Cinema

Aliança do Crime

Na região sul de Boston nos anos 1970, o agente especial do FBI John Connolly (Joel Edgerton) convence o mafioso irlandês Jimmy “Whitey” Bulger (Johnny Depp) a colaborar com o FBI a fim de eliminar um inimigo em comum para as duas partes: a máfia italiana. Essa inusitada aliança acaba saindo do controle, permitindo a Whitey que cometa os crimes que quiser impunemente enquanto consolida seu poder como um dos gângsteres mais cruéis e perigosos da história de Boston. O filme é baseado na história real de Bulger, descrita no livro Black Mass: The True Story of an Unholy Alliance Between the FBI and the Irish Mob, escrito por Dick Lehr e Gerard O’Neill e publicado em 2001.

(Black Mass) – Crime. Estados Unidos, 2015.

De Scott Cooper. Com Johnny Depp, Joel Edgerton, Benedict Cumberbatch, Dakota Johnson e Kevin Bacon. 122min. Distribuidora: Warner Bros. Classificação: 16 anos.

Aliança do Crime


ALIANÇA DO CRIME – RESENHA

Aliança do Crime é grande e ousado, com características de filme de gângster para contar a horrenda história real de um temido criminoso, encarnado por um Johnny Depp calvo, de olhos azuis bizarros e assustadores; um sociopata de voz profunda capaz de fazer uma ameaça medonha durante um jantar entre amigos enquanto pede uma receita e afirma que tudo não passa de brincadeira. Depp é conhecido por personagens excêntricos e performances estranhas de índole normalmente indefinida; nunca sabemos se estamos lidando com alguém justo, lunático, benigno ou maligno de verdade. Quando essa estranheza é aplicada a um homem manipulador e cruel, o resultado é de gelar a espinha e pesar os ombros.

Este é um filme denso, do tipo que saímos silenciosos da sessão, sentindo todo o peso da história e tentando assimilar o horror da crueldade humana. Afinal essa é a história de um homem que existiu, e ainda existe, uma vez que continua vivo cumprindo pena pelos crimes que cometeu.

O diretor Scott Cooper e os roteiristas Mark Mallouk e Jez Butterworth acrescentam alguns elementos interessantes ao gênero, partindo do princípio que criminosos terríveis não surgem do nada. Eles são sintomas criados pela corrupção política, pelos interesses obscuros de agências do Estado, e pelos fracos de espírito, como agentes da lei que aceitam negociar com bandidos supostamente menores para pegar os peixes maiores (e nesse caso, ainda se escondem atrás da devoção a uma suposta amizade de infância).

O filme reforça essa decadência com momentos desagradáveis e chocantes, que funcionam para mostrar até que ponto pode chegar a crueldade de Bulger, descrito como “um criminoso detestável”. O tempo todo nós somos lembrados disso. Em um momento, Whitey nos é apresentado de forma simpática pela relação que possui com a família ou quando passa ensinamentos deturpados ao filho: — “O que ninguém viu, não aconteceu.” — Em outro, conhecemos a face de um homem cínico e desprezível quando ele demonstra falsa preocupação com o estado de saúde da esposa do amigo, Marianne (Julianne Nicholson), que finge estar doente porque não aceita conviver com o bandido (e ele sabe disso). Nessa cena em especial, Whitey deixa a mesa de jantar para ir até o quarto de Marianne, toca nela com trejeitos macabros para sentir se ela está com febre, e pede que ela cuide de si mesma em uma ameaça nada sutil que, involuntariamente, remete a lembranças do filho dele. Esse é o momento do filme em que a atuação de Depp alcança o ápice, é o momento em que queremos derramar as lágrimas de Marianne sentindo o medo e o desprezo que Bulger é capaz de inspirar.

Aliança do Crime gira ao redor dessa percepção pessimista de como os mais temíveis gângsters são alimentados pela corrupção, não importa quão romantizados ou enaltecidos eles possam ser em uma história de ficção; enquanto isso nos revela até que ponto pode chegar a cruel hipocrisia de um poderoso chefão que mata sem piedade informantes e delatores (quando ele próprio é o maior delator de todos) e de um agente da lei que odeia traficantes de drogas (mas enriqueceu e cresceu na carreira promovendo e protegendo um traficante que apresentou drogas para crianças de 12 anos em escolas de Boston). O que ninguém vê, não aconteceu. O problema é quando ninguém quer ver o que está acontecendo bem diante de seus olhos. O ciclo de corrupção se realimenta continuamente perpetuando mais corrupção e estimulando o crime. A conivência dos que deveriam combatê-la é o bife que os corruptos saboreiam entre o churrasco na varanda e o brinde do jantar.

Aliança do Crime

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