O Clã | Nível Épico

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O Clã

O Clã é baseado na história de uma das famílias mais conhecidas da Argentina, os Puccio, que ficou conhecida na década de 1980 por sequestrar e matar várias pessoas. O patriarca, Arquímedes (Guillermo Francella), comanda as operações ao lado do primogênito Alejandro (Peter Lanzani), enquanto a esposa, as filhas e o filho caçula fingem ignorar o que acontece à sua volta. As coisas começam a mudar quando um dos filhos, há muitos anos afastado, volta para casa.

(El Clan) – Crime. Argentina, 2015.

De Pablo Trapero. Com Guillermo Francella, Peter Lanzani, Lili Popovich, Gastón Cocchiarale e Stefanía Koessl. 110min. Distribuidora: Fox Films. Classificação: 16 anos.

O Clã


O CLÃ – RESENHA

O Clã começa sem rodeios, mostrando a que veio em uma sequência de invasão violenta a uma casa aparentemente comum em que um casal de jovens curte a noite a sós. Parece um sequestro em andamento, e logo descobrimos se tratar de um flashback de fatos que só conheceremos plenamente no decorrer do filme. Pouco a pouco aprendemos coisas que mudam nossa percepção completamente sobre o casal e os fatos que levaram àquela situação. Este começo de impacto nos leva a mergulhar mais atenciosamente no universo de uma família de classe média, os Puccio, que esconde segredos sombrios sob a fachada (ou o porão) de família respeitável.

Em um plano-sequência marcante, o patriarca, Arquímedes, conversa com a esposa enquanto ela corta o frango para o jantar. Os pedaços de frango são colocados em um prato que Arquímedes leva consigo pelos corredores da casa, subindo escadas, dando instruções aos filhos, ordenando que a filha mais nova se prepare para a janta. O prato poderia ser para ela, mas não é. A cena continua até o final do corredor, quando o patriarca entra em um quarto onde um homem está amarrado e encapuzado. O frango que Arquímedes partilha com a família, ele partilha com as vítimas de sua falsa respeitabilidade. A família apenas compartilha daquela brutalidade como se fosse algo natural da convivência coletiva, talvez por fidelidade, talvez por comodidade, talvez apenas por anestesia emocional. Escapar dos paradigmas familiares é quase impossível, como a história nos prova pouco a pouco, inclusive quando um filho desgarrado à casa (e ao crime) retorna para que o primogênito possa, quem sabe, desfrutar de uma vida (igualmente falsa) longe daquilo tudo. Porque fugir, apesar dos pesares, nunca o isentaria da responsabilidade pelos atos seus ou de seu pai ou por compactuar com a permissividade familiar.

Alejandro Puccio, o primogênito, é um promissor jogador de rugby, a representação de um herói esportista adorado e respeitado, acima de qualquer suspeita, que se vê envolvido nos verdadeiros negócios da família mesmo contra a vontade. Ou pelo menos aparentemente contra a vontade. Quando há muito dinheiro em jogo, vontades podem ser suplantadas. Se Alex não o faz inconscientemente pela família, o faz forçado pelas sutis manipulações do pai, que precisa de suporte para suas ações. Arquímedes, além do apoio familiar, possui o apoio político; ele é um ex-oficial do governo, membro do serviço de inteligência, que prossegue com atividades de sequestro comuns ao período ditatorial, acobertado por homens poderosos da ditadura que permanecem articulando dentro do governo. Ele sequestra em troca de resgate. A mais simples das razões. Dinheiro. Não apenas porque Arquímedes deseja manter um padrão de vida estável; também porque é um meio de captar recursos de volta para os cofres militares que acreditam, assim como ele, que a democracia argentina é passageira e não vai durar mais do que alguns anos.

Pablo Trapero (Elefante Branco, Sete Dias em Havana) é cru e direto em manter a sobriedade enervante da história. Ele enfia o dedo na ferida sem qualquer sinal de compaixão. É para doer. É para incomodar. O Clã é construído cinematograficamente e musicalmente para esse fim. Além do uso de músicas animadas como “Sunny Afternoon” (The Kinks) e “Into Each Life Some Rain Must Fall” (The Ink Spots) e da trilha incidental composta por um misto quase doentio de grunhidos, ruídos e sons ambientes, Trapero monta suas cenas de sequestro em planos e ritmo arrebatadores intercalados por imagens de vida corriqueira: da esposa que trabalha como professora e precisa participar de reuniões com pais e alunos, da filha que faz o dever de casa sem tirar os fones do ouvido, do jovem filho esportista fazendo sexo no banco de trás do carro com a namorada. Mesmo diante do tédio cotidiano, a exposição das imagens é intensa. TUDO em O Clã é intenso e dolorosamente imediato. Não há espaço para pensar no amanhã. Às vezes sequer há o amanhã.

Os acontecimentos e desfechos são tão surreais que em dado momento nos pegamos pensando no quão bizarro é termos a noção de que O Clã é inspirado em uma história real. Mais desolador ainda é perceber que as limitações da justiça de lá não são tão diferentes das nossas aqui. As coisas eram precárias nos anos 1980 e continuam hoje em dia. Na Argentina, no Brasil, em diversos outros países da América Latina e do mundo, especialmente os que enfrentaram duros anos de ditadura. A noção que Trapero possui desta realidade ao contar sua história o aproxima bastante de grandes diretores como Francis Ford Coppola e Martin Scorsese quando se trata de mergulhar nos horrores da criminalidade dedicada e sem remorsos. Mais do que a lealdade familiar ou à fidelidade a antigos regimes políticos, O Clã lança um olhar levemente desbotado sob a tênue linha que se esconde entre corrupção e justiça ao nos deixar saborear o gosto amargo de um frango mastigado ao som dos gritos que vêm do quarto ao lado. Enquanto ouvimos e nada fazemos a respeito, deixamos de ser inocentes. O filme nos torna cúmplices.

O Clã

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