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Invocação do Mal 2

História se baseia em outro caso nos arquivos dos renomados investigadores do oculto Ed e Lorraine Warren. Patrick Wilson e Vera Farmiga reprisam os papéis do primeiro filme durante uma investigação que os leva ao norte de Londres para ajudar uma mãe solteira tentando criar quatro filhos em uma casa atormentada por um espírito maligno.

(The Conjuring 2) – Terror. Estados Unidos, 2016.

De James Wan. Com Patrick Wilson, Vera Farmiga, Frances O’Connor e Franka Potente. 2h13min. Distribuidora: Warner Bros. Classificação: 14 anos.

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Invocação do Mal 2


Resenha – Invocação do Mal 2

Invocação do Mal 2 continua a explorar as histórias de investigação paranormal de Ed e Lorraine Warren (interpretados por Patrick Wilson e Vera Farmiga), abordando inicialmente um caso muito famoso da dupla: o Horror em Amityville. Mas o diretor James Wan sabiamente não mergulha demais no caso, afinal, é uma história de grande repercussão que já foi adaptada para livros e inúmeros filmes e remakes no cinema. Muita coisa sobre o caso já foi contada, e focar nele não traria algo realmente novo. O caso de Amityville, na verdade, serve como ponto de partida para explorar um caso que aconteceu em Londres e também teve bastante repercussão, mas não é tão famoso ou conhecido, o caso do Poltergeist de Enfield. O filme, naturalmente, pega inspirações no caso real, acrescentando os elementos de ficção em favor de contar uma boa história e colocando os Warren no centro da ação (no caso original eles não tiveram tanta participação).

A história de Enfield é diferente do caso Amityville em muitos aspectos, pelo fato de que era uma família assombrada em que uma única mãe tentava cuidar dos quatro filhos após ser abandonada pelo marido, quando uma das crianças começa a sentir os efeitos de uma força sobrenatural. Existem algumas semelhanças entre os dois casos, o que ajudou Wan a aproximar a história da ambientação na Inglaterra dos anos 1970, incluindo a questão de as atividades paranormais da garota assombrada serem ou não forjadas. Cabe mencionar que a ambientação é realmente muito boa desde os primeiros momentos; Wan faz questão de mostrar a realidade de uma época de muitas mudanças em busca de progresso (político, tecnológico e social) e também uma época de individualismo crescente. Ao mesmo tempo, era um mundo em que a televisão começava a revelar todos os segredos e o ceticismo crescia à medida que a TV se tornava um instrumento de força para atrair a atenção das pessoas para alguma coisa ou alguém; muitos queriam usá-la para conquistar dinheiro e fama.

Wan entra na história de Enfield trabalhando as similaridades com Amityville e a ideia de que ambos os casos foram extremamente divulgados. Ambos tinham seu quinhão de céticos e muitas pessoas acreditavam que os acontecimentos eram falsos. O filme dedica um tempo a falar sobre isso e sobre as suspeitas que recaíam sobre o trabalho dos Warren. Invocação do Mal 2 usa sua primeira metade para a construção desse cenário, sem pressa, nos inserindo pouco a pouco na realidade do caso, até o momento em que os Warren são inevitavelmente levados a investigá-lo.

O caso se passa cerca de seis anos após os eventos do primeiro Invocação do Mal, quando Ed e Lorraine ganharam notoriedade no mundo por causa do caso Amityville. Lorraine está sentindo o peso do cansaço pelo trabalho, pela exposição e pelas visões horríveis de um demônio na forma de freira. Ela gostaria de parar, mas a repercussão do caso de Enfield chama a atenção da Igreja, que pede a ajuda deles para averiguar se os fatos são verdadeiros ou falsos.

Algo interessante sobre Invocação do Mal 2 é que o filme tenta não ser uma réplica do original. Muitas vezes sequências tentam emular aspectos do primeiro para repetir o sucesso, e muitas vezes, essa tentativa falha. Invocação do Mal 2 é ousado por criar sua própria identidade e forma de contar a história, algo que o torna diferente do primeiro. Existem coisas semelhantes, mas há uma sensação constante de que a história é tratada de novas maneiras.

O filme ainda transita por muitos dos padrões do subgênero de terror sobrenatural, mas suas novas ideias narrativas trazem tanto o medo quanto a surpresa. Os sustos são poucos, porque esse não é um filme com objetivo de dar sustos fáceis. Ele quer contar sua história e desenvolver um pouco mais os personagens que conhecemos anteriormente. Invocação do Mal 2 torna as coisas mais interessantes ao dar voz aos céticos que Ed e Lorraine Warren enfrentaram ao longo de toda a carreira. A história também ganha um pouco mais de densidade ao trabalhar o drama da menina assombrada e o fato dos próprios Warren demonstrarem dúvidas em relação à veracidade do caso.

