescapável.”

Ela jamais se esqueceria das palavras do pai.

O fardo dele agora pertencia a ela.

***

A história continua no capítulo 02.

Compartilhe este Post

Posts Relacionados



Aperte o Play