Você Viu?

Eu, Daniel Blake

Daniel Blake é um trabalhador britânico que, após sofrer um ataque cardíaco, é proibido pelos médicos de trabalhar até sua recuperação. Contudo, após ter seu auxílio doença negado, fica sem ter renda para sobreviver, e luta como pode para que essa decisão seja revista, enfrentando uma dura e impessoal burocracia. Ao mesmo tempo, se aproxima da nova vizinha, mãe solteira com duas crianças que também luta para sobreviver dignamente.

(I, Daniel Blake) – Drama. Reino Unido, 2016.

De Ken Loach. Com Dave Johns, Hayley Squires, Sharon Percy, Briana Shann, Dylan McKiernan. 1h40min. Distribuidora: Imovision. Classificação: 12 anos.

FESTIVAL DO RIO 2016 – Exibição na Mostra Panorama do Cinema Mundial

Nível Heroico

Eu, Daniel Blake


Resenha – O suplício da burocracia

Muitas vezes quando discutimos ideais políticos, pensamos nas coisas de forma abstrata, ou como funcionam em teoria. Nos filmes de Ken Loach, porém, a política é sempre o pano de fundo para dramas pessoais, de homens e mulheres que sofrem as agruras do dia a dia como nós. É dando voz aos que sofrem na pele as consequências das escolhas políticas da sociedade que se pode refletir no quanto elas são boas ou não. Não poderia ser diferente com Eu, Daniel Blake, filme ganhador da Palma de Ouro em Cannes em 2016.

Daniel Blake (Dave Johns) é um carpinteiro que sofre um ataque do coração e tem negado seu auxílio doença para que possa ter uma renda mensal enquanto se recupera. Com ordens médicas para não trabalhar, como ele poderá sobreviver?

O que move Blake é um grande senso de justiça. Ele não se conforma em ver negado seu direito como cidadão. O mais angustiante é ter que lidar com uma burocracia fria e kafaniana, em que nunca consegue ter voz, tendo que se adequar aos formulários padrão e músicas insonsas enquanto espera no telefone.

São situações que todos vivemos, e por isso é fácil se identificar com o protagonista. A diferença é que, no caso dele, a luta é literalmente para sobreviver.

As coisas se complicam quanto Blake conhece Katie (Hayley Squires), mãe solteira que cria dois filhos, e é obrigada a sair de Londres para Newcastle por não ter como pagar o aluguel na capital do Reino Unido. Ela tem dificuldades em conseguir emprego devido aos horários das crianças, tendo inclusive abandonado a Universidade por conta disto.

É, portanto, sempre o ponto de vista dos pobres que interessa a Ken Loach. Blake, apesar de tudo, tem algum bom humor, o que garante algumas cenas engraçadas. Porém, há alguns momentos tocantes, tanto dele quanto de Katie, que nos deixam de coração partido. Uma em especial, na fila do programa social para conseguir cestas básicas, é de dar nó na garganta. Aliás, as atuações dos atores principais são excelentes, conseguindo transmitir essas emoções sem apelo ao dramalhão fácil.

A saída que o filme parece apontar é a da solidariedade. Os vizinhos da comunidade se ajudam como podem, e assim conseguem uma vida um pouco melhor. Mas apenas isto não basta, uma vez que a estrutura política do Estado parece ser a de dificultar ao máximo as coisas para quem não se encaixa em seus ditames burocráticos. O contraste entre a burocracia fria e impessoal com os laços comunitários é um dos pontos principais da obra.

Outro ponto interessante do roteiro é que ele dá espaço para pequenos momentos de críticas sociais. São observações ou pequenas passagens das personagens que nos fazem refletir sobre todo como o sistema social e político está todo interligado, nos afetando de diversas maneiras diferentes. O roteirista Paul Laverty afirmou que tirou muitas das ideias para o filme em conversas com pessoas assistidas pelo serviço social britânico, e consegue transmitir a verdade delas em cada momento do roteiro.

O filme vem em boa hora para o cenário brasileiro, onde se fala mais uma vez em Reforma da Previdência. O discurso é sempre o da falta de dinheiro, mas é só olhar em volta para percebemos que essa é só uma desculpa. É só pensar na maneira como os políticos lidam com as finanças públicas para perceber que muita coisa poderia ser feita de forma diferente antes de se fazer cortes nos benefícios sociais, que deveriam garantir um mínimo de dignidade para todo ser humano.

Como em todo filme de Ken Loach, o que menos importa é se o final será feliz ou não. A sensação que o público sai é a de indignação. Pois os dramas mostrados na tela, embora de personagens fictícios, são reais. E a solução não estará num passe de mágica, mas em lutar pelo que é certo. Daniel Blake é apenas um cidadão que busca por seus direitos, e por ser tratado com dignidade. Isso é o mínimo que podemos esperar de qualquer governo, e se ele não atende a esta expectativa, é porque algo nele precisa ser alterado. O grito por justiça de Daniel Blake é o grito de todos nós.

Eu, Daniel Blake

Eu, Daniel Blake

Eu, Daniel Blake

Eu, Daniel Blake Rafael Monteiro
Compartilhe este Post

Posts Relacionados



Inscreva-se no Canal

Resenhas Populares

Rogue One: Uma História de Star Wars

Rogue One: Uma História de Star Wars

It: A Coisa

It: A Coisa

Planeta dos Macacos: A Guerra

Planeta dos Macacos: A Guerra

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Raw

Raw

Siga no Bloglovin’

Follow

Vem Com a Gente

Curta e Compartilhe

Aperte o Play

Nível Épico em Imagens