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Mogli: O Menino Lobo

Baseada no clássico livro de Rudyard Kipling, história conta a saga de Mogli, um garoto criado por lobos que precisa fugir da floresta onde cresceu quando o temível tigre Shere Khan retorna querendo matá-lo. Khan tem raiva dos humanos por causa das cicatrizes que sofreu no passado. Sem alternativas, Mogli parte em uma viagem pela selva rumo a um vilarejo próximo onde ficaria protegido entre outros humanos, guiado pela pantera que o criou, Bagheera, e pelo amigo urso que faz no meio do caminho, Baloo.

(The Jungle Book) – Aventura. Estados Unidos, 2016.

De Jon Favreau. Com Neel Sethi e vozes de Bill Murray, Ben Kingsley, Idris Elba, Lupita Nyong’o, Scarlett Johansson, Giancarlo Esposito e Christopher Walken. 1h45min. Distribuidora: Walt Disney. Classificação: 10 anos.

Mogli: O Menino Lobo


MOGLI: O MENINO LOBO – RESENHA

Assistir à nova versão de Mogli: O Menino Lobo é como retomar algo da infância, da magia dos grandes desenhos animados da Disney. Só que agora a animação à moda antiga dá lugar para um filme em live-action misterioso e de efeitos visuais hiper-realistas. O remake é simples e preciso em suas caracterizações, e tão claro no que está tentando dizer sobre a relação entre a natureza e a humanidade, que nos faz sentir crianças novamente; uma criança aprendendo a sobreviver na selva.

Em muitos aspectos, este é um filme basicamente rodado entre o diretor Jon Favreau e o protagonista Neel Sethi, com um elenco de dublagem original invejável: Bill Murray, Ben Kingsley, Idris Elba, Lupita Nyong’o, Scarlett Johansson, Giancarlo Esposito e Christopher Walken. A versão dublada em português conta com as vozes de Marcos Palmeira, Dan Stulbach, Thiago Lacerda, Julia Lemmertz, Alinne Moraes e Tiago Abravanel. As vozes do filme servem de suporte ao jovem ator principal. Sethi é talentoso ao representar o único humano em cena, a pessoa com quem precisamos ter conexão imediata. Assim como os animais se esforçam para apoiar Mogli em suas aventuras e decisões, é essencial para a história que nós também queiramos apoiá-lo, e esse carisma é algo que o filme e o ator constroem de forma adorável. Quando conseguimos nos conectar com Mogli e os animais — quando conseguimos nos conectar com o espírito da natureza que transborda da tela — é quando o filme se torna mais divertido.

A diversão é embalada pela inclusão de músicas da versão original de 1967: “Somente o Necessário” (The Bare Necessities) e “Eu Quero Ser Como Você” (I Wanna Be Like You), piscadelas para a animação clássica, ainda que soem meio fora do lugar na história em virtude das alterações nas dinâmicas dos personagens no remake. As músicas funcionam mais como referências do que como força narrativa. A trilha sonora maior fica a cargo dos animais falantes produzidos através de computação gráfica.

Somos facilmente envolvidos nas conversas pela sabedora astuta de Bagheera, a malandragem preguiçosa de Baloo, a língua afiada de King Louie, a artimanha sibilante de Kaa, a ferocidade polida de Shere Khan. Os animais concedem alma à história.

O desenho animado de 1967 foi o último pessoalmente supervisionado por Walt Disney, e seu lançamento um ano após sua morte marcou o início de um período em busca de novos caminhos criativos para a empresa (alguns com sucesso, outros nem tanto). O Mogli original tinha uma mistura de aventura bem-humorada e canções memoráveis que marcou época; o Mogli atual reduz um pouco no humor e acrescenta na profundidade sombria, tal qual uma selva de árvores apertadas e densas, iluminada pelos ocasionais fachos de luz do sol que atravessam por entre os galhos e as folhas. Mogli: O Menino Lobo cultiva estes momentos de iluminação com sutileza e carinho, enquanto nos leva em uma jornada de crescimento e pertencimento contra os terrores do ódio e do medo.

Na música, no visual e no tom, há acenos para a versão de 1967 que satisfazem a nostalgia dos que se lembram do desenho e são apaixonados por ele; mas este é um filme diferente, com uma história mais madura. Os contos de Kipling têm influência mais forte aqui do que antes, especialmente no destaque maior dado aos lobos e sua “Lei da Selva” (versão reduzida do poema The Law of the Jungle encontrado no livro The Jungle Book).

Mogli: O Menino Lobo cria uma visão própria e politicamente evoluída do ecossistema literário de Kipling, embasada em crenças e práticas selvagens antigas, tais como predadores e presas declararem “trégua da água” durante uma seca, de modo que todos os animais possam beber das fontes sem serem perturbados. Ao mesmo tempo, constrói o mundo ao redor de Mogli sob um otimismo ambiental que era mais maniqueísta na versão de 1967. Aqui os dons da humanidade são vistos como ameaça apenas num primeiro momento; aos poucos o domínio do fogo e a capacidade humana para criar engenhos e ferramentas tornam-se a essência de um garoto que luta para resolver problemas além das capacidades de seus companheiros animais. Ele não apenas se resigna a abandonar a floresta por causa da necessidade de sobrevivência, ou pela necessidade de estar entre os de sua espécie.

Ao contrário da premissa ferrenha de que um humano deveria viver entre humanos, desenvolvida em 1967, esta versão de 2016 se alinha com um mundo que luta não apenas por sobrevivência, mas também por diversidade e aceitação das diferenças. Mogli reivindica o direito de pertencer a um mundo onde ele é diferente de todos os outros ao seu redor. Mais do que isso. Ele mostra que a humanidade não está necessariamente fadada a subjugar e destruir a natureza. Pessoas e animais podem viver em harmonia, com bondade e misericórdia, enquanto demonstram reverência pelas forças antigas que regem o planeta.

Mogli: O Menino Lobo

Mogli: O Menino Lobo

Mogli: O Menino Lobo

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  • WJunior

    Vivemos em um consumismo exacerbado e pregamos hoje que devemos viver pro essencial, minha questão é até onde baloo esta certo, a saga de mogli me parece uma critica ferrenha a filosofia de vida de baloo.