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Creed

Adonis Creed (Michael B. Jordan), filho do lutador Apollo Creed, sempre viveu sob a sombra do pai que nunca conheceu tentando crescer como pugilista. Donnie, como se denomina para não chamar atenção para sua herança, muda sua história quando começa a ser treinado pelo veterano Rocky Balboa (Sylvester Stallone).

(Creed) – Drama. Estados Unidos, 2015.

De Ryan Coogler. Com Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson e Phylicia Rashad. 133min. Distribuidora: Warner Bros. Classificação: 12 anos.

Creed


CREED – RESENHA

Creed é parte do mito criado em 1976 e é a ascensão de um novo mito formado pela excepcional mistura de dois grandes campeões: Rocky Balboa e Apollo Creed. O diretor Ryan Coogler entende a mística emocional de Rocky e não se priva de usá-la ao nos apresentar um novo herói. Mesmo assim, mesmo depois de um capítulo final em 2006, Coogler nos oferece novos contornos de um herói antigo ao explorar o máximo daquela que foi a estrela principal e agora é um honorável coadjuvante. Nas mãos de um bom diretor, Sylvester Stallone sempre mostra todo seu potencial para ser um ator maravilhoso.

A história se espelha no Rocky original ao acompanhar o boxeador humilde, seu mentor e a mulher que se torna sua companheira e seu grande suporte. Nosso herói também terá que enfrentar as provações de ser constantemente desacreditado, até que um famoso boxeador lhe oferece a chance de enfrentá-lo na luta de boxe que pode mudar sua vida. Creed usa elementos familiares para nos despertar nostalgia e respeito pelo peso-pesado que a série representa ao mesmo tempo em que nos surpreende com a construção de novos rumos e personagens. Ainda que possamos prever os caminhos do enredo, em momento algum isso diminui a grandiosidade e o poder da emoção que a trajetória de Rocky e Donnie é capaz de despertar. Emoção é o que define este filme. O tempo todo somos estimulados durante o processo de construção do novo personagem e a desconstrução da lenda que envelheceu.

Em favor de seu ideal, Coogler equilibra momentos solenes de silêncio, sequências de treino e combate impactantes e doses eficientes de humor. Boa parte desse alívio cômico vem de Stallone e sua consciência de que é um homem velho vivendo em um mundo de onde partiram todos os seus entes queridos. Mesmo o que está vivo, partiu para longe.

O drama é encarado com bom humor para representar a característica mais marcante de Rocky e de toda a série: o otimismo. Se Rocky chegou aonde chegou, e Stallone chegou aonde chegou, é graças a esse otimismo para lutar e vencer. Esta visão de mundo se contrapõe aos medos de Donnie. Estimula risos e lágrimas. Quando Rocky e Donnie conversam em frente ao retrato da luta de Rocky e Apollo Creed temos um vislumbre do passado e do futuro. O passado e o futuro de um legado eterno. Coogler escreve uma carta de amor declarado à sabedoria de Balboa, e mesmo fantasmas do passado ou do presente, não podem abatê-la. Este é o Rocky Balboa que aprendemos a admirar. Este é o legado passado para Adonis Creed para que possamos admirá-lo também.

Michael B. Jordan é contundente ao transmitir a confusão que muitos jovens sentem durante a luta por construção da própria identidade. Curiosamente Adonis não veio da pobreza como Rocky; cresceu usufruindo o legado de Apollo. A riqueza e o status herdado no sangue é a maior das batalhas, uma vez que todos o olham como alguém que alcança conquistas por causa do nome, não pelo esforço. O conflito pela aceitação (dos outros e de si mesmo) culmina em cenas de arrepiar e emocionar até os corações mais duros. Frenesi e empolgação fazem parte de cada luta. Momentos como a cena da corrida na escadaria do Philadelphia Museum reinventada como uma corrida de rua cercada de motocicletas; ou a cena em que o próprio Philadelphia Museum se torna protagonista novamente do triunfo de um mito. A música, como nos filmes anteriores da série, desempenha um papel essencial e Coogler sabe inclusive a hora exata de tocar a clássica “Gonna Fly Now” para despertar frenesi e empolgação. Não há desperdício. Apenas a mais pura paixão.

Para alcançar a vitória plena, é preciso entender a derrota. A história de Rocky sempre foi sobre a perda. Creed não é diferente. Enfrentamos as dores da perda do filho bastardo de um grande pugilista que nunca foi reconhecido pelo pai; da garota cantora que está perdendo a audição aos poucos e deseja fazer o máximo de música possível antes de ficar surda de vez; do herói veterano que perdeu a vontade de lutar agora que todos que ele amou se foram e não lhe restou mais do que monólogos esporádicos entre túmulos. A perda cria raiva, resignação e serenidade; quando todas essas emoções se equilibram somos atingidos pelo verdadeiro golpe, por dentro e por fora.

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  • Vk-

    Boa review Alan!

    Só adicionando: as cenas de luta foram gravadas de forma diferente dos filmes anteriores eu acho (tenho que rever os outros para ter certeza) e ficaram incríveis, principalmente contra o lutador “Leo”, apesar da luta final ser mais emocionante pelo contexto.

    • http://www.nivelepico.com/ Alan Barcelos

      Sim, forma. O Ryan Coogler tem um estilo próprio para filmar, ele aproxima bastante a câmera dos personagens como se estivesse mostrando a luta pelo ponto de vista deles. Essa visão mais aproximada aumenta o impacto dos golpes e da luta em si. Ele também foca bastante nos rostos. Às vezes dos personagens, para mostrar o drama deles, às vezes nos espectadores, para mostrar como as pessoas que estão assistindo enxergam aqueles homens como heróis. Tem uma cena marcante que ele fecha em dois garotinhos assistindo Donnie, como se olhassem para ele e vissem um novo herói, assim como nós víamos o Rocky quando éramos crianças. Achei um cena bonita. O diretor é muito bom. :)