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Carnívora

Carnívora

Nível Heroico


A sensação de medo de uma grande metrópole

(Carnívora) – Horror. Brasil, 2015. De Pericles Junior. Com Carlos, Parede, Jéssica, Sapão, Adriana, Preto Ziza. AVEC Editora. 120 páginas.

O policial Carlos, com a ajuda de seus parceiros Parede e Jéssica, tenta localizar o paradeiro da namorada, Adriana, sequestrada numa falsa blitz. As pistas levam ao traficante Sapão, que comanda o crime na Comunidade do Complexo da Caveira, no Rio de Janeiro. Contudo, um mal de origem sobrenatural paira sobre o local, não fazendo distinção entre bandidos e mocinhos no momento de escolher suas vítimas.

Quem mora em uma grande metrópole está acostumado com a sensação de medo. É comum olhar o tempo todo para os lados, desconfiando de quem se aproxima. Numa cidade partida como o Rio de Janeiro, onde a diferença de classes é gritante e tanto a polícia quanto os criminosos não pensam duas vezes para utilizar a violência, o cenário é perfeito para uma boa história de terror. Por incrível que pareça, são poucas as obras que exploram esse filão, mas esse déficit começa a ser compensado com o lançamento de Carnívora, de Pericles Junior.

Nessa graphic novel, acompanhamos a trajetória de três policiais que tentam solucionar o mistério do sequestro da namorada de um deles. As pistas indicam uma solução sobrenatural, embora a ficha demore a cair para os protagonistas, o que pode levar tudo a perder.

O grande mérito desta HQ é o senso de urgência, que passa do roteiro para a ambientação, os cenários e se reflete no próprio traço “nervoso” do artista. Pericles escolhe ângulos e opções artísticas que cumprem o papel de nos fazer sentir dentro do perigo, aumentando o impacto das emoções vividas pelos personagens. Por exemplo, em algumas cenas de ação, mesmo com a arte-final, há momentos em que se percebe o traço à lápis original, como se a ação desenfreada tivesse impedido o artista de “terminar” a arte, tal qual um cinegrafista no meio da linha de tiro que treme a câmera.

O autor ainda brinca com a narrativa, usando depoimentos entrecortados de moradores do Complexo da Caveira comentando os mistérios do local, como num documentário, um bom artifício de ambientação. Os monstros da trama aparecem aos poucos, sempre de maneira perigosa, o que aumenta a tensão. Além disso, as cenas de tiroteio na comunidade puxam para um lado mais realista, alimentando todas as nossas paranoias urbanas. E os detalhes, como um close na sandália de dedo do traficante, e depois no tênis próprio para corridas do policial, ajudam a construir o contraste da cidade onde poucos têm muito, muitos têm pouco, e todos têm medo.

A trama policial e a trama de horror de início parecem separadas, mas aos poucos vão se juntando até convergir no final. A HQ funciona muito bem assim, sendo intercalada ainda por flashbacks que ajudam a construir os personagens e suas motivações. O único detalhe que não funciona tão bem no final é que o aparente protagonista acaba ficando em segundo plano, enquanto a personagem que parecia secundária assume o protagonismo, o que por si só não fica ruim, mas poderia ter havido um maior equilíbrio entre ambos ao longo da obra para a conclusão funcionar de maneira um pouco mais orgânica. Além disso, passaram alguns errinhos de português e letras “comidas” que merecem atenção numa segunda edição.

Carnívora

É de se notar ainda que essa HQ só foi publicada graças a uma bem sucedida campanha no Catarse, sendo fundamental o apoio dos fãs. Sem dúvida foi uma vitória, mas é de se pensar quantas outras boas histórias e artistas nacionais estão por aí batalhando por um lugar ao Sol e que o público ainda não conhece simplesmente por não ter quem os apresente. Ainda há muito a trabalhar para que nosso mercado consiga absorver todos os nossos talentos, embora se reconheça que a situação esteja melhorando nos últimos dez anos.

Como nas melhores histórias de horror, Pericles Junior consegue usar o sobrenatural como a metáfora para o medo real que cala a alma humana. Quando a violência urbana parece estar banalizada e incorporada ao cotidiano dos moradores do Rio de Janeiro (e nesse sentido poderia ser qualquer outra metrópole brasileira), o autor utiliza sua HQ para nos lembrar de que algo está errado, e que se não lidarmos bem com nossos erros, eles retornarão e cobrarão um preço terrível por nossas omissões.

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