Cultura Pop

A arte como utopia

A Noite Estrelada, Van Gogh

Meu sonho sempre foi ser escritor. Com sete anos de idade, já falava para os meus pais que queria ganhar a vida escrevendo quadrinhos – não desenhando ou fazendo quadrinhos, mas escrevendo. – Cheguei a fazer alguns quando adolescente, mas a minha total falta de habilidade em desenhar me fez perceber que meu negócio era mesmo a escrita.

Já na faculdade passei a levar o sonho mais a sério. Escrevi fanfics, em um site chamado Hyperfan, e também poemas e contos com personagens próprios.

O problema é que veio a correria da vida adulta, trabalho, vida social, etc. E o sonho foi ficando de lado. Mas aí apareceu o Nível Épico, e com isso pude me descobrir fazendo algo que nunca me imaginei fazendo – escrever críticas e resenhas dos meus filmes e leituras favoritas. – E descobri que isso é muito divertido.

Mas ainda estava faltando a ficção. Até que, neste início de ano, me vi em um grupo de leitores betas de contos, onde um lê o outro e vai sugerindo novas ideias para os colegas. Ao mesmo tempo, entrei em um outro grupo, só de três pessoas, onde trocamos poesias – tanto nossas quanto de poetas consagrados.

O que estes quatro grupos possuem em comum é que são feitos por amigos. Porque escrever é solitário, mas a arte é uma experiência que deve ser coletiva. Não adiante ter escrito a melhor peça de ficção para deixá-la esquecida numa gaveta ou num HD. É apenas quando confrontada com o outro que a arte cumprirá sua função.

Em todos esses grupos, nasceram boas amizades, e laços foram fortalecidos. E é essa experiência coletiva que nos falta. Vivemos numa sociedade extremamente individualista, onde a traição e o egoísmo são estimulados. Os tempos vão ficando difíceis, com crise econômica, ódio nas redes sociais que transbordam para a política, e falta de perspectivas em geral. Tudo isso faz aumentar a sensação de impotência e o aumento de doenças como a depressão.

Alguns pregam que a solução é apenas individual. Cada um tem que correr atrás dos seus sonhos, e se batalhar o bastante será bem-sucedido. Isso realmente pode funcionar para alguns, mas esse discurso não toca no problema essencial – a solidão. – Somos solitários no meio da multidão, e não vai ser o sucesso financeiro que resolverá isso.

Nos falta a experiência de viver em comunidade. Estamos sempre assustados, trancados em nossas casas com medo da violência ou de ser passado para trás. Nossas praças são abandonadas, ocupadas no máximo por moradores de rua. Uma das coisas com que me encantei em Lima, no Peru, foi descobrir a Praça Kennedy, sempre ocupada, com pessoas passeando, músicos populares tocando, exposição de fotografias, tudo isso em céu aberto. Por que não temos mais locais como este?

São nas dificuldades que descobrimos todo o potencial de resistência da arte. O questionamento constante, a exposição de novos pontos de vista, nos fazendo sair do lugar comum e tentando entender o lugar do outro. Oscar Wilde disse que toda boa arte é inútil, mas discordo. A arte é útil sim, não no sentido mercadológico, mas no sentido de proporcionar novas experiências.

A boa arte, mesmo a mais assustadora ou a mais depressiva, envolve sempre o sonho. E o que nos falta é o sonho da utopia. Em algum momento, abandonamos a vontade de imaginar um mundo melhor e nos contentamos apenas em sobreviver e fazer o que é possível. Enquanto em maio de 1968 a demanda era “Sejam realistas, exijam o impossível”, agora somos tomados de um pragmatismo que parece assassinar nossas almas. Os objetivos mais altos são os que nos fazem nos mover, e mesmo que ao fim não o alcancemos, ao menos saímos do lugar.

Assim, vou seguindo no meu sonho. Que vai se juntando ao sonho dos amigos. Espero que um dia se junte ao seu também. É assim que a arte nos torna forte. E caso você ache isso muito idealista ou irreal, é só ter paciência que os frutos uma hora aparecem. O melhor exemplo de que isto é possível é este mesmo – O Nível Épico! – Ou meu grupo de poesia, ou meu grupo de leitores beta. O segredo é deixar o medo de lado e se abrir para si mesmo. Permita-se viver seu sonho e um dia perceberá que ele se tornou realidade.

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