Cinema

Sieranevada

Quarenta dias após a morte do pai, o médico Lary se prepara para passar o sábado com a família em homenagem ao falecido. A ocasião, no entanto, não acontece de acordo com suas expectativas.

(Sieranevada) – Drama. Romênia, 2016.

De Cristi Puiu. Com Mimi Branescu, Judith State, Bogdan Dumitrache, Dana Dogaru e Sorin Medeleni. 2h53min. Distribuidora: Mares Filmes. Classificação: 14 anos.

Festival do Rio 2016 – Exibição na Mostra Panorama do Cinema Mundial

Nível Heroico

Sieranevada


Resenha – A saga cotidiana de uma família romena

Cristi Puiu é um diretor romeno de filmes ácidos, como A Morte do Sr. Lazarescu. Suas obras frequentemente revelam aspectos marcantes de sua terra natal através de um olhar sarcástico para como a vida comum é vivida em um mundo onde as pessoas ainda sofrem a mesma privação, burocracia e corrupção que supostamente foi banida da Romênia com a morte do Ex-Presidente Nicolae Ceaușescu em 1989. Ele se aprofunda nesta realidade através do sarcasmo, do diálogo longo e das sequências de humor inexpressivo.

O processo de quase três horas de duração é claustrofóbico, intenso, meio louco, muitas vezes brilhante, às vezes um pouco redundante. Sieranevada é majoritariamente um drama de uma família convencional durante um funeral em que emoções e segredos são revelados naturalmente à medida que as interações tomam forma.

O filme é quase teatral. Acontece principalmente em um modesto apartamento onde a grande família se reúne para prestar reverência e vigília ao patriarca, Emil, que acaba de morrer, e o filme é focado no filho mais velho, Lary (Mimu Branescu), que começa o dia lidando com o temperamento explosivo da esposa, indignada por ele ter comprado o vestido da Disney errado para a peça da escola da filha deles.

Parentes e cônjuges são reunidos no espaço apertado de forma tensa para a homenagem. Mas através de uma série de eventos estranhos e incontroláveis, eles são impedidos de comer o almoço. Em primeiro lugar, o sacerdote chega tarde, e eles sentem que não podem comer até que ele chegue para realizar as devidas orações e ritos. Então, um filho faz um escarcéu sobre a tradição de que ele deve usar o terno do falecido, a fim de que ele possa representar o morto para receber as bênçãos – o terno é muito grande, precisa ser ajustado, e eles não podem começar a comer até que isso esteja feito. – Em seguida, o marido detestável de uma tia aparece, sem ser convidado, e é repreendido por sua infidelidade. Ele precisar ir embora, mas ninguém consegue tirá-lo do apartamento, e eles não podem começar a comer enquanto ele estiver lá. Eles morrem de fome e as horas passam, e eles continuam bebendo vinho, o que só exalta os ânimos e torna tudo mais difícil. É uma estranha provação. Tanta comida, e eles não podem comê-la. O almoço começa a se tornar jantar. E os ânimos cada vez mais se exaltam.

A câmera percorre cada canto do apartamento, indo pelos corredores entre os quartos e cômodos. Quando muitos personagens se reúnem em um cômodo, o espaço fica literalmente lotado, e a câmera precisa olhar por cima das cabeças e dos ombros de todos, tentando – às vezes sem muito sucesso – obter uma visão clara do que está acontecendo. É um procedimento ousado e desafiador. Quando a câmera muda o ponto-de-vista para filmar a ação de forma mais habitual dentro de uma sala, a sensação é de alívio.

A bebida e o fato de não conseguir comer aos poucos acabam com a tranquilidade estoica de Lary, e depois de uma briga feroz com os vizinhos por causa de lugares no estacionamento, ele chora revelando seu fascínio estranho pelas mentiras que seu pai contava. Descobrir o lado feio do pai é um contraste curioso depois de vermos toda a devoção da família para homenageá-lo. A memória afetiva que Lary tem do pai revela como Emil enxergava a si mesmo: um misto de desonestidade e credulidade que coexistiam em um conceito ilusório de mundo. Até certo ponto, Puiu está falando da próprio Romênia, do passado e de hoje em dia. Mas poderíamos facilmente associar com a realidade de qualquer país, inclusive do nosso.

A revelação da percepção de Lary sobre o pai é o caminho para o clímax. Lary e a esposa conseguem relaxar o suficiente para que ele conte a ela sobre sua infância logo depois da discussão horrível no estacionamento por um motivo banal. Na verdade, grande parte do filme gira em torno dessa aparente banalidade que existe no cotidiano familiar. Sieranevada segue como se acompanhasse um pedaço do dia da família em tempo real, com todas as suas agruras, desentendimentos, lembranças e momentos de compreensão. Não há grandes revelações ou epifanias. Há apenas a sensação de que em algum momento da vida já experimentamos um dia em família como este. Toda família tem seus prós e contras. Essa é a beleza de Sieranevada, e por isso é um drama tão instigante.

Sieranevada

Sieranevada

Sieranevada

Sieranevada Alan Barcelos



Compartilhe este Post

Posts Relacionados



Inscreva-se no Canal

Resenhas Populares

Rogue One: Uma História de Star Wars

Rogue One: Uma História de Star Wars

It: A Coisa

It: A Coisa

Planeta dos Macacos: A Guerra

Planeta dos Macacos: A Guerra

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Raw

Raw

Siga no Google

Aperte o Play

Nível Épico em Imagens