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O Caso de Charles Dexter Ward

Romance curto escrito por HP Lovecraft no início de 1927, mas que só foi publicado após a morte do autor. Situado na cidade natal de Lovecraft, Providence, Rhode Island, foi publicado pela primeira vez de forma resumida na revista Weird Tales em 1941. O romance conta a história do jovem Charles Dexter Ward, que em 1918 envolve-se com estudos de arqueologia e ocultismo devido à fascinação pela história de vida de seu antepassado, Joseph Curwen, um homem que se mudara de Salem para Providence em 1692 por causa de hábitos que despertavam estranheza na população local. Curwen era conhecido por não aparentar envelhecimento, por fazer experimentos químicos e por perambular à noite por cemitérios. Ward, que se parece fisicamente com Curwen, tenta replicar os estudos ocultistas e alquímicos de seu antepassado, e depois de muitos experimentos, começa a demonstrar sinais de insanidade. Como consequência, Ward acaba internado em uma casa para tratamento psiquiátrico. O médico de Ward, Marinus Bicknell Willett, começa a pesquisar a fundo o caso de seu paciente e aos poucos se vê enredado em uma trama obscura envolvendo a história de Joseph Curwen, descobrindo horrores capazes de mudar completamente a alma de um homem.

(The Case of Charles Dexter Ward) – Horror. Estados Unidos, 1927.

De HP Lovecraft. Com os personagens Charles Dexter Ward, Joseph Curwen, Dr. Marinus Bicknell Willett e Theodore Howland Ward. Editora L&PM, em formato pocket. 208 páginas.

Nível Heroico

O Caso de Charles Dexter Ward


Resenha – O Caso de Charles Dexter Ward

HP Lovecraft é um autor que, em sua época, não recebeu grandes méritos por suas obras, tanto que não chegou a ter suas histórias publicadas em livro antes de sua morte. Seus contos, normalmente publicados em jornais e revistas, abordavam amplamente pessoas tomadas pela loucura, criaturas marinhas, necromancia e horrores sobrenaturais dos mais variados – um tipo de material que alcançava poucos leitores na época, e até hoje em dia não tem grande alcance se comparados a outros tipos de histórias de gênero. – Apenas com o passar dos anos, sua popularidade cresceu, e ele passou a ser reconhecido de verdade somente depois de sua morte.

O Caso de Charles Dexter Ward é uma dessas histórias que ganharam destaque póstumo. Uma das razões atribuídas a isso é que o próprio Lovecraft não gostava da história, e teria ficado bastante insatisfeito com o resultado final do que escrevera. Por seu desgosto, nunca tentou publicá-la, deixando-a guardada. Após o falecimento do autor, o conto foi encontrado e publicado pela Weird Tales. Aqui no Brasil, o romance foi publicado pela L&PM em versão pocket, assim como fizeram com outras histórias do autor.

O conto teria sido inspirado por uma anedota enviado ao autor por uma tia, sobre uma casa na 140 Prospect Street, em Providence, que seria mal-assombrada. Entre outras inspirações estão o conto Providence in Colonial Times, de Gertrude Selwyn Kimball, de onde tirou detalhes históricos para a trama e aspectos do personagem Charles Dexter Ward; o livro The Return, de Walter de la Mare, que mostra a alma de um homem morto deixando sua sepultura de dois séculos para vincular-se à carne dos vivos; e o conto Count Magnus de MR James, que sugere a ressurreição de uma figura sinistra do século XVII. Essas referências são citadas no livro O Horror Sobrenatural em Literatura, um ensaio de Lovecraft sobre a literatura de horror.

O Caso de Charles Dexter Ward também teve duas adaptações para o cinema. A primeira é O Castelo Assombrado (The Haunted Palace, título que curiosamente vem de um poema de Edgar Alan Poe), de 1963, dirigido por Roger Corman e estrelado por Vincent Price como Charles Dexter Ward. A segunda é O Filho das Trevas (The Ressurected, também conhecido como Shatterbrain), de 1991, dirigido por Dan O’Bannon e estrelado por Chris Sarandon como Charles Ward e Jane Sibbett como Claire Ward, esposa do personagem. Os dois filmes são boas adaptações da história, cada um com suas próprias liberdades criativas, mas mantendo a essência.

A premissa principal da história é um tema recorrente nas histórias de Lovecraft, a ideia de que os descendentes de uma linhagem não podem escapar da mancha deixada pelos crimes cometidos por seus antepassados. Esse tema é o que movimenta da trama de Charles Ward. Outra premissa importante é a prepotência humana ao tentar lidar com horrores antigos e inconcebíveis. Ainda que este tema seja sutil na história, O Caso de Charles Dexter Ward possui alguns elementos dos Mitos de Cthulhu (Cthulhu Mythos), como a primeira menção à entidade Yog-Sothoth, que aparece repetidamente como parte de encantamentos necromânticos. Joseph Curwen também aparece como proprietário de uma cópia do Necronomicon. Além disso, existem referências a outros contos do autor, como O Festival, e uma menção à Randolph Carter, personagem recorrente nas histórias de Lovecraft, que funciona como uma espécie de alter ego do autor.

A narrativa é contada sem uma ordem cronológica específica, apresentando fatos do presente (Dr. Willett e Charles Ward) entremeados com fatos do passado (Joseph Curwen), indo constantemente para trás e para frente com a trama, de modo que o caso de Charles Ward se desenrola lentamente. O autor é bastante detalhista em apresentar os eventos que levaram à loucura de Ward, assim como a investigação do Dr. Willett e do pai de Ward. As peças vão se encaixando pouco a pouco, à medida que a pesquisa avança, revelando minúcias de uma história de família repleta de camadas, que revela ainda padrões sociais da Providence dos anos 1920. Lovecraft é meticuloso na construção de seu cenário e de seus personagens. Joseph Curwen é o melhor exemplo disso, um homem que transita pela história como um fantasma, apresentado como alguém a ser temido e evitado como uma doença, composto de uma frieza aterrorizante.

A ação é focada nos mistérios ao redor dos personagens enquanto eles vasculham correspondências mofadas, decifram línguas arcaicas e descobrem fórmulas e conjurações místicas em locais macabros como criptas e cemitérios. O Caso de Charles Dexter Ward é em grande parte impulsionado pelas palavras certas ditas nos momentos certos. O linguajar antiquado de Lovecraft ajuda bastante com o clima de “caça às bruxas”. Outro detalhe é que basicamente não há diálogos, reforçando o tom de relato investigativo e a urgência no horror da história. Os poucos diálogos acontecem apenas no desfecho, quando o Dr. Willett finalmente confronta a verdade por trás do caso de Charles Ward.

A obsessão de Charles Ward por Joseph Curwen representa apenas uma parcela do conto de Lovecraft. Os estudos do oculto levam Ward à desgraça, conduzindo-o para um ciclo sombrio de rituais sinistros, acessos violentos de paranoia, vampirismo, e a conjuração de entidades hostis e medonhas que deveriam permanecer esquecidas no passado. Essa é a grande marca de Lovecraft, que transformou suas obras em clássicos do horror. Enquanto seu estudioso do oculto cresce em estranheza e perversidade a cada página, Lovecraft nos incita a cavar um pouco mais e descobrir os segredos mais sombrios de Charles Dexter Ward e seu antepassado. A obsessão por desvendar os mistérios da obra mostra-se um sentimento contagiante e quase enlouquecedor.

O Caso de Charles Dexter Ward Alan Barcelos



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