Trocando Ideias

Está faltando essa história de entender o outro

Empatia e Leitura

Empatia é a capacidade humana de se posicionar no lugar do outro. De compreender o diferente, ainda que não concorde com ele. O Brasil contemporâneo parece arrastar-se com força para uma realidade vociferante e conservadora, onde o diferente é atacado, em uma demonstração de falta de empatia. O mesmo Brasil contemporâneo demonstra as assustadoras consequências de décadas de falência do sistema educacional e da falta do hábito de leitura. As duas coisas estão interligadas.

É o que apontam pesquisas recentes que postulam que a leitura da literatura de ficção é um dos motores geradores de empatia no ser humano. Pesquisadores da The New School, da cidade de Nova York, chegaram a esta conclusão após realizar uma série de cinco estudos com um número variado de participantes (entre 86 e 356 pessoas) e dar a elas tarefas de leituras diversas: trechos de literatura popular ou de gênero, de romances literários, de não-ficção ou ainda um regime sem leitura alguma. Terminada a leitura destes trechos, os participantes tiveram que fazer um teste que media sua capacidade de inferir e entender os pensamentos e emoções das outras pessoas. Para surpresa dos pesquisadores, foi detectada uma diferença considerável e sucessiva entre os quatro grupos: leitores de “alta literatura” obtiveram o maior grau de empatia, seguidos pelos leitores de “literatura de gênero”, depois pelos de não-ficção e, em último, pelos não-leitores. A diferença entre os resultados dos quatro grupos foi bem alta.

É claro que toda metodologia de pesquisa com pessoas é falha e pode envolver variáveis imprevistas e invisíveis à época em que o estudo foi realizado. E abro aqui parênteses para afirmar que acho forçada (em alguns casos) a distinção entre alta literatura e literatura de gênero. Não que esta distinção não exista: é só colocar Dostoiévsky e 50 Tons de Cinza lado a lado que percebemos claramente esta diferença. Mas é uma distinção que praticamente some se colocarmos Graham Greene e William Gibson lado a lado. E praticamente se inverte, com vitória da literatura “de gênero”, se a comparação é feita entre Jonathan Franzen e Neil Gaiman. Enfim, não acho que a distinção real seja entre “alta” (ooh) literatura e literatura de gênero, mas sim entre boa e má literatura, que podem estar em qualquer dos dois lados desta disputa entre times adversários não-existentes.

Finda esta digressão, vamos lá: o que importa é que a pesquisa demonstra que a leitura de obras de ficção é um gerador de empatia muito mais potente que a leitura de obras de não-ficção; e que a leitura das duas, ficcão e não-ficção, vence com folga do triste hábito da não leitura.

Isto lembra alguma coisa sobre o Brasil atual?

Este país cada vez mais preenchido por extremistas vociferantes que atacam conceitos básicos como direitos humanos e idolatram trogloditas que pedem a instauração de uma ditadura militar, enquanto agradecem a Deus por ter lhe dado seu Clio 2007 (sim, porque se há uma coisa que preocupa qualquer panteão é o fato de você, especificamente, não ter um carro). Um país, em resumo, onde grassa a falta de empatia. Onde mulheres, gays, negros, ativistas, professores, estudantes, índios são tratados como lixo por parcela significativa de sua população e de seus governantes. E um país onde, não por coincidência, o sistema educacional vem sendo destruído e desmantelado há 50 anos, sem cessar.

Houve tentativas isoladas de criar boas escolas públicas; há a pequena vitória diária de cada bom professor com seu esforço individual. Mas a realidade é triste: temos um sistema educacional falido, que privilegia a cultura do jeitinho, a falta de consequências para o aluno que não quer estudar e não sabe nada (e a consequente falta de estímulo para aquele que quer estudar e aprender). Tudo isso gera uma sociedade como a atual, em que 30% dos brasileiros nunca compraram um livro e 40% dos universitários são analfabetos funcionais, ou seja, chegaram à faculdade sem conseguir entender o que leem ou escrever coisas que façam sentido.

A falta do hábito de leitura e a extrema incapacidade de interpretação de texto geram problemas muito bem visíveis no dia a dia. É só reparar nas asneiras que saem da boca de quem pede a “volta dos militares constitucionalmente”, de quem defende uma “escola sem partido” (como se ensino pudesse ser acrítico e dono de uma assepsia moral “pura”, herança do triste positivismo que gerou até mesmo o lema de nossa bandeira), e notar os comentários dos sites de notícias, fossa de todo tipo de preconceito e discurso de ódio. Olhe para os comentários e eles olharão para você.

