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Passado e presente no cinema da nostalgia

Cinema da Nostalgia

O que aconteceu com a criatividade no cinema? É o que muitos se perguntam toda vez que surge um remake ou reboot de uma obra antiga. De fato, vivemos uma época de refilmagens, reinícios, adaptações, em que os filmes novos buscam no passado uma fórmula certeira de replicar o sucesso daquilo que já foi bem sucedido. Há razões comerciais para isso. Mas também há razões artísticas. O que podemos fazer é tentar entender como chegamos até este momento, em que uma ideia revisitada se tornou mais poderosa do que uma ideia original.

Para começo de conversa, o mundo mudou. Somos fruto de uma sociedade em constante movimento. O mundo do cinema transformou continuidade em descontinuidade enquanto valores, formas e culturas ganhavam novos contornos. O cinema contemporâneo repensa, recria, recorta, cola, transforma, reinventa e reage com a sociedade, expressando todos os tempos ainda que seja atemporal.

O cinema reflete essa descontinuidade, com cortes de edição, saltos no tempo e no espaço, histórias contadas fora de ordem. Assume essas características através das referências visuais e estéticas que vem se revelando mais claramente desde os anos 1980. Aos poucos nossa cultura assumiu aspectos que prezam cada vez mais pelo visual, reforçando muitas vezes o valor da imagem e das referências ao passado.

Em 2013, um dos indicados para o prêmio de Melhor Filme da 85ª edição do Oscar foi Django Livre (2012), que embora seja uma obra de roteiro original (tendo inclusive conquistado o Oscar nesse quesito), presta muitas homenagens aos clássicos filmes de faroeste, como o Django original de Sergio Corbucci (1966). O próprio faroeste, como gênero, ficou marcado por sempre fazer referências aos seus clássicos, especialmente depois da década de 70. Esta, contudo, não é uma marca exclusiva do faroeste, ainda que no gênero seja proeminente. Os filmes contemporâneos olham para o passado constantemente através de suas citações, homenagens e referências. Isso se torna ainda mais evidente quando pensamos em como remakes e reboots se tornaram comuns no mercado cinematográfico.

Philippe Dubois, em seu livro Cinema, Vídeo, Godard, estabelece períodos em que o pensamento e as formas do cinema teriam exibido características importantes de sua época. Ele divide esses momentos em quatro estados: primitivo, clássico, moderno e pós-moderno. Olhando para essa divisão de períodos conseguimos pensar um pouco sobre o que levou o cinema a assumir esse interesse tão grande pelo passado.

O estado primitivo, anterior a 1915, é o cinema das origens, das descobertas e das expectativas, da inocência, das primeiras sensações fortes, da profundidade e do plano-sequência bruto, das trucagens selvagens e ingênuas, da filmagem em bloco e sem perdas, das experiências de nomes como os Irmãos Lumière (Louis e Auguste) e George Méliès.

O estado clássico, de 1915 a 1945, é o cinema da edição e da decupagem, com lógicas labirínticas de cortes e montagem e escala de planos, alterando dramaticamente o aspecto de filmagem em bloco e exaltando nomes como D. W. Griffith, Alfred Hitchcock, Fritz Lang, John Ford e Howard Hawks. O cinema clássico articula o cinema como linguagem e constrói seus parâmetros essenciais: espaço, tempo, ator, cenário, narrativa, som. O espectador deixa de ser apenas espectador e passa a ser construtor de sensações, efeitos e expectativas. O estado moderno, de 1945 a 1975, é aquele que se inspira nos clássicos, mas que busca se afastar do clássico.

Encabeçado por nomes como Roberto Rossellini, Orson Welles, Ingmar Bergman, Federico Fellini, François Truffaut, Jean-Luc Godard e Werner Herzog, o cinema moderno é um cinema de ruptura, que recusa as práticas rotineiras e a eficácia previsível e excessivamente controlada, e que veio depois das guerras (da ruína, do desastre, da falência mundial, da propaganda).

O estado pós-moderno é o cinema do final dos anos 1970 até os dias atuais, caracterizado especialmente pelas formas assumidas ao longo dos anos 1980, quando surgem nomes como Hans Jürgen Syberberg, Francis Ford Coppola, Peter Greenaway, Jim Jarmusch e Lars Von Trier, e quando vários entre os modernos evoluem em direção ao pós-moderno, como Fellini e Godard. O cinema pós-moderno, de acordo com Dubois, é aquele produzido por quem tem a perfeita consciência de ter chegado tarde demais, num momento em que já se alcançou certa perfeição. A questão fundamental a se considerar é o de como fazer ainda, como lidar com a tradição, qual postura ou maneira adotar para a filmagem sem sofrer com os bloqueios impostos pelo peso e pela excelência da tradição que veio antes. Faz sentido quando olhamos para a indústria cinematográfica atual.

