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Acenos do abismo

Acenos do Abismo

Quando as irmãs Wachowski assumiram a influência de Jean Baudrillard no roteiro de Matrix, a resposta óbvia do sociólogo francês foi renegar as discípulas – o fruto de maio de 1968 teve ojeriza a ser associado à Hollywood. Mas a palavra certa aqui seria “cooptado”. Como sempre, a indústria cultural absorve as críticas ao capitalismo e as transforma em mais um produto rentável para os acionistas. Fosse um cara mais esperto, Baudrillard teria assumido o papel de guru dos caras que fizeram nascer o século XXI.

Foi Matrix que fez o inconsciente coletivo mergulhar na incapacidade de distinguir o real e o virtual. Ande nas ruas de qualquer cidade grande e verá pessoas andando de cara para o celular, com a cabeça em uma discussão inútil numa rede social qualquer. Ou ouvindo podcasts, ou até mesmo a boa e velha música. Tudo isso para desligar a mente do fato de que seu corpo físico ainda está preso a um ambiente inóspito, poluído e desagradável.  Mas para que o esforço de mudar algo quando se está a um clique de se obter satisfação imediata? A verdade é que 99% da humanidade, no barato, escolheria a pílula azul.

Nietzsche foi um dos primeiros a descobrir “A Verdade.” Quando percebeu como era o mundo depois de engolir a pílula vermelha, saiu gritando aos quatro ventos que Deus estava morto. Terminou a vida num hospício, assinando cartas ora como Dionísio, ora como O Crucificado.

O que talvez nem seja um destino tão cruel assim, se levarmos em conta que no século XIX a maioria dos europeus estavam matando uns aos outros em guerras, ou trabalhando em minas de carvão 18 horas por dia. Mas a verdade é que Nietzsche encarou o Abismo, e este o encarou de volta. Essa é que foi a grande descoberta do filósofo alemão: O Abismo sempre olha de volta.

Mas isto foi no século XIX. Porque hoje a “Realidade” já não é mais tão real assim. Vivemos a “Era da Informação,” das “Vidas Líquidas,” etc. Estamos plugados 24 horas na rede, em meio a um fluxo de informações tão intenso que é impossível tentar absorver tudo. Os paradigmas estão mudando – o comunismo caiu como uma fruta podre, o capitalismo anda mal das pernas e eu mesmo não ando me sentido muito bem. Nossos corpos agora possuem extensões como Ipods, Iphones e qualquer outra coisa que nos insira cada vez mais no mundo virtual, ao mesmo tempo em que nos isolamos cada vez mais no chamado “mundo real”.

Ainda assim, de alguma forma, o Abismo se faz presente. O recrudescimento político, a barbárie, o aumento da desigualdade social, a poluição desenfreada, o desmatamento. É intuitivo que “Vai Dar Merda.” Mas hey, que gif de gatinhos tão fofos, tenho que compartilhar.

Tivéssemos sido mais espertos, teríamos absorvido mais do gnosticismo nos primeiros séculos depois de Cristo. Quem sabe assim os Evangelhos de Judas e Maria Madalena, entre outros, fossem também canônicos. Estaríamos mais tranquilos com relação a nossa organização política e social, bem como com nossa sexualidade. Isso diminuiria a distância do Abismo. Mas preferimos o monoteísmo controlador, baseado no patriarcado, e o resultado é a ruptura traumática que vivemos hoje, onde a desenvolvimento tecnológico é acompanhado por um recrudescimento social que afirma a sistemática negação de direitos das minorias. Além, é claro, da violência terrorista baseada no discurso religioso. Nesse sentido, todo terrorista é um niilista em conflito, que para negar as próprias dúvidas precisa cometer um ato violento hediondo, e assim ficar em paz consigo mesmo. Se, lá trás, a humanidade tivesse abraçado o Abismo, todas as dúvidas seriam resolvidas em um ritual dionisíaco e voltaríamos para casa felizes e satisfeitos.

É por isso que Matrix é um dos filmes favoritos do outro lado do Abismo. São poucos os filmes que o representa tão bem, sem medo de assumi-lo como ele é. E se nossa cultura pop consegue falar de lá, eles também querem falar de cá. Não basta olhar, tem que se comunicar. Eles querem nos mandar acenos. Acenos do Abismo.

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