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Calvário

Drama de humor negro que acompanha um padre atormentado pelas pessoas de sua comunidade. Padre James Lavelle (Brendan Gleeson) é um bom homem com a intenção de tornar o mundo um lugar melhor. Quando sua vida é ameaçada, durante uma confissão, ele descobre que, além de resolver seus próprios problemas, precisa lidar os pecados daqueles que estão ao seu redor.

(Calvary) – Drama. Irlanda, 2014.

De John Michael McDonagh. Com Brendan Gleeson, Chris O’Dowd, Kelly Reilly, Aidan Gillen, Isaach de Bankole, Dylan Moran e Orla O’Rourke. 1h42min. Distribuidora: Fox Film. Classificação: 16 anos.

Calvário


CALVÁRIO – RESENHA

Calvário é a maravilhosa jornada do personagem de Brendan Gleeson tentando ser um bom homem em uma cidade repleta de chacais. Isso lhe concede uma sensação levemente icônica de faroeste, embora esta história se passe no oeste da Irlanda, em uma paisagem que inspirou poetas e pintores mais do que os moralistas. A paisagem é tão dramática quanto o filme é profundo. O diretor e roteirista John Michael McDonagh, seguindo o sucesso fenomenal de seu filme anterior, O Guarda, nos mostra mares agitados cujas ondas estouram em grandes rochas, cercadas por campos esverdeados, trazendo uma sensação de atemporalidade. É como se ele quisesse diminuir a importância dos personagens mesquinhos perante a figura serena do Padre James, barbudo e levado pelo vento enquanto caminha por essas paisagens, sempre com sua tradicional batina, esperando até que chegue seu verdadeiro destino.

A paisagem ajuda a enaltecer o propósito sombrio por trás do enredo. Este não é um filme pequeno: é um dos filmes mais ambiciosos, preocupantes e comoventes que qualquer um de nós poderia sonhar em assistir. Gleeson interpretou um policial absurdamente cínico em O Guarda, dando vazão ao fantástico humor negro de John Michael McDonagh, não muito diferente de seu irmão mais novo, Martin McDonagh, que é responsável pelo filme Na Mira do Chefe. Martin tornou-se conhecido de imediato com seus filmes, enquanto John Michael levou mais tempo, embora os resultados sejam igualmente impressionantes. Calvário é uma obra sem medo de mostrar a que veio; lírico, pensativo e desafiador.

O Guarda explorava grandes questões sobre ética e corrupção sob seu sarcasmo. Mas em Calvário, McDonagh respira fundo e passeia por grandes questões: morte, religião, suicídio, assassinato, remorso, vingança, redenção. Ele gostaria de saber que tipo de Deus permitiria que a Igreja Católica na Irlanda se comportasse de maneira leviana em relação aos casos de abuso sexual cometidos por padres. E a que nos apegaríamos se puséssemos de lado a crença em uma instituição tão presente em nosso cotidiano.

Calvário começa com uma cena extraordinária. Padre James está ouvindo uma confissão. Um homem cuja voz ele reconhece fala-lhe sobre o abuso sexual que sofreu nas mãos de um sacerdote durante cinco anos, desde os sete anos de idade. O homem conta que esse padre está morto agora, e que não faria sentido matá-lo se ele ainda estivesse vivo, porque ele não era um padre importante nem nunca teve qualquer representatividade no mundo. Diferente do Padre James. Por isso o homem diz que vai matá-lo, porque ele é um padre inocente. Com isso o assassinato será realmente notado. O homem, então, dá ao padre uma semana para colocar seus negócios em ordem.

O talento de Gleeson como ator não é uma surpresa; sua forma de conduzir a cena, em que a câmera nunca deixa seu rosto, é digna de um grande ator. Ele define o personagem do padre simplesmente com alguns pequenos gestos: seco, dedicado e engraçado, profundamente compassivo, o tipo de espírito nobre que cada comunidade gostaria de ter em um padre. Mas não essa comunidade; nesse lugar, ele é desprezado e ostracizado, exceto por um ou dois nativos que lhe devotam real respeito.

Em sua maioria, os membros da comunidade zombam dele, face a face e sem qualquer moderação. Eles o ameaçam com comentários sexuais e depreciativos. Frank Harte (Aidan Gillen, conhecido por ser o Littlefinger em Game of Thrones), o médico local, faz piadas de mal gosto com o padre enquanto ele oferece a extrema-unção a um homem depois de um acidente que vitimou cinco pessoas. O açougueiro, Jack Brennan (Chris O’Dowd) nega que espanca sua esposa, Veronica (Orla O’Rourke), porque na verdade é Simon (Isaach de Bankole), o mecânico africano, que a espanca e tem um caso com ela. Michael Fitzgerald (Dylan Moran) é um banqueiro que caiu em desgraça e que não possui filtro moral; ele resume o profundo cinismo do filme sobre a história irlandesa recente. O único consolo do padre — e ao mesmo tempo, outra fonte de angústia — é Fiona (Kelly Reilly), sua filha de quando ainda não era um padre. Ela retorna de Londres, depois de uma tentativa de suicídio e tenta reconstruir a vida e a relação com seu pai.

Todo esse cinismo e dor tomariam facilmente conta de todo o sentimento passado pelo filme, se não fosse a força do padre de Gleeson, sempre de pé, tranquilo e altivo contra tudo e todos que se colocam contra ele. Padre James nunca defende a igreja — como poderia? —, mas conhece o poder de sua própria crença, e qual é sua verdadeira vocação. É difícil interpretar um santo, então Gleeson interpreta apenas um homem — um ex-bêbado, sábio, compassivo, sentimental, desbocado; falível e com medo de que aquela semana seja sua última. — Calvário é um filme extremamente comovente, e corajoso pela forma como aborda as questões espirituais de forma clara e objetiva.

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