Com o cinema pós-moderno, os cineastas buscam maneiras de se libertar desse peso, de refazer, explorando também maneiras frequentemente sinuosas, de contorções e reformações, de sofisticações e excessos, desde a coleção de referências e inspirações de Quentin Tarantino até os cenários ostensivamente teatrais de Wes Anderson – esses dois cineastas surgindo nos anos 1990 como representantes do cinema pós-moderno. – O estilo proveniente aos anos 80 perdurou ao longo dos anos 90 e 2000 até chegar aos anos 2010, quando o peso do passado tornou-se ainda maior. Se tudo já foi filmado, o cinema contemporâneo se apropria do antigo, do clássico e do moderno, na tentativa de reviver as sensações, os efeitos e as glórias do passado. A partir dos anos 2010, essa apropriação tornou-se mais forte e presente do que nas décadas anteriores, à medida que refilmagens, reinicializações e adaptações passaram a integrar o foco principal da cultura cinematográfica. O cinema se tornou seu próprio pano de fundo.

Essa é uma forma de encarar a aposta dos realizadores nas imagens do passado para construir os filmes do presente. Além da segurança comercial destas referências e inspirações, afinal apostar na nostalgia é inegavelmente lucrativo, há também a necessidade de pisar no terreno seguro das ideias que deram certo. Star Wars: O Despertar da Força (2015), Jurassic World (2015) e o novo Caça-Fantasmas (2016) são alguns exemplos de como ideias clássicas bem sucedidas foram reformuladas para se tornarem histórias bem sucedidas de uma nova geração sem perder o apelo nostálgico. Podemos considerar este momento como um novo passo do atual estado do cinema. Após um período de muitas refilmagens de clássicos, agora chegamos a um período de reinícios, em que os filmes do passado são repensados em busca de um recomeço, não apenas refeitos sem o acréscimo de qualquer novidade.

O que vivemos atualmente é uma época em que o cinema se expressa através da necessidade de buscar referências no passado, buscando formas, estéticas e estilos de várias épocas anteriores, tentando lidar com o peso e a tradição do que veio antes. A percepção de que tudo já foi feito e as imposições midiáticas de um mercado direcionado (e cada vez mais ávido) pelo espetáculo fortalecem a consciência de que nada mais pode ser feito de diferente daquilo que foi feito anteriormente. Mas isso não significa que não podemos entender estas revisitações ao passado. Faz parte do sentimento de saudade.

A nostalgia vem através de imagens e convenções, disseminadas e enraizadas na cultura com o passar do tempo. Ela estimula (e é estimulada por) um prazer quase infantil. Muitas vezes porque essa sensação nasce ao relembrarmos das coisas que gostávamos na nossa infância. É como o Cinema Paradiso de Giuseppe Tornatore, em que o bem sucedido diretor Salvatore Di Vita (Totò) relembra sua infância ajudando o projecionista Alfredo (Philippe Noiret) no cinema em uma cidade pequena da Sicília. Foi nesse cinema, ao lado de Alfredo, que Totò aprendeu a amar o cinema. Quando retorna à cidade, trinta anos depois, ele encontra o cinema abandonado. A carreira bem sucedida de Salvatore tornou-se possível graças a uma indústria cinematográfica que permanece viva, enquanto o cinema em si luta para não cair no esquecimento. Cinema Paradiso olha para o passado para não esquecer o que nos trouxe ao presente e o que inspirou o amor aos filmes, e mostra que o cinema está sempre passando por mudanças que o levam para novos caminhos. O coração do filmes está no sentimento saudosista, ainda que possua um coração pragmático por baixo de todo o apelo emocional.

O cinema contemporâneo está tentando lidar com suas próprias necessidades criativas e tentando entender a si mesmo e a sua própria história. Nós estamos em uma fase de mudanças, especialmente mudança cultural, e as coisas mudam muito rápido hoje em dia. O cinema tenta lidar com essas mudanças. A forma mais segura que encontrou foi olhar para o passado. Mas isso significa que a criatividade acabou? Pouco provável. A criatividade persiste e não vai morrer tão facilmente. Mesmo que para isso tenha que percorrer caminhos independentes dos tradicionais. Mesmo que para isso a linguagem do cinema tenha que assumir novas maneiras. Mas esse é um assunto para outra ocasião.

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