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Bulldogma

Bulldogma

Nível Heroico

Cotidiano surrealista

(Bulldogma) – Drama. Brasil, 2016. De Wagner Willian. Com Deisy Mantovani, Alana e Lino. Editora Veneta. 320 páginas.

A ilustradora Deisy Mantovani muda-se para um apartamento anunciado como local de reabastecimento de naves intergalácticas. Enquanto tenta acertar sua vida profissional e afetiva, estranhos acontecimentos ocorrem, misturando os limites entre fantasia e realidade.

O surrealismo é um movimento artístico que até hoje causa estranhamento, quase 100 anos após seu surgimento. Embora “surreal” tenha virado adjetivo para tudo o que foge à lógica padrão, a verdade é que a intenção original era mais do que simplesmente quebrar as convenções. O artista surrealista buscava mergulhar fundo na psique humana, sem filtros, sem muita racionalização, para tentar extrair os elementos mais profundos de nossas almas. Embora tenha se encerrado como escola artística, até hoje produz frutos, sendo influência visível em diversos campos da arte. Um grande exemplo recente é a graphic novel Bulldogma, do potiguar Wagner Willian.

Não à toa, a estrutura da obra lembra a dos filmes de David Lynch e Luis Buñuel, nos quais o que é realidade, o que é sonho e o que é simples imaginação se misturam, e cada novo caminho pode surpreender o público. Tirar deste as suas certezas é importante, pois só assim podemos conhecer a fundo o que sente e emociona as personagens.

No caso de Bulldogma, acompanhamos a vida de Deisy Mantovani, uma ilustradora e roteirista que acaba de se mudar para um apartamento anunciado como interseção com um mundo alienígena. Conhecemos a protagonista com suas dificuldades no trabalho e na vida amorosa. Para compensar, ela faz uma HQ independente que não sabe como vai publicar. Ao longo da obra, contudo, pedaços dessa HQ vão entrando sem aviso, até já não termos mais certeza do que é real ou ficção. E ainda tem os alienígenas que podem ou não estarem interferindo em tudo, o que torna tudo ainda mais incerto.

O mais curioso é que Deisy tem uma vida bastante comum – brigas com chefes, relacionamentos amorosos que terminaram de forma ruim, um cachorro de estimação chamado Lino. A maioria das cenas tem esse tom de dia-a-dia, ela conversando com os amigos sobre filmes, HQs e cultura pop em geral, indo ver um show de rock, ou beber num bar, enfim, sensações familiares para nós também, o que nos dá proximidade: é como se o leitor também fosse do círculo de amigos da protagonista.

É justamente nesses bate-papos que surge a maioria das referências. E nesse quesito, o autor é bem variado: podem ser HQs da Marvel/DC ou europeias, músicas dos anos 90, filmes B da década de 50. O gosto é bem variado, como o de qualquer fã da cultura pop. O curioso é que muitas vezes o que é citado ganha nota de rodapé com os dados completos – um convite para o leitor correr atrás do que ainda não conhece.

Bulldogma

Além do surrealismo, a HQ bebe bastante na Novelle Vague. Embora fique mais explícita em relação a François Truffaut (inclusive na utilização da ficção científica como pano de fundo, como o diretor francês fez com Fahrenheit 451), não dá para passar em branco a influência de Jean-Luc Godard. Isto porque Wagner Willian se utiliza muito da metalinguagem ao longo da obra. Os questionamentos de Deisy sobre como fazer sua graphic novel, como publicar, etc., são claramente os questionamentos do próprio autor em relação à Bulldogma. Ele vai construindo a trama ao mesmo tempo em que realiza a HQ, o que dá um aspecto orgânico que faz muito bem ao resultado final. Mais uma vez, há um diálogo entre autor, obra e público que torna a leitura muito prazerosa.

Outra coisa a chamar atenção é que se trata de uma graphic novel bastante longa: são 320 páginas de quadrinhos. Não é uma leitura rápida, mas as idas e vindas da protagonista em momento algum se tornam monótonas, até porque a todo momento se misturam com a parte mais surreal da trama.

Por tudo isso, percebe-se que estamos falando de uma HQ única, ainda mais dentro do mercado brasileiro. Um trabalho autoral de fôlego, que foge ao comum, com influências diversas e que vão além das mais populares. É como se fosse uma conversa de bar que ocorresse no Restaurante no Fim do Universo de Douglas Adams, sendo retratado numa pintura de Max Ernst. No fim, torna-se desnecessário saber o que é real ou ficção: tudo é verdade, ou A Verdade de Deisy Mantovani. E isso é o que importa.

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