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Deuses de Dois Mundos

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Resenha

(Deuses de Dois Mundos) – Fantasia. Brasil, 2014. De PJ Pereira. Com os personagens Newton “New” Fernandes, Exu/Laroiê, Orunmilá, Oxum, Ogum, Oxóssi, Iansã, Xangô, Obá, Oxalá, Nanã, Iemanjá, Omolu, Ossain, Euá, Ifá, Pilar da Anunciação, Maria Eduarda, Yara Bebiano, Fred Siqueira, Eliel Vasconcellos, Antônio Zanato e Carlos Delgado. Editora De Boa Prosa. 264 páginas (O Livro do Silêncio), 384 páginas (O Livro da Traição) e 344 páginas (O Livro da Morte).

Em entrevista recente, um conhecido deputado e líder religioso, o qual não direi o nome, fala sobre a polêmica envolvendo uma postagem sua em uma rede social onde dizia que tudo de mau no mundo vinha da África. Ao ser confrontado com fatos históricos sobre o continente africano, este famoso parlamentar responde o seguinte: “Eu penso que existe algo estranho sobre aquele continente. Eu não tenho uma resposta concreta. Tudo o que eu tenho é abstração intelectual.” Pensamentos como este são a melhor representação do grau de preconceito que a cultura africana sofre há vários anos no Brasil e foi justamente para combater isto que o publicitário PJ Pereira decidiu mergulhar de cabeça nos estudos sobre a mitologia iorubá e escrever a trilogia Deuses de Dois Mundos.

A trilogia Deuses de Dois Mundos se divide em duas tramas paralelas: conta a trajetória do ambicioso Newton Fernandes, ou simplesmente “New”, em sua busca pela ascensão profissional a qualquer custo no meio jornalístico através de uma troca de e-mails com o misterioso Laroiê que se prontificou em ajudá-lo. E também narra a missão de Orunmilá, o maior adivinho de todos os tempos, em reunir um grupo de guerreiros para resgatar os 16 odus, príncipes do destino, das garras das feiticeiras Iá Mi Oxorongá. Ao longo dos três livros e com uma narrativa dinâmica que consegue cativar e prender o leitor na história, PJ Pereira não só leva a mitologia dos orixás ao grande público como também realiza um grande exercício contra o preconceito e a intolerância.

Os dois primeiros livros da trilogia, o Livro do Silêncio e o Livro da Traição, foram pensados inicialmente para ser um só. Entretanto, o autor achou melhor dividir a história em duas partes e, ao terminar de escrever o segundo livro, ele sentiu a necessidade de escrever o terceiro, o Livro da Morte, cuja história se passa 10 anos após os eventos ocorridos em o Livro do Silêncio e o Livro da Traição. Aliás, um detalhe interessante sobre o Livro da Morte é que sua história é narrada de trás para frente, ou seja, o livro começa pelo final da história e, com o avanço da narrativa, o leitor vai descobrindo os acontecimentos e motivações que levaram àquilo. E, sim, a narrativa desta terceira parte ser desta forma é perfeitamente justificada na história.

A trama começa em junho de 2001, quando o jornalista Newton Fernandes envia um e-mail pedindo ajuda para sair da confusão em que tinha se metido por conta da sua falta de escrúpulos para alcançar o topo no meio jornalístico. Newton, ou melhor New, tem uma resposta de um indivíduo misterioso chamado Laroiê que se interessou pelo seu caso e ofereceu ajuda. A partir daí, toda a história de New é contada através dos e-mails que troca com o Laroiê (já em O Livro da Morte, New se comunica através de posts de um blog fechado em que só ele e Laroiê têm acesso, inclusive, podemos ver os comentários dos posts trocados entre ambos). Em paralelo, no mundo dos orixás chamado Orum, o grande sábio e adivinho Orunmilá percebe que seus búzios foram silenciados e, a partir daí, acaba descobrindo que os 16 príncipes do destino chamado odus foram sequestrados pelas feiticeiras Iá Mi Oxorongá. Para resgatá-los e recuperar seus poderes de prever o futuro, o babalaô Orunmilá reune um grupo de guerreiros para ajudá-lo composto pelo general Ogum, o príncipe Xangô, o caçador Oxóssi, a guerreira Iansã e a princesa Oxum, filha do adivinho. À medida que a jornada do grupo avança, somos apresentados à riquíssima mitologia dos orixás.

Obviamente, a história narrada na trilogia não é uma reprodução fiel das lendas iorubás, mas sim, uma ficção, um romance montado usando trechos destas lendas como base, somados a algumas liberdades criativas do autor, o que, de forma alguma, desmerece o trabalho de PJ Pereira. Ao contrário, a história de Deuses de Dois Mundos é resultado de 15 anos de pesquisa a fundo sobre estas lendas e justamente por isso dá uma boa noção do que é e quem são os personagens da mitologia dos orixás. Inclusive, afasta por completo a noção errônea da chamada “satanização” de Exu, personagem que acaba se tornando o principal protagonista da história em O Livro da Morte. Se for para comparar, Exu é uma entidade que está muito mais próxima de Hermes da mitologia grega ou Ganesha da mitologia hindu do que de Lúcifer ou Satã, justamente pelo fato de ele ser relacionado a mudanças, abertura de caminhos e remoção de obstáculos.

PJ Pereira não só combate o preconceito, inclusive o seu próprio, contra as religiões africanas apresentando as lendas dos orixás com uma narrativa envolvente, como também faz uma crítica social e antropológica e nos induz a questionar nossas próprias motivações. A busca de New pelo sucesso, por exemplo, é justificada pelo próprio personagem como sendo bem intencionada em seu ponto de vista, mesmo com a evidente falta de escrúpulos do protagonista para conseguir subir na vida, como apresentado nos relatos em seus e-mails para Laroiê. Será que vale mesmo passar por cima de tudo e de todos para alcançar nossos objetivos? Falando em falta de escrúpulos, não podemos deixar de citar a personagem Pilar da Anunciação, a controversa líder religiosa da seita da qual New faz parte. Pilar é a caracterização perfeita daqueles que usam o sacerdócio para explorar a fé alheia. Já no Orum, a crítica social aparece na eterna disputa entre as entidades masculinas e femininas pelo poder do destino, fazendo clara alusão à busca das mulheres por igualdade. O interessante aqui é que, enquanto O Livro do Silêncio e O Livro da Traição apresentam o ponto de vista masculino desta disputa, O Livro da Morte apresenta a visão feminina da situação, fazendo com que o leitor entenda o quanto é importante ver as coisas com os olhos do outro. Se tivesse que definir a grande lição aprendida com esta trilogia em uma palavra, ela seria respeito. Respeito com o próximo, respeito com nossos sonhos, respeito com nossas responsabilidades e, principalmente, respeito com nossa própria vida como sendo a grande chave para a prosperidade.

Deuses de Dois Mundos já está com seus direitos vendidos para adaptações para cinema, TV e histórias em quadrinhos para a produtora The Alchemist. A saga será levada aos cinemas através da produtora Disruption Entertainment, responsável por Pacific Rim e Supremacia Bourne e estima-se chegar às telonas até 2017. PJ Pereira também anunciou um livro que será um spin-off da trilogia e se chamará Pilar: A Menina Anunciada. Por enquanto, foi produzido um trailer para divulgar os livros da trilogia com narração de Gilberto Gil, trilha sonora de Otto e Pupillo e participação de Andreas Kisser.

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