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A grandeza de toda mulher

(Nocturnal Animals) – Drama. Estados Unidos, 2016. De Tom Ford. Com Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Armie Hammer, Aaron Taylor-Johnson, Isla Fisher, Ellie Bamber e Michael Sheen. 1h56min. Distribuidora: Universal Pictures. Classificação: 16 anos.

Solidão. Cada um de nós já se sentiu solitário em meio à multidão, mesmo com amigos ou em relacionamentos amorosos. Muitas vezes é inevitável, principalmente quando sentimos que nossas vidas não estão seguindo o rumo que desejamos. Mas o quanto desse sentimento não é construído por nós mesmos e nossas escolhas?

É esse questionamento que perpassa todo o filme Animais Noturnos. Susan (Amy Adams) é uma reconhecida negociante de artes de Los Angeles, com um bom casamento que a coloca na parte de cima do estrato social. Contudo, as coisas não são o que parecem. Mesmo com uma vida de luxo, o casal está quebrado. Mas o que realmente incomoda a protagonista não é a falta de dinheiro, e sim a falta de sintonia com Hutton (Armie Hammer), seu marido. A sensação é de que não estão mais no mesmo trilho, apenas na mesma casa.

Susan não consegue dormir, mesmo com remédios. Até que chega em suas mãos o manuscrito de seu ex-marido, Edward (Jake Gyllenhaal). A partir dessa leitura, Susan passa a questionar suas próprias escolhas, se perguntando se algo deveria mudar.

O filme então passa a acompanhar três narrativas diferentes. A Susan do presente, infeliz, tentando manter o casamento de fachada e tendo que lidar com um trabalho com o qual não mais se importa. Em flashbacks, vemos o passado de Susan, conhecendo Edward e ainda com as ilusões da juventude. E finalmente, a trama do livro, que vai se desenrolando em paralelo com as outras duas.

Tom Ford, que além de dirigir, também assina o roteiro, adaptando o romance Tony and Susan, de Austin Wright, consegue trabalhar muito bem a temática passando pelas três histórias. Além da questão da solidão, há ainda um subtexto acerca da misoginia e do papel da mulher diante disso (falarei mais daqui a pouco). Embora não queira fazer crítica social, ela está presente, e muito disso está na adoção do ponto de vista da personagem principal como uma mulher.

Susan é uma mulher forte, que quer evoluir, e sente que o primeiro marido é alguém que vai estar sempre estagnado. O fato dele, 20 anos depois, finalmente ter escrito um romance digno do nome, a faz olhar para ele com outros olhos. E não é uma leitura fácil, uma vez que a trama trata a violência com uma forte carga emocional. Mas ainda assim, Susan lê, pois percebe no livro uma possível saída para seu próprio impasse.

Todo o aspecto técnico do filme é muito bom. A fotografia soturna ajuda a construir o clima pesado do roteiro, ajudada ainda pelos bons enquadramentos de cena. Os figurinos casam bem com as personagens, ajudando a marcar cada um dos três momentos da narrativa. Em todos estes detalhes, sentimos a orientação do diretor no sentido de contar a história que deseja.

As atuações estão todas muito boas. Destaque para Amy Adams, claro, que consegue transmitir todo um rol de emoções sem que seja necessário fazer caras e bocas. Alguns afirmam que o filme é meio frio, mas não me parece ser uma leitura correta. Os personagens parecem sim distantes, mas isto é fruto de sua própria incapacidade de se comunicarem. A jovem Susan é bem passional, enfrenta a própria mãe, bem como o marido. Isto faz um grande contraste com a Susan madura, infeliz e insegura dos rumos que deu para sua vida.

Outra grande atuação é a de Michael Shannon, que interpreta o detetive Mendes da trama que se passa no livro de Edwards. Ele é o típico policial durão, que despreza os bandidos e não hesita em passar por cima dos procedimentos a fim de fazer justiça. No entanto, a atuação passa longe da caricatura da média dos filmes policiais, dando uma dimensão humana ao personagem, principalmente na parte final do filme.

Jake Gyllenhaal também está bem no filme, em seu duplo papel de escritor e do personagem principal da trama do livro, construindo identidade distintas, mas que conseguem dialogar em vários momentos.

A partir daqui, irei comentar alguns pontos específicos da trama.

Se não quiser spoilers, não prossiga.

O grande dilema de Edwards é provar que é um ser humano sensível, mas não fraco. Susan o acusa disso, bem como a mãe de Susan, e sua única reação é a de reclamar. Ele não parece disposto a enfrentar os desafios da vida, e parece usar a escrita como fuga.

No livro, que ele manda para Susan 20 anos depois da separação, constrói no protagonista um alter ego que comete a estupidez de parar o carro à noite, no meio do deserto, para dialogar com homens de nítidas más intenções. Mesmo assim, assiste a tudo passivamente, em atos que resultam no estupro e na morte de sua filha e esposa.

Depois ele procura a polícia e tenta se vingar, mas mesmo nisso é fraco. Não consegue matar os criminosos, deixando isso a cargo do Detetive Mendes. Até que finalmente fica cara a cara com o assassino, e ainda assim hesita em atirar. Ele quer a vingança, mas não consegue realizá-la sozinho.

E sim, a trama toda é construída em cima de um estupro para desenvolver um personagem masculino. Mas a falha não é do filme, é do escritor-protagonista, que resolve fazer do livro uma vingança contra a ex-mulher. Isso fica claro em diversos pontos do livro, principalmente no final. Edward marca um encontro com Susan, mas não aparece. Ela fica sozinha, triste.

Susan tem a tentação de voltar ao passado, mas isso se mostra ilusório. O ex-marido apenas tem uma vingancinha boba, que a deixa triste por um momento, mas a faz enxergar que suas escolhas, certas ou erradas, foram suas, e não seria fazer tudo diferente que a teria deixado feliz.

Seu marido atual, mesmo falido, a deixa sozinha para passar um fim de semana em Nova York com a amante bem mais nova. O ex-marido, que se dizia sensível e artístico, a homenageia com um livro misógino e fura um encontro com ela. Mas Susan não cede. Não é fácil, ela não parece feliz, mas isto a torna forte. A grandeza de Susan é a grandeza de toda mulher anônima, que tem que ser forte para aturar o machismo cotidiano. Talvez ela tenha afastado pessoas de quem gostava, e até possa se arrepender por isso, mas às vezes é o preço que temos que pagar. O mais interessante é que o filme não oferece resposta. Nesse sentido, então, somos todos Susan, e sempre carregaremos conosco os questionamentos se o que fazemos de nossas vidas é o que realmente queremos.

Animais Noturnos Rafael Monteiro
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  • Jung Nice

    Huuuum! Acho que você não entendeu a proposta do filme.

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