Multiverso

O imaginário, o incoerente e o furo; três elementos em conflito no cinema

Durante o Papos & Ideias na Saraiva sobre Doutor Estranho e Magia, uma questão interessante surgiu na conversa: a necessidade da cultura atual de explicar tudo o tempo todo, especialmente em grandes franquias cinematográficas. Isso acabou criando um hábito não muito saudável, especialmente entre os críticos de cinema, de atribuir lacunas deixadas em uma história a supostos “furos de roteiro” – que muitas vezes não são tão furos assim. – Eu falei sobre isso na Saraiva, e pensando no assunto, decidi escrever e elaborar um pouco mais em cima do que disse no evento.

Para começar vou pegar um gancho de um filme citado na plateia quando eu estava comentando sobre o assunto: Alien, o Oitavo Passageiro, definido pela pessoa que o citou como uma obra-prima do cinema. Eu não poderia concordar mais com a colocação. Alien, o Oitavo Passageiro é, de fato, uma obra-prima do cinema e há algumas razões para isso. Uma delas é o suspense. Ele surge do sentimento de incerteza e ansiedade criado pela antecipação a um fato, ou seja, nós imaginamos que algo vai acontecer antes de acontecer e nos preocupamos com isso. Não conhecer ou não ter certeza sobre os fatos nos obriga a prestar mais atenção neles. Dentre as qualidades que tornam o filme tão primoroso está a habilidade de Ridley Scott para usar as sombras para esconder e apenas insinuar suas criaturas, e a construção de uma narrativa que sugere grandes trechos de história pregressa deixada a cargo da nossa imaginação enquanto espectadores. Não são coisas que nos são abertamente contadas; são coisas sugeridas para que nós preenchamos as lacunas da forma que quisermos.

Han Solo e Boba Fett e Darth Vader

As sutilezas do enredo de 1979 são o maior trunfo de Alien, o Oitavo Passageiro se comparado aos filmes lançados de 2010 até agora. As histórias e os elementos de tensão entre os personagens centrais são insinuados, mas nunca explicitamente mostrados, o que nos oferece a chance de completarmos, nós mesmos, os espaços em branco. Apenas com poucos diálogos e imagens, e pela forma como interagem uns com os outros, somos capazes de perceber a tensão entre os tripulantes da nave Nostromo.

Esta é uma realidade tão forte de Alien, o Oitavo Passageiro, que sua continuação, Alien, o Resgate, lançada em 1986, a perpetua. James Cameron leva seus soldados para a trama apenas com breves introduções, sem explicações demasiadas sobre quem são ou por que foram reunidos pela Weyland Yutani. Cabe unicamente a nós construir nossas próprias percepções sobre isso. Nós somos simplesmente jogados em uma missão num lugar infestado de Xenomorfos junto com soldados que, pelo que é sugerido, trabalham procurando e recolhendo espécimes alienígenas para a empresa. Isso significa que a Weyland Yutani sabia da existência de alienígenas décadas antes da história do filme.

Até essa época, 1986 e alguns anos depois, o que sabíamos sobre o universo de Alien era principalmente baseado em nossas próprias percepções da história e naquilo que conversávamos com amigos – de onde sempre surgem as maiores teorias sobre qualquer coisa. – A partir de 2012, as noções sobre Alien deixaram de ser conjecturas e se concretizaram. Com a estreia de Prometheus, situado décadas antes de Alien, o Oitavo Passageiro, conhecemos uma equipe enviada por Peter Weyland para investigar o espaço em busca do segredo da vida na Terra. Na procura pelo que seriam deuses antigos responsáveis pela criação da humanidade, os personagens acabam encontrando uma história de origem meio truncada para os Xenomorfos.

Prometheus é um filme que dividiu opiniões, e eu particularmente gosto dele, mas reconheço que ele tem problemas que atrapalharam algo que poderia ter sido maior e melhor. Uma das acusações ao filme, especialmente de críticos, foi justamente o que falei anteriormente sobre os “furos de roteiro”. Estou usando as aspas por uma razão. Há uma diferença entre furo de roteiro e incoerência de roteiro. O que muitos chamam de furos de roteiro hoje em dia nada mais é do que as lacunas comuns a toda história, mais fáceis de serem encontradas antigamente do que atualmente. Estas lacunas costumam ser deixadas em aberto porque ~1. não haveria necessidade de serem explicadas e/ou ~2. poderiam ser preenchidas pelo espectador.

