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Transformers e a sexualidade

Transformers e a Sexualidade

Bob Budiansky, quando criava os primeiros esboços do universo dos Transformers chegou um dia para os executivos da Hasbro e perguntou se algum daqueles personagens era do gênero feminino. “Isto é brinquedo de menino. Nós não queremos robôs femininas”, foi a resposta que ele ouviu. Os Transformers, por si só, são seres robóticos que não se reproduzem de forma sexuada, ou seja, no conceito original, eles eram robôs produzidos para servirem aos seres chamados Quintessons. Eles passavam por uma linha de produção e eram divididos em duas categorias: uma para trabalhos braçais e outra que ficaria responsável pela segurança e pela defesa. Estes robôs evoluíram e ganharam alma se tornando, respectivamente, os Autobots e os Decepticons.

Justamente por conta deste tipo de concepção, realmente, não fazia sentido haver uma diferenciação por gênero, daí, todos eles terem aparência e personalidades masculinizadas, sem contar que, nos anos 1980, deixar claro o que era para meninos e o que era para meninas era uma regra implícita no mercado de brinquedos. Até que foi exibido o episódio da segunda temporada da série animada chamado “A Ninja” (Enter The Nightbird). Nele, um humano chamado Dr. Fujiyama constroi uma robô com aparência feminina lembrando uma ninja e muito semelhante a um Transformer batizada de Pássaro da Noite. Apesar de ter dado muito trabalho aos Autobots e causar uma crise de ciúmes bem engraçada em Starscream por ser a nova preferida de Megatron, Pássaro da Noite não era, de fato, uma cybertroniana. Ela, entretanto, pode-se dizer que foi o primeiro passo dado para a inclusão de seres robóticos femininos na história. A confirmação de que o pensamento dos criadores mudou foi no episódio, também da segunda temporada, “A Busca Por Alpha Trion” (The Search For Alpha Trion), onde finalmente são apresentadas as primeiras cybertronianas: as Fêmeas Autobots. A justificativa para inserção desse novo conceito de robô na história foi que, até então, achava-se que as Fêmeas Autobots tinham sido extintas (o motivo da extinção nunca foi esclarecido na série animada, diga-se de passagem, mas serviu também para dizer que elas também foram produzidas na mesma época que os outros Transformers). Obviamente, a partir deste episódio Transformers femininas começaram a aparecer com mais frequência até termos a Autobot Arcee no time dos protagonistas a partir do longa animado de 1986. Aliás, a Arcee só entrou no filme depois de muita luta do roteirista do longa Ron Friedman contra os executivos da Hasbro que ofereciam muita resistência por conta da filosofia já mencionada no primeiro parágrafo. “Eles estavam totalmente relutantes à ideia da Arcee. Eu disse que tenho uma filha que amava Transformers. Que tinham outras meninas que adoravam também. Coloquem uma Autobot fêmea!” As palavras de Friedman colocaram por terra toda a argumentação dos executivos da Hasbro que não tiveram outra opção a não ser acatar a sugestão do roteirista.

Apesar do conceito de Transformer feminina ter entrado na mitologia e, se firmado, ainda que de forma tímida, a Hasbro não ousou lançar nenhum brinquedo inspirado nelas nos anos 1980. O máximo que chegou foi a Takara, na cronologia japonesa lançar um brinquedo inspirado na personagem Headmaster Autobot Minerva da série Transformers: Super-God Masterforce. Porém, o brinquedo inspirado na Minerva não passou de uma versão com cores diferentes usando o mesmo molde do Autobot Nightbeat. Outros personagens femininos surgiram na linha de brinquedos dos anos 1980, mas você só saberia que se tratava de uma Transformer fêmea quando lia a ficha técnica da mesma, não havia nada no visual do robô desse qualquer tipo de indicação. O primeiro brinquedo onde os designers projetaram pensando em ter uma aparência feminina só apareceu mesmo na linha inspirada na série Beast Wars: tratava-se da versão Transmetal da Maximal Airazor. E isso porque a série tinha duas protagonistas femininas: a Predacon Blackarachnia e a Maximal Airazor.

A justificativa para as Transformers femininas só apareceu nos títulos publicados pela Editora IDW. Inicialmente, o roteirista Simon Furman declarou que não usaria Transformers femininas na história até conseguir uma explicação perfeitamente lógica para a existência delas. De fato, a explicação acabou aparecendo na revista Spotlight: Arcee e foi exatamente aí que o caldo desandou. O roteiro desta HQ mostra a origem da personagem como sendo resultado de um experimento do cientista cybertroniano Jhiaxus, que pegou um robô comum e o transformou em fêmea só para ver qual é. Furman, com esta história, passou duas mensagens erradas numa tacada só: não só deu a entender que as mulheres eram aberrações como também deixou entendido que as Transformers fêmeas eram todas transgênero. O conserto desta lambança veio só anos mais tarde, com a inclusão da Transformer Windblade. A roteirista Mairghread Scott ficou responsável pela tarefa e tratou o gênero da personagem da forma mais natural possível afastando por completo a existência das robôs femininas do conceito de aberração ou de resultado de algum experimento bizarro (o que rendeu várias trocas de farpas entre ela e Furman nas redes sociais). Windblade viria do planeta Caminus, uma das colônias-titãs criadas por Solus Prime, uma dos 13 Primes originais. Ou seja, as Transformers femininas passaram a existir de uma forma bem mais consistente: nada mais, nada menos do que a simples imagem e semelhança de uma de seus deuses, fazendo da não-existência delas em Cybertron um ponto totalmente fora da curva.

As Tranformers femininas ganharam mais espaço na atual cronologia cybertroniana com o surgimento de personagens carismáticas, interessantes, rendendo não só histórias bacanas como brinquedos muito legais inspirados nas robôs. E o mais importante de tudo: todas elas são mostradas como personagens de fibra, guerreiras e que estão em pé de igualdade social com os outros robôs sem sofrer qualquer tipo de discriminação por conta do gênero. Uma mensagem bastante interessante para a nossa sociedade, onde a luta das mulheres por igualdade ainda está longe de terminar.

Arte da capa desta coluna: Wolverine9999

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  • Rodrigo Adami

    E ainda hoje tem executivo e público que acha que protagonista feminina não rende, complicado.

  • Luiz Prata

    A questão da “explicação” só se torna complicada quando se compara a sociedade cybertroniana com a humana. Sem essa comparação, bastaria dizer que a diferença de gêneros tem a mesma explicação que a diferença de cor (alguns vermelhos, outros amarelos, outros verdes…), altura (Omega Supreme gigantesco, Optimus médio, Bumblebee original pequeno) ou presença/ausência de placa bucal (Optimus e Soundwave com, Arcee e Starscream sem), por exemplo.
    Em termos puramente lógicos ou técnicos, aliás, era para os Transformers serem assexuados em vez de masculinos, uma vez que são máquinas. Os filmes live-action se aproximam desse conceito, uma vez que a vocalização no idioma cybertorniano, feita principalmente por Frenzy no primeiro filme, não é masculina nem feminina, nem ao menos humana, assemelhando-se mais a sons típicos de máquina, algo como os “bips” de R2-D2 em “Star Wars”. As vozes só se tornam masculinas ou femininas (no caso de Arcee/ Elita-1/Chromia) quando os robôs passam a falar inglês (e as respectivas línguas das versões dubladas).

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