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Batman v Superman

Batman v Superman

Nível Exemplar

Dois super-heróis ou dois moleques perdidos?

(Batman v Superman: Dawn of Justice) – Ação. Estados Unidos, 2016. De Zack Snyder. Com Henry Cavill, Ben Affleck, Gal Gadot, Amy Adams, Laurence Fishburne, Diane Lane, Jesse Eisenberg, Jeremy Irons, Scoot McNairy, Jason Momoa e Holly Hunter. 2h31min. Distribuidora: Warner Bros. Classificação: 12 anos.

Antes de começar qualquer coisa, pode ser uma boa ideia definir algumas expectativas. Afinal, o inferno é a expectativa. Especialmente, no caso de Batman v Superman. Para começar o Universo DC Filmes não é o Universo Cinemático da Marvel. Os filmes da Marvel são divertidos e emocionantes, bem-humorados e em escala mais humana, focados nos dramas de pessoas comuns com super-poderes. Os filmes da DC são emocionantes e moderadamente divertidos, de humor contido e em escala mais divina, focados nos dramas de pessoas próximas a deuses. Nesse histórico cultural existe também a Trilogia do Batman de Christopher Nolan, que dificilmente vai encontrar algo em igual escala (e emoção) no universo de filmes de super-heróis. Foi um marco e vai continuar assim. Não acho que o feito (e o estilo) da trilogia será repetido por outro filme do Universo DC, ou mesmo da Marvel. A proposta agora é diferente. Algo mais próximo do clima exagerado das histórias em quadrinhos (em especial o que começou a ser feito a partir dos Novos 52) e também dos videogames (DC Universo Online, Injustice, Batman: Arkham Asylum).

Nolan implementou uma ideia a ser seguida, mas que não é (e nem será) repetida. Superman: O Homem de Aço se inspirou na atmosfera criada por Nolan e construiu sua própria ideia. Eu particularmente gosto muito de O Homem de Aço. Aprecio a abordagem do Superman como um alienígena, enxergando o mundo com o olhar de alguém que veio de outro planeta, atormentado pelo conflito emocional de querer ajudar, mas com medo de se revelar ao mundo.

O Homem de Aço foi um começo. Superman não era Superman ainda. Gosto de ele ser um alienígena tentando descobrir como ser humano, que está aprendendo o significado de certo e errado enquanto se torna um símbolo através de suas ações e responsabilidades. Clark Kent é um homem jovem, se descobrindo, fazendo o seu melhor para se tornar uma pessoa melhor em um mundo que está inclinado à rejeitá-lo, como qualquer um de nós aos 30 e poucos anos de idade. Jonathan Kent dizendo para Clark que ele não devia ajudar as pessoas, de fato, não parecia ser o modelo moral para o herói que nos acostumamos a ver nos quadrinhos; por outro lado é curioso notar que o pai do Superman não seguia seus próprios conselhos, tomando atitudes altruístas enquanto tentava fazer o melhor para manter o filho seguro. O modelo moral não estava nas palavras; estava nas atitudes. Falamos bastante sobre O Homem de Aço na época da estreia.

Batman v Superman é exatamente o que o título sugere, e o subtítulo A Origem da Justiça estabelece que esta não é apenas uma continuação de O Homem de Aço, e sim uma expansão do foco original para a construção de uma universo maior de spin-offs e franquias que culminarão na aguardada reunião dos super-heróis na Liga da Justiça. Assistir ao embate entre os dois maiores heróis da história dos quadrinhos é também olhar para o futuro, em direção aos rumos que serão tomados e aos mundos que serão construídos. A proposta é bastante clara nesse sentido: o filme funde dois mundos para dar origem a um mundo maior. O Filho de Krypton que se alimenta do sol e traz luz para a desesperança de Metrópolis. O Morcego que se alimenta da escuridão e traz medo para a criminalidade de Gotham. Os mundos possuem estilos distintos. A colisão entre estes mundos, entre seus representantes, como o dia e a noite, é uma boa abordagem.

Apesar de serem diferentes, cada um assume seu lugar no esquema maior das coisas, distantes, porém semelhantes. As cidades são mostradas como cidades gêmeas, separadas por um rio: um lado dominado por luxuosos arranha-céus, onde reside a elite que tenta definir os rumos da vida do povo sem realmente olhar para eles; outro lado consumido por uma decadência urbana noir, onde o povo precisa sobreviver à corrupção e ao crime sem que os poderosos olhem para eles. Batman v Superman, até certo ponto, busca definir os limites entre o heroísmo e o vigilantismo. Os atos heroicos de um alienígena com o poder de um deus podem ser a salvação em um âmbito maior, mas em um âmbito menor, resultam em tragédias de pessoas comuns que nada significam além de meras casualidades. Os questionamentos tocam levemente na saga dos quadrinhos Crise de Identidade (2004) enquanto parecem preparar terreno para uma grandiosa Crise Infinita (2006). Digo isso porque o papel do Superman é questionado durante todo o filme, até o terceiro ato se abrir para entendermos o verdadeiro valor do Homem de Aço para este universo.

O espetáculo é grande! Mas exagerado. E é o exagero o maior pecado de Batman v Superman. Poderia ser mais natural. Mas a solução que cria um vilão excessivo, uma introdução “aos trancos e barrancos” da melhor adição deste filme – a Mulher-Maravilha – e o tão esperado embate entre os dois grandes super-heróis, é legal, e só. A porradaria é maneira, mas não convence, porque, infelizmente, o Batman é tratado como um garoto mimado brigando por birra (não é O BATMAN! que conhecemos e aprendemos a respeitar). O que funcionava muito bem na Trilogia do Batman de Christopher Nolan é que os filmes prezavam pela narrativa. O maior problema de Batman v Superman é que ele preza demais pelo espetáculo. E acaba virando só isso: um grande espetáculo com pretensões à profundidade, mas que soa meio (e é triste para mim dizer isso) vazio. Há boas sacadas – acho esperto o alinhamento entre a importância das Marthas, ainda que isso dê mais força para o fato de que são dois filhinhos da mamãe mimados brigando por birra adolescente – e há bons momentos, mas não é o bastante para sustentar o todo de um filme muito grande, muito pesado, muito exagerado, e pouco convidativo.

Eu ainda gosto de Batman v Superman, gosto bastante! Mas isso é meu gosto pessoal, opinião simples. E opinião não é fato. O fato é: Batman v Superman não é um marco cinematográfico. E para o que significa, deveria ter sido. É um bom filme, tem momentos maneiros, e tem a COISA MAIS MARAVILHOSA COM A MÚSICA MAIS MARAVILHOSA que é a Mulher-Maravilha. Mas, no fim das contas, é apenas um momento fugaz de uma batalha épica vazia. Deveria ser muito mais do que uma simples Origem da Justiça. Deveria ser a pura encarnação da Justiça.

Batman v Superman Alan Barcelos
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