Filmes

O que o cinema diz sobre você

Cinema e Crítico

“De certa forma o trabalho de um crítico é fácil. Nos arriscamos pouco e temos prazer em avaliar com superioridade os que nos submetem seu trabalho e reputação. Ganhamos fama com críticas negativas que são divertidas de escrever e ler. Mas a dura realidade que nós, críticos, devemos encarar é que, no quadro geral, a mais simples porcaria talvez seja mais significativa do que a nossa crítica. Mas há vezes em que um crítico arrisca de fato alguma coisa, como quando descobre e defende uma novidade. O mundo costuma ser hostil aos novos talentos, às novas criações. O novo precisa ser incentivado.” — Assim disse Anton Ego em Ratatouille após provar um prato preparado por um rato cozinheiro que lhe fez lembrar de algo gostoso da infância depois de passar anos isolado em uma vida de críticas amarguradas. Este é o momento de Ego em que o crítico encontra o fã e o fã encontra o crítico. Facilmente podemos estabelecer relações com as vozes do mundo de hoje.

O crítico vem de uma percepção formada pela experiência da vida. O fã tem algo da pureza infantil que lutamos todos os dias para não esquecer. Mas às vezes esquecemos. Algumas pessoas, com mais frequência do que outras.

Nosso gosto musical, por exemplo, diz muito sobre a gente, como mostra esta matéria da Time. Dentre outras coisas, escolhemos nossas músicas preferidas porque elas estão associadas às nossas experiências emocionais. Estas experiências nos marcam de tal forma que jamais nos esquecemos da música que tocava no momento em que fomos marcados. Eu gosto de rock’n’roll porque foi algo que ajudou a construir minha identidade e minha forma de encarar a vida. Muitos dos melhores momentos que tive com amigos meus, saindo, bebendo, festejando, jogando RPG, foram embalados pelo rock. Black Sabbath, Guns N’Roses, Pearl Jam. “Children of the Grave”, “You Could Be Mine”, “State of Love and Trust”. Quer mais um exemplo desse gosto pessoal que vem da paixão? Adoro animes, e amo músicas japonesas. Em geral, j-rock. Escuto direto. Aprendi a gostar de rock japonês escutando músicas de animes, e procurando outros trabalhos das bandas que não estavam em animes. Sou apaixonado pela banda UVERworld. Uma das músicas japonesas que mais escuto é “D-TecnoLife”. Isso porque é a segunda abertura de Bleach, um dos meus animes preferidos e que me marcou muito quando assisti pela primeira vez, especialmente a temporada em que toca esta abertura. Pronto. PARA SEMPRE, “D-TecnoLife” se tornou uma das minhas músicas preferidas.

Essa questão do preferido é que volta e meia entra em conflito com o crítico. Comecei com a música, mas vou passar para o cinema. Assim como com as músicas, os filmes que consideramos nossos preferidos não são necessariamente os melhores.

A relação entre o que gostamos e o que analisamos, contudo, precisa ser encarada com certo equilíbrio, algo que acontece pouco hoje em dia. Cada filme é produzido com base em um conjunto único de circunstâncias e perspectivas. O filme é a materialização de sonhos, como acreditava Georges Méliès, precursor do cinema artístico. A subjetividade da arte é que cria nossas múltiplas percepções sobre ela. Cada filme cria sua própria percepção. Possui seus próprios conceitos, que se chocam e se entrelaçam com os conceitos de quem assiste. Filmes independentes possuem características que, segundo muitos consideram, os diferenciam dos filmes comerciais. Eu particularmente não vejo tanta diferença assim. Mas alguns esperam se aprofundar mais em questionamentos sobre a condição humana quando assistem a um filme mais artístico, como Sob a Pele ou Corrente do Mal, por exemplo. Alguém que assista a Deadpool, certamente, tem expectativas bem diferentes.

Agora, se você olhar de perto, vai ver que cada filme tem características que poderiam colocá-los em ambas as ditas categorias. Sob a Pele possui uma atriz amplamente badalada comercialmente, Scarlett Johansson. Corrente do Mal tem um toque de terror, gênero que não é tão comercial, nem é tão independente, e geralmente transita por ambos os caminhos e se mistura com eles. Deadpool poderia facilmente ser um filme independente. O que ele faz e a ousadia criativa que impõe em certos “padrões” que normalmente o estúdio não aprovaria é o tipo de coisa que um filme independente faria. Mas Deadpool é um blockbuster mega comercial. O que eu quero dizer é que estas várias faces da arte cinematográfica frequentemente andam juntas. Fazem parte de algo maior e único. TUDO É CINEMA. Olhá-las e julgá-las umas contra as outras não é o ideal. Ainda que façamos isso o tempo todo.

Por ser subjetiva, a arte só pode ser experimentada dessa forma. Quem eu sou, do que eu gosto, como eu respondo aos estímulos, são partes exclusivas da minha identidade. Não posso assistir a um filme pelos olhos de outra pessoa. Cada parte do que sou enquanto fã de cinema ou de música faz parte de uma bagagem que construí através da experiência. Eu cresci lendo histórias em quadrinhos de super-heróis e isso influencia na forma como encaro os filmes de super-heróis. Em certos aspectos, influencia até a forma como encaro a vida. Afinal, o cinema também estimula novas percepções e empatia. Posso não ser capaz de assistir a um filme pelos olhos de outra pessoa, mas posso tentar entender como ela reage a determinados filmes, mensagens e estímulos. Às vezes chego perto, às vezes não. Isso é o que cria opiniões semelhantes e divergentes. Isso vale para o crítico. Alguém que cresceu vendo filmes argentinos vai olhar para um filme argentino com uma percepção diferente da minha. Essa vivência é cumulativa. Cada ano que passa nos faz adquirir um pouco mais dela. Alguns se tornam mais rígidos, outros abrem mais o coração. Intolerância ou tolerância, geralmente em excesso. Alguns são analíticos demais, outros são emocionais demais.