Sem leitura não há empatia. Sem o hábito de ler ficção não há democracia. Sem livros não há futuro possível. Literatura de qualidade, seja ela Machado de Assis, Alan Moore, Neal Stephenson, Jorge Luís Borges, Jack Kerouac, Georges Simenon, China Miéville, Clarice Lispector, Kelly Link, Tolstoi ou Aliette de Bodard, traz boa caracterização, traz aquele mergulho no pensamento, hábitos e almas de outras pessoas. De pessoas diferentes de nós. E isso ativa a empatia, como um músculo encorpado pelo exercício regular. E empatia é o que faz a diferença. É o que faz a pessoa querer que os pobres estejam na escola, aprendendo, e não amarrados a um poste apanhando porque roubaram um relógio.

Empatia é o que nos faz pensar no bem geral, na sociedade, e não apenas em nós mesmos e nossos parentes próximos. É o que nos faz ajudar o filho do vizinho que não conhecemos, ao invés de estimular nossos filhos a baterem nele e pegarem seus brinquedos. É o que impede que tenhamos uma casta de governantes como a que temos agora.

Nos anos 80, os PIBs do Brasil e da Coréia do Sul eram quase idênticos. Na época os dois países eram colocados lado a lado em uma espécie de grupo pré-BRIC de países que “iriam decolar”. Passados 35 anos, a Coréia do Sul decolou e o Brasil deu mais um de seus voos em ziguezague. O que a Coréia do Sul fez de diferente? Passou a pagar salários altos para seus professores, que passaram a ser tratados como a nata da nação. Ser professor na Coréia do Sul é uma honra, uma profissão respeitada e desejada. Aqui tomamos o caminho contrário: professores ganham uma miséria, apanham da polícia em greves e manifestações, são chamados de vagabundos por uma classe média cada vez mais ignorante. Resultado: a Coréia do Sul produz smartphones, smart TVs e microchips (Samsung), carros (Hyundai), monitores e telas (LG) e diversos outros bens lá do alto da escala de manufatura e pesquisa. E aqui continuamos vendendo minério e soja para a China e, mais uma vez, somos colocados ao lado dos países que “ameaçam dar certo”, os BRICs.

Toda essa condição se espelha nas listas de livros mais vendidos do Brasil: livros de auto-ajuda escritos por padres, livros de auto-ajuda escritos por juízes, livros escritos por “bispos” evangélicos sobre como ganhar dinheiro, livros para colorir, livros de auto-ajuda e besteirol sem senso de humor escritos por youtubers. E isso porque a Bíblia (livro mais lido entre os brasileiros) não entra na lista de mais vendidos. Lemos pouquíssima ficção. Não consumimos histórias, não entramos na mente de pessoas distintas de nós. Procuramos apenas ler sobre nossos iguais, da mesma forma que nossas timelines do Facebook são treinadas para excluir todos que pensam de outra forma ou gostam de livros, filmes e bandas que não gostamos.

Sem ficção não há saída. Não há conclusão possível. Histórias são o germe do pensamento humano. Tudo é história: lendas e mitos são histórias, religiões são histórias. O conhecimento científico é uma narrativa. Uma música é uma história contada em notas e pura matemática. A matemática, a passagem do tempo, a História com H maiúsculo, nossas vidas pessoais: nosso mundo é feito de narrativas.

Fechar os olhos para a boa narrativa, para um dos artefatos mais elegantes e tecnologicamente avançados que nossa espécie já produziu (o romance de ficção) só pode sinalizar a queda. E o irônico é que essa queda acontece em um período onde nunca foi tão fácil ler um romance, em uma época de ebooks e extrema profusão de telas no dia a dia.

Claro, existem excelentes histórias e narrativas nos quadrinhos, nos filmes, nos games, nas séries de TV, nos tabuleiros de RPGs, na música. Histórias capazes de despertar empatia (ainda que em menor grau do que os romances, de acordo com as tais pesquisas), mas ainda assim muito dignas de leitura, de atenção, de todo um arcabouço crítico próprio. Mas todos estes veículos têm origem na célula narrativa humana mais primordial: a narrativa ficcionalizada, que é traduzida em sua forma mais poderosa no romance, no conto. Todas estas formas têm origem lá atrás, quando os primeiros homens a se reunir dentro de cavernas, nas clareiras das florestas, antes ainda de saber como fazer fogo, olhavam para a lua e contavam histórias sobre seu brilho, sua trajetória, seus formatos, seus buracos, seus significados, suas deusas.

Não deixe a narrativa de ficção ser apenas uma face oculta da sua vida. Leia livros. Arrisque-se a ler coisas que você acha que não gosta. A vida tem várias fases, várias vidas, vários lados. E todos estão logo ali na prateleira de alguma estante.

LINKS:

Teoria da Mente

Ler Ficção nos Torna Mais Empáticos

Número de Leitores Cresceu no Brasil, Mas Ainda é Baixo

No Brasil, Apenas 8% Têm Plenas Condições de Compreender e se Expressar

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