Prometheus não tem “furos de roteiro”, tem incoerências mesmo, como o geólogo que se perde dentro de uma caverna, ou o biólogo que decide tocar em uma criatura alienígena desconhecida sem proteção. Além das incoerências, Prometheus acabou sofrendo com suas próprias intenções de explicar algo cujo valor estava justamente no fato de não ser explicado: o piloto fossilizado na cadeira que encontramos pela primeira vez em Alien, o Oitavo Passageiro. No filme de 1979, o alienígena que passou a ser chamado de Space Jockey é descoberto pela Nostromo quando a nave visita o planeta LV-426 para investigar um sinal desconhecido. A tripulação encontra a nave espacial, mas não encontra qualquer vestígio do Alien que nasceu a partir do Space Jockey. Durante anos, as origens do Space Jockey e de sua espécie constituíram um dos mitos mais interessantes do universo de Alien, combustível para inúmeras conversas especulativas sobre o filme, até que em 2012, Prometheus nos apresentou suas origens. O que antes era deixado a cargo do nosso imaginário passou a ser abertamente explicado, e isso acabou com o espaço para as teorias.

Se por um lado, para aqueles que discutiram durante anos sobre o Space Jockey, a premissa de conhecer mais profundamente sobre ele fosse algo estimulante, por outro lado, a revelação de suas origens também se tornou o maior paradoxo de Prometheus, pois acabou justamente com o estímulo à imaginação que fazia do Space Jockey uma criatura intrigante.

Prometheus, de fato, expandiu o universo de Alien para além dos conceitos iniciais de Ridley Scott em 1979, mas ao mesmo tempo, tornou evidente algumas coisas da mitologia que antes eram deixadas para nossa solene capacidade de imaginar. Esta é, no fim, a grande ferramenta dos mitos: a imaginação.

As questões de incoerência, na verdade, surgem frequentemente quando um filme abandona as aberturas ao mítico e ao imaginativo na tentativa expandir seu universo através da proposta de responder questões não respondidas – que talvez estivessem ali para não serem respondidas mesmo, mas que sofrem com a ânsia atual por preencher todas as lacunas com respostas explícitas. – Outro exemplo da incoerência nesse sentido está em Exterminador do Futuro: Gênesis, na relação entre o John Connor cyborg, o campo eletromagnético e a máquina do tempo, sobre a qual eu comento no final da resenha do filme. Este sim é um problema gritante de incoerência de roteiro e que atrapalha MUITO a história. Os chamados “furos de roteiro”, na verdade, não chegam a ser um problema. Eles são lacunas que fazem parte de qualquer roteiro. Bons roteiros têm suas lacunas e nem por isso deixam ser bons. O problema é quando o roteiro é incoerente com suas próprias ideias.

Pensemos por exemplo nos três filmes que George Lucas produziu de 1999 a 2005 para explicar como aconteceu a transformação de Anakin Skywalker em Darth Vader. As histórias sobre o grande herói que teria sido Anakin Skywalker, que imaginamos por anos, acabaram se perdendo quando descobrimos que o temível Darth Vader foi, na verdade, um moleque mimado e impaciente, constantemente revoltado por razões questionáveis. A magia do que fazia Darth Vader ser Darth Vader perdeu um pouco (só um pouco) do brilho quando deixou de ser imaginada e se tornou explícita, da mesma forma que aconteceu com o Space Jockey. Isso sem falar das incoerências que vieram com os Midi-chlorians, a presença de C-3PO e R2-D2 na trama, a morte de Padmé quando seus filhos eram ainda bebês pouco capazes de se lembrar dela, entre outras coisas.

Olhando mais de perto para a tendência de explicar tudo, é possível notar que ela começou a se tornar mais forte e presente na cultura cinematográfica exatamente nessa época dos lançamentos das prequels de Star Wars. Foi também nessa época que prequels, spin-offs, remakes, reboots e histórias de origem começaram a se tornar uma constante no cinema. A partir destas premissas surgiram as franquias de múltiplos arcos de história, os quartos filmes divididos em duas partes, a construção de universos compartilhados – elementos tão fortes na cultura atual. – Se por um lado estas premissas trouxeram novas e bem-vindas formas de contar história no cinema, por outro, criou uma tendência de suprimir o espaço para o imaginário dos enredos em função do excesso de explicações sobre tudo o tempo todo. E ao contrário do que você poderia pensar nesse momento, isso não é uma responsabilidade do Universo Cinemático da Marvel, até porque os filmes da Marvel Studios nem são tão preocupados em explicar todas as coisas. Eles conectam alguns elementos e abstraem outros na medida do necessário. São bem equilibrados com isso.

