Trocando Ideias

A imagem cinematográfica na era da informação

O Gabinete do Dr. Caligari

No cinema, a informação é transmitida de forma diferenciada da linguagem lógica e racional que é mais comum em outros meios. Ao invés disso, preza pelo uso da imagem, construindo conceitos e símbolos capazes de articular o imaginário coletivo, transformando aspectos da própria vida do indivíduo para as telas.

O conceito de mise-en-scène reflete bem a realidade da imagem cinematográfica na medida em que faz parte desta construção de símbolos. No cinema nada ocorre por acaso. A mesa no canto da sala é bem mais do que só uma mesa no canto da sala. A mise-en-scène é uma expressão usada para descrever os aspectos de encenação ou posicionamento de uma cena, também relacionado à direção ou à produção de um filme ou peça de teatro. Significa essencialmente “tema visual” ou “contar uma história” ou ambos. A expressão surgiu desde as apresentações das peças teatrais clássicas na França, no século XIX, para definir o movimento dos personagens pelo cenário e o posicionamento dos objetos no palco, incluindo os elementos que aparecem no enquadramento: atores, figurino, decoração, adereços, iluminação, etc. No século XX, começou a conhecida por ser comumente empregada nos “filmes autorais”, em que cada cineasta tinha seu modo de particular de construir uma cena e se tornava reconhecido por isso. No cinema, tudo é pensado para estabelecer conexão entre a produção e o indivíduo, estimulando o espectador a traçar paralelos sociais através de metáforas, convenções e símbolos.

No cinema alemão da década de 1920, a informação narrativa era transmitida através da mise-en-scène. Esses filmes eram uma parte, por exemplo, do expressionismo alemão, movimento proeminente na época caracterizado por sets extremados, decoração, ação, iluminação e ângulos de câmera. O objetivo desses filmes era ter um efeito extremamente dramático sobre o público, muitas vezes enfatizando o fantástico e o grotesco. Um exemplo famoso dessa premissa é o filme O Gabinete do Dr. Caligari (1919), em que o estado interior do personagem é representado através de bloqueios e cenografia. Os sets refletiam o estresse envolvido na loucura e no horror do filme, características que os filmes expressionistas tentavam passar.

O que quero dizer é que composição da linguagem cinematográfica reflete o momento social da época em que está acontecendo, e isso se reflete no mundo. No livro O Cinema Pensa: Uma Introdução à Filosofia Através dos Filmes (2006), o autor Julio Cabrera cita que o cinema não é apenas lazer, ou uma experiência estética, mas uma dimensão compreensiva do mundo, que mexe com o imaginário e os sentidos. O cinema concede significados variados às formas e conceitos da sociedade, fomentando esperanças ou desilusões, alterando comportamentos, e induzindo novas configurações de realidade cultural através do poder de sua imagem e seus princípios industriais.

Analisando sob outro ponto de vista, é possível ainda acrescentar a Internet à questão da imagem. O usuário das redes sociais estimula, registra, comenta e responde sobre os mais diversos tipos de assunto. Como um espaço de interação, as redes sociais possibilitam, a cada conexão, contatos que proporcionam diferentes informações, determinadas por um interesse que naquele momento move cada rede, contribuindo para a construção da sociedade e direcionando-a. Pierre Lévy e André Lemos, no livro O Futuro da Internet: Em Direção a uma Ciberdemocracia Planetária (2010), falam que a cultura digital é aquela que permite luxos como escolha, garimpagem, excesso e profusão de coisas para além do gosto médio. A associação entre tecnologia e redes sociais constitui um caminho para a expansão da informação e do conhecimento que propiciam o desenvolvimento das novas formas de agir e pensar.

Há um verdadeiro consumo de visibilidade e projeção de símbolos dentro de redes sociais como o Facebook, onde o “curtir” é vivido como satisfação contemporânea e o “compartilhar” é vivenciado como um espetáculo público. A sociedade em geral demanda este espetáculo, mas também demanda que todos sejam protagonistas deste espetáculo. Hoje a sociedade oferece oportunidade para que todos sejam protagonistas no palco, e a influência disso no comportamento humano é evidente.

Essa abertura da informação propicia um nível de acesso à cultura e ao conhecimento maior do que era possível na década passada, desenvolvendo também uma espécie de mentalidade de massa quando se trata de assimilação da informação. Se uma pessoa demonstra interesse e empolgação por alguma coisa, nas redes sociais, o interesse e a empolgação se alastraram como um vírus, contagiando outras pessoas, que começam a considerar a possibilidade de se interessarem e se empolgarem por aquela mesma coisa. O contrário também é verdadeiro. O raiva, aliás, se propaga em uma velocidade ainda maior do que a empolgação e se instala na percepção das pessoas com tanta facilidade que elas começar a odiar alguma coisa antes mesmo de tê-la experimentado ou visto. Batman v Superman, provavelmente, é um dos exemplos mais recentes disso no cinema, e um dos casos em que isso foi mais forte, tanto para raiva quanto para a empolgação.

A ligação de um ponto a outro é, portanto, a conexão responsável pela reprodução de toda a dinâmica da comunicação online, pelo simples fato de ligar a rede a um ponto virtualmente isolado dela (isto é, completamente desconectado de qualquer um dos possíveis nós participantes do sistema) e pelo fato de ligar a rede a outra rede até então também virtualmente isolada. Mesmo quando liga pontos situados próximos um do outro, essa conexão mobiliza igualmente toda a rede.

O interesse e a repercussão são fortemente estimulados pelo boca a boca – o curte e compartilha – das redes sociais. A divulgação nos meios de comunicação de massa e nas próprias salas de cinema faz seu trabalho como antigamente, mas hoje em dia, com a contribuição da tecnologia por trás da comunicação online, o alcance dessa divulgação tornou-se ainda maior e mais arrasador, eventualmente gerando modas e tendências como consequência da exposição. Ainda que isso se reflita em vários segmentos da sociedade, o cinema pode servir de símbolo para um aspecto dessa mentalidade de massa tão presente na sociedade e como isso é poderoso para marcar a imagem cinematográfica na cultura contemporânea.

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