A melhor ideia talvez seja dosar a análise e a emoção, e absorver as experiências tentando se apoiar em ambas. Especialmente quando se trata de cinema. Quando escrevi sobre Star Wars: O Despertar da Força, alguém me disse que o filme estava sendo avaliado com muita emoção, e isso cega a visão crítica. Algo de que eu discordei e discordo completamente. Muita frieza analítica também cega a visão, tanto quanto o excesso de emoção. Revisão se faz com equilíbrio entre o frio e o sentimento, porque cinema é técnica e emoção. Não apenas um, não apenas outro. Os dois. E tudo que há entre isso.

Assumindo que a percepção sobre um filme surge primordialmente de preferências e perspectivas individuais, minha perspectiva assume que os filmes de que gosto são aqueles que conseguem me marcar profundamente a ponto de eu me lembrar do filme através de experiências relacionadas a ele, ou da música que toca nele. E assim fico apaixonado pela música porque gostei do filme, e vice-versa. O filme preferido conversa com você, te toca em um nível pessoal e pontual. A maioria das pessoas pode não gostar dele, e muita gente pode estar inclinada a acreditar que ele é um desperdício de tempo. Mas para mim, funciona. Na minha adolescência, por exemplo, eu era amplamente sacaneado pelos meus amigos porque eu adorava Anjos da Noite. Gostava tanto que acompanhei empolgado toda a franquia até o Anjos da Noite 4. Estou disposto inclusive a continuar assistindo enquanto tiverem novas continuações — Anjos da Noite 5 está a caminho! — Até hoje EU ADORO ANJOS DA NOITE!!! O primeiro filme principalmente, porque desperta em mim as lembranças e o prazer que sempre tive de jogar o RPG do Mundo das Trevas, em especial Vampiro: A Máscara e Lobisomem: O Apocalipse. Minha experiência de vida com estes jogos, seus cenários e seus personagens, me fez gostar da dinâmica vampiros contra lobisomens, da forma como a sociedade dos vampiros é construída, das cenas de ação. Pode soar ridículo para muitos, mas tem momentos incríveis e uma protagonista espetacular. Foi o bastante para me divertir na época e ainda me diverte hoje em dia. O filme tem problemas, falhas de história, etc. etc., e mesmo assim, gosto muito dele. Há quem chame de “guilty pleasure”, mas não muda o fato de que é um dos meus filmes preferidos.

O filme que analisamos estimula um olhar diferente. Mesmo que você não queira, você é impelido quase que instintivamente a olhar para um filme deste tipo de maneira diferente, um pouco mais apurada. Quando você enxerga as qualidades dele, você encontra um filme considerado melhor. Estes são filmes que possuem a combinação perfeita entre técnica e emoção. Direção, roteiro, condução narrativa, música, figurino, performances, mensagem, produção e tudo mais relacionado à realização convergem para um resultado plenamente satisfatório. Filmes que possuem grandes representações de época ou da história. Filmes com atores no auge de suas atuações. Quando vemos um filme e o consideramos o melhor, facilmente percebemos o que estamos vendo e o quão superior ele é. E mesmo assim, haverá quem discorde. Mas não se pode negar que um filme considerado melhor é um exemplo de pleno domínio sobre a arte cinematográfica.

Colocar o que gostamos e o que analisamos numa balança é sempre difícil. Mas uma coisa não desmerece a outra. Não importa se você é crítico ou é fã, ou é as duas coisas. Você pode gostar de um filme e analisá-lo. Batman: O Cavaleiro das Trevas, por exemplo, é um marco na história do cinema, com roteiro excelente e performances emocionantes, e também me marcou profundamente, pela mistura perfeita de história de super-herói e filme de crime e por me lembrar do simples prazer infantil de gostar do Batman. Ele me faz querer analisar e me incentiva à emoção. Tudo junto. De tal forma que eu considero um dos melhores filmes já feitos e também um dos meus filmes preferidos. Já assisti uma dúzia de vezes, e ainda vou assistir muitas outras vezes. Não me canso, não sinto o peso que o filme possui, mesmo analisando-o profundamente toda vez que eu vejo. O Regresso, por outro lado, possui muitas características similares, e desperta considerações parecidas. Só que não é um filme que eu assistiria dúzias e dúzias de vezes. Não sei nem se assistiria uma segunda vez tão cedo. Posso dizer que não é um dos meus filmes preferidos, mas certamente é um dos melhores que o cinema já produziu. Batman e O Regresso são filmes diferentes, e ambos cultivam características de filme independente e blockbuster, em maior ou menor grau, cada um a sua maneira. Os filmes que você gosta revelam um pouco de você como fã, enquanto os filmes que você analisa revelam um pouco de você como crítico. Em todos os casos são partes essenciais do que define você como pessoa. Assim como acontece com a música, nosso gosto cinematográfico diz muito sobre a gente.

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