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Tentando fazer a coisa certa

Tentando Fazer a Coisa Certa

“We don’t need no education”. Nunca fui fã da Pink Floyd, mas foi impossível não me lembrar de “The Wall” quando estive no IEPIC – Instituto de Educação Professor Ismael Coutinho, uma das escolas ocupadas pelos alunos no Estado do Rio de Janeiro, no município de Niterói. Movido pelo convite de um colega, fui até lá conhecer o movimento e trocar uma ideia com os alunos, saber quem são, o que pensam e o que desejam para seu futuro.

Como presente, além de doações, levei um encadernado de V de Vingança, clássico dos quadrinhos de Alan Moore e David Lloyd que fala sobre anarquia, o que já causou uma primeira boa impressão e comentários de “tenho que ler isso”. Logo perguntei da biblioteca, sendo informado que a mesma está fechada em um dos blocos aos quais eles não têm acesso. Mas de certa forma isto é compensado pela doação de livros, que vão desde os clássicos da nossa literatura até uma boa coleção do Bernard Cornwell.

Os filmes debatidos são documentários que falam de diversos temas, incluindo as ocupações de São Paulo, por exemplo, ou a discussão sobre a questão de gênero. Há um movimento chamado “Escola sem Partido” que, sob a justificativa de querer proibir a “doutrinação política e ideológica” dos alunos, pretende vedar a educação sexual nas escolas, o que inclui políticas inclusivas em relação ao grupo LGBT. Só que aparentemente não consultaram os próprios alunos sobre isso, principalmente os que não se encaixam no padrão cis hétero tido como o único “normal” por esta parte mais conservadora da sociedade.

Tentando Fazer a Coisa Certa

Durante a visita, fui conhecendo a escola e percebi que esta era tratada com muito carinho pelos alunos. Eles limparam, capinaram e começaram a plantação de uma horta. Além disso, estavam nos preparativos para pintá-la. Chamou atenção os diversos espaços que estavam fechados, como laboratório, sala de computadores e impressora, sala de artes, etc. Todo um aparato, pago com dinheiro público, que simplesmente estava trancado e pegando mofo em algumas salas. Isso para não falar de coisas como banheiros sem ralo e uma gambiarra que liga a caixa de gordura da cozinha direto à saída de esgoto. E há ainda uma árvore centenária cujas raízes estão avançando para dentro da cozinha, ameaçando derrubá-la, entre outras coisas.

As reivindicações dos alunos, além dessas melhorias, passam por coisas simples, como um riocard no valor que realmente os atenda, ou a possibilidade de utilizar a fotocopiadora por um preço justo, e avança indo até a requerer participação direta em todas as decisões que afetem sua vida dentro da escola.

Cabe lembrar que a ocupação se dá num contexto de greve dos professores estaduais, ou seja, não está havendo aulas. Também não vi nenhum ato de vandalismo praticado no local; ao contrário, percebi a preocupação em cuidar bem da escola onde estudam.

A impressão que fiquei do movimento foi a de uma espécie de recriação, dentro de um microcosmo, da contracultura, onde a própria juventude pretende se afirmar como sujeito político e de direitos. A intenção não é apenas exigir uma educação formal, mas que seja inclusiva e atenda aos interesses dos próprios alunos, debatendo as questões sociais que os atinjam mais diretamente. Um movimento de baixo para cima, sem imposições, onde todos e todas tenham a chance de ouvir e serem ouvidos.

Assim, ao contrário do que dizia o Pink Floyd, é necessária sim uma educação, mas que seja inclusiva, participativa, e que se preocupe não só com a formação de mão-de-obra para o mercado de trabalho, mas que forme cidadãos aptos a construir e fortalecer a nossa democracia. Nem que para isso, no melhor estilo faça você mesmo dos punks, os próprios alunos tenham que se organizar e se pautar sobre o que querem ser ensinados.

Um filme interessante para o debate seria Faça a Coisa Certa, de Spike Lee. Se vai dizer algo à realidade dos alunos, eu não sei, mas que ao menos seu título sirva de inspiração não só para eles, como para todos nós.

Agradecimentos a Bernardo Parreiras Salgueirinho.

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