A abordagem inicialmente separada das tramas cria uma atmosfera forte para a construção narrativa e de personagem. O filme mantém o casal Warren e os eventos que ocorrem na casa dos Hodgson separados um do outro durante um longo período, quase a primeira metade inteira; algo diferente do que acontecia em Invocação do Mal, que mostrava o casal lidando com a família Perron logo no primeiro ato. Embora conduzidas em paralelo, as tramas são consistentes ao intercalar a vida cotidiana dos Warren e o aumento das atividades sobrenaturais em Enfield. A escalada de eventos faz com que o interesse dos Warren pelos acontecimentos do outro lado do oceano seja captado de forma natural. Nada parece forçado ou torna-se cansativo. Mérito do roteiro bem desenvolvido por Chad e Carey Hayes, e pela direção segura de James Wan. Algo que favorece o filme, sem dúvida, é o fato de ter a mesma equipe do primeiro em várias instâncias da produção.

Patrick Wilson e Vera Farmiga possuem uma química impecável. A história se dedica mais a mostrar a dinâmica dos dois como um casal, e como o carisma descontraído de Ed balanceia o peso emocional de Lorraine por suas capacidades sensitivas. Ed proporciona alguns bons momentos de alívio à tensão da trama, algo que pode ser bem-vindo ao terror quando bem empregado. Densidade sombria é importante, mas nem sempre precisa ser a única abordagem. James Wan escolhe uma abordagem diferente da que utilizou no primeiro filme, que possuía uma atmosfera mais pesada e pessimista. Os Warren são um casal que se ama, que se completa e que se dá bem apesar das dificuldades que enfrentam, e é bom saber que eles não se deixam afetar pelas forças demoníacas ao redor. Invocação do Mal 2 possui algo de estranhamente otimista.

Talvez por isso também possua algo sutil de Alice no País das Maravilhas no que diz respeito ao aspecto meio absurdo de sonho (ou pesadelo) infantil com que representa algumas das manifestações demoníacas. O filme usa um pouco dessa lógica para acrescentar um leve teor de conto infantil inglês à história, como aqueles que eram populares na Inglaterra do século XIX. Esta forma exalta um pouco mais a diferença de cenários entre o primeiro e o segundo filme, embora os casos possuam similaridades assim como o caso de Enfield e Amityville; são contrapontos interessantes de se ver no cenário, e que reforçam as diferenças entre os filmes que falei anteriormente. Foi algo que me fez gostar mais da experiência.

Na verdade, esse aspecto de experimentação também é bom para o filme. James Wan estabelece-se ainda mais como um dos cineastas mais respeitáveis do terror moderno simplesmente pela maneira como ele escolhe trabalhar suas ideias e nos arrebata com elas. Existem sustos fáceis e momentos de tensão pré-susto comuns ao subgênero, de modo a nos manter estimulados, mas o que existe de melhor é o talento de Wan para o material mais sutil, lento e perturbador. Em alguns momentos, o filme nos obriga a prestar atenção em cada detalhe do que estamos vendo, para percebemos segredos escondidos nos cantos escuros da tela ou palavras que podem ter significado para mistérios que surgirão em outro momento da história.

O trabalho com o diretor de fotografia Don Burgess é marcante pela câmera raramente ficar parada e pelo sentimento de paranoia que ela provoca em cada movimento. Wan e Burgess constroem as cenas de modo que nem sempre somos capazes de dizer o que vai acontecer em seguida. Graças a isso, é mais difícil prever um momento de susto. Em vários momentos nos pegamos preocupados com o que está escondido nos cantos ou além do alcance da câmera.

Invocação do Mal 2 não é tão forte quanto o primeiro, mas ainda consegue crescer dentro de suas próprias inventividades. O retorno de James Wan ao horror demonstra sua importância para o gênero e como é bom ter alguém como ele a frente de histórias como essa. Mais do que isso. O talento e a química maravilhosa entre Patrick Wilson e Vera Farmiga revelam o potencial que Invocação do Mal tem para se transformar em uma franquia de filmes. Os Warren contam que, ao longo da carreira, investigaram mais de 10.000 casos. Logo, existe muito material que poderia ser usado como base para histórias com o casal. Alguns dos casos mais famosos investigados por eles já foram adaptados para o cinema no passado, como o próprio caso de Amityville, mas a ideia de seguir os Ed e Lorraine, interpretados por esses dois maravilhosos atores, durante todo o processo de investigação do oculto, é definitivamente muito mais atraente do que a simples exposição do caso. Há algo de Lovecraft nisso que me fascina e me faz querer vê-los mais vezes no cinema.

Invocação do Mal 2

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Invocação do Mal 2

Invocação do Mal 2 Alan Barcelos
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  • Diego Amaral

    *Invocado da Fortaleza Vermelha*

    Achei o texto ótimo! -confesso que pulei algumas linhas, MAS SÓ PQ VOU ASSISTIR O FILME HOJE E NÃO QUIS CORRER O RISCO DE SPOILER asashuasashu-

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