Desde a estreia das prequels de Star Wars, na verdade, o que vimos foi a ascensão massiva dos filmes grandiosos, arrasa-quarteirões devastadores, com cada vez mais efeitos especiais e orçamentos exorbitantes. Isso não é uma crítica, é uma análise de fatos, que fique bem claro. Claro que nada há de errado com histórias repletas de arcos de história ou narrativas complexas, mas é importante a habilidade de construir um equilíbrio entre as explicações e as aberturas para a imaginação. Nesse sentido, um filme mais econômico muitas vezes tem chances mais favoráveis de dar certo do que um filme grandioso. Nós chegamos a um ponto em que custa tanto dinheiro para fazer um filme, que estúdios e realizadores sentem que precisam se certificar de que todo mundo será capaz de absorvê-lo e compreendê-lo, e que TODAS as pontas abertas sejam invariavelmente fechadas até a conclusão da história. Isso cria a clássica situação de subestimar o público e, frequentemente, faz o feitiço se virar contra o feiticeiro, pois o excesso de explicações tem mais chances de criar incoerências no roteiro do que se algumas lacunas forem deixadas em aberto para pensarmos e especularmos um pouco sobre elas. É proveitoso para uma audiência ser desafiada. Quanto mais um filme nos desafia, mais queremos discutir sobre o filme e sentimos desejo de retornar a ele outras vezes.

Christopher Nolan, uma cria da atual geração, pode ser o maior exemplo de onde conseguimos encontrar esse importante equilíbrio, visto que ele foi do econômico Amnésia até o grandioso Interestelar sem se obrigar a explicar todas as coisas de seus filmes o tempo todo, nos permitindo pensar sobre eles mesmo tempos depois de seus lançamentos. A Origem é um desses filmes, que eu facilmente coloco ao lado de Alien, o Oitavo Passageiro como uma obra-prima do cinema por causa dessa noção exata de como construir uma boa história com o perfeito equilíbrio entre explicação e imaginário, filme menor e filme mega blockbuster.

Em breve Disney e Lucasfilm lançarão Rogue One: Uma História de Star Wars, o primeiro de uma série planejada de spin-offs da icônica saga de George Lucas, expandindo o novo cânone de um universo que durante anos já encontrou inúmeros elementos para sua expansão. Algo incrível de Star Wars é que seu universo sempre encontrou força (com perdão do trocadilho) para se expandir sem ser drasticamente afetado pelo excesso de explicações. Ainda assim às vezes é bom sermos deixados vagando em buracos negros nos roteiros para ficar pensando e teorizando sobre coisas que podem ser ou não em uma história ou mitologia. Entre os projetos recentes de Star Wars, há um sobre Han Solo e outro sobre Boba Fett, quando ainda eram jovens e principiantes em seus ramos de trabalho. Eles são personagens populares que sempre despertaram a curiosidade dos fãs pelo passado de cada um, ainda que os detalhes de suas histórias não fossem aprofundados nos filmes originais. Para o público sempre foi divertido imaginar o que Han poderia ter enfrentado antes de atirar primeiro em Greedo – não resisti –, ou como Boba Fett se tornou um caçador de recompensas – a bela imagem deles que encerra esta coluna é do artista Ornicar. – Nós olhamos com expectativa para estes filmes que estão por vir, mas sempre existe aquela pontinha de preocupação de que o excesso de explicação sobre a história pregressa dos personagens abale em algum nível a magia que há neles. Sempre é complicado quando saímos do campo do imaginário para o campo do concreto. É uma razão pelo qual, inclusive, muitas das adaptações de livros para filmes enfrentam problemas para cativar o público.

Repito que isso não é uma crítica, é uma análise de fatos. Nada há de errado com filmes sobre o passado, prequels, spin-offs e histórias de origem, mas ao mesmo tempo, seu uso excessivo pode também criar incoerências que apenas atrapalham uma das maiores qualidades do cinema, a capacidade de estimular a imaginação. Isso curiosamente me fez pensar em Três Homens e um Conflito. O filme, que originalmente se chama Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo, fornece uma ideia interessante para tudo o que falei nesse texto. O imaginário, o incoerente e o furo são como indivíduos complexos lutando por ganhos pessoais em um mundo de ganância e capitalismo. Por isso são elementos importantes na cultura atual, porque estimulam um tipo de magia no cinema capaz de nos dar a impressão de uma vida vivida fora dos limites da tela.

Han Solo e Boba Fett e Darth Vader

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