Multiverso

O dia em que acordei numa distopia

Donald Trump e a Distopia

Essa semana sonhei com a juventude de Hitler. Não foi historicamente acurado, mas seguiu aquela lógica dos sonhos onde todos falam nossa língua e os cenários são indefinidos. Poderia ter se passado em qualquer lugar. Meu sonho foi até o momento em que, preso, ele resolve que vai escrever um livro. Foi quando o despertador tocou e levantei. Mas, foi acordado, que percebi que estava num pesadelo. Donald Trump havia sido eleito presidente dos Estados Unidos da América.

Nas distopias, somos apresentados a um mundo que já está na merda, mas os personagens ainda não sabem. Geralmente há uma narrativa em flashback contando como as coisas chegaram àquele ponto. Sempre me perguntei como seria viver justamente nesse período de transição, quando tudo está indo pro vinagre e a maioria quer apenas seguir a rotina de seu dia-a-dia. Analisando os últimos acontecimentos, percebo que nós mesmos poderemos dar esta resposta.

Em 1984, de George Orwell, o protagonista Winston simplesmente tocava a vida. Só foi se questionar seriamente quando se apaixonou, embora no íntimo já suspeitasse que algo estava errado. E esta parece ser a regra: internalizar as dúvidas e os desejos até que haja um conflito interno inevitável que nos faça querer agir.

A vitória de Trump, contudo, lembra uma distopia mais recente, a de Jogos Vorazes, por todo o circo midiático que a envolveu. Não à toa, ele foi apresentador de um reality show. Este tipo de atração televisiva é o centro da trama da trilogia escrita por Suzanne Collins, que explicita a metáfora do programa: o espectador torce pela eliminação (morte) de quem não gosta e da sobrevivência dos favoritos. A votação do público aqui no Brasil ficou conhecida como Paredão, o que de novo não deixa espaço para sutilezas: é o próprio público que faz o papel de juiz, júri e pelotão de fuzilamento.

As notícias das eleições dos EUA, desde as primárias, deram espaço o suficiente para todas as “excentricidades ” do candidato. Ninguém parecia levá-lo a sério, e quanto mais a coisa parecia uma piada, mais os eleitores se divertiam e o escolhiam como o show man que iria mudar as coisas. E isto foi fatal para seus adversários, principalmente os democratas, que se deram ao luxo de escolher uma candidata totalmente ligada à Wall Street e ao grupo de pessoas que levaram a economia norte-americana a implodir em 2008. E pior, essa galera deixou o povo na merda, tendo suas hipotecas executadas e perdendo seus empregos, e não só se mantiveram impunes criminalmente, como ainda ganharam ajuda do governo e receberam gordas participações nos lucros ao longo dos últimos anos (para uma detalhada narrativa de como isto ocorreu, assistam ao divertido A Grande Aposta, de Adam McKay, que concorreu ao Oscar de melhor filme em 2016). Bernie Sanders era um candidato que apontava em outra direção, mas foi limado pela direção do partido, achando que, contra Trump, a vitória era garantida, e portanto, não precisaria de um “radical” para ter chances de vitória.

O “comunista” Sanders só defendia, na verdade, a construção de um Estado de Bem-estar Social. Ele estava longe de pregar a revolução, como aliás é o que ocorre com a esquerda em geral após o colapso do regime soviético. Mesmo assim, num mundo de tentativa de pensamento único que prega a austeridade econômica, um projeto de Estado que vise atender necessidades da população carente é visto como algo radical.

Assim, do sonho das utopias de maio de 1968, onde se pregava que só o impossível era uma demanda realista, chegamos ao ponto em que defender só o que é possível já é difícil. E o ressentimento com a falta de perspectiva de mudanças fez explodir tudo de ruim: racismo, machismo, misoginia, discursos de ódio. As redes sociais amplificaram este grito de obscurantismo de forma sem precedentes na história da humanidade, levando ao planeta um tsunami de merda que agora está se espalhando por todos os lados.

A direita mais tradicional parece aceitar tudo em nome do lucro. Já a esquerda tradicional, por sua vez, fez um pacto com o establishment contando com a velha ilusão de que as massas iriam naturalmente aderir ao seu discurso, enquanto comete os mesmos erros que sempre apontou em seus adversários. Ambas agora estão sendo derrotadas por uma extrema-direita xenófoba que flerta com o fascismo, mas que é o único discurso que conseguiu canalizar para si a raiva popular de ter que “pagar o pato” pela farra do sistema financeiro.

E assim chegamos à Trump, um escroque que enriqueceu enquanto falia empresas, graças à incrível habilidade que possui de ser midiático, o que garante a dose de “soma” para o povo, entorpecendo-o com entretenimento, no melhor estilo de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. O futuro presidente percebeu todo este sentimento contra a falta de perspectiva de mudanças e criou uma caricatura grotesca do homem médio raivoso. Quanto maiores os absurdos que falava, mais a mídia o repercutia, e enquanto a política tradicional não lhe dava bola, ele foi crescendo, crescendo, até chegar ao ponto em que se tornou uma força irrefreável.

A sensação que sua vitória transmite é a de um desastre inevitável – a imagem de David Horsey, do Los Angeles Times, que ilustra esta coluna. – Pode até ser que não ocorra, e que ele, como novato na política, meta os pés pelas mãos e não consiga poder de barganha suficiente para efetivar suas promessas de campanha. Mas o erro de todos até aqui sempre foi o de subestimá-lo. Ademais, ele não precisa cumprir todas as promessas, basta só umas duas ou três para o estrago ser gigantesco. Ele ainda terá a maioria do Congresso e também da Suprema Corte, então é razoável supor que não encontrará uma barreira contramajoritária dentro das instituições tradicionais.

A esperança é que a comparação com Hitler seja mesmo exagerada, e todo o mise-en-scène da campanha de Trump seja abandonada quando ele efetivamente ocupar o cargo. Mas isso não vai fazer com que seus eleitores desapareçam. Sonhos bons se transformam facilmente em ruins, mas é o pesadelo que nos dá o susto que faz despertar. E a verdade é que se não lutarmos para realizar o sonho de um mundo melhor, alguém logo vai se encarregar de torná-lo pior em benefício próprio. Façamos a nossa parte.

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