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Raymond E. Feist tem muito a ensinar sobre magos, impérios e ser escritor

Raymond E. Feist é um autor norte-americano de fantasia, muito conhecido pela série de romances e contos do Ciclo da Guerra do Portal (Riftwar Cycle). Ele terminou de escrever o primeiro livro, Mago, em 1980, e publicou em 1982. Foi um longo caminho até chegar ao Brasil; uma saga extensa e que encontrou um final em 2013 com o lançamento mundial de Magician’s End, que fecha um ciclo de três décadas de mais de 15 milhões de exemplares vendidos.

Depois de anos de atraso no que diz respeito aos clássicos da literatura fantástica, as editoras começaram a trazer esses autores para as livrarias e para os leitores brasileiros. A chegada da Editora Saída de Emergência contribuiu para abrir um pouco mais as portas para essas obras, e entre suas publicações, estão os livros de Feist, começando com os lançamentos de Mago: Aprendiz e Mago: Mestre, nas edições preferidas do autor. Em seguida publicaram Mago: Espinho de Prata, Mago: As Trevas de Sethanon, e o primeiro livro da Saga do Império, A Filha do Império. Para o lançamento do livro A Serva do Império, segundo livro da saga, Feist veio ao Brasil participar da Bienal do Livro.

Eu tive a oportunidade de conversar com Feist durante sua estadia no Rio de Janeiro, e ele falou sobre o que o levou a escrever, como a fantasia e a ficção científica mudaram ao longo das décadas e como isso o influenciou, e também sobre a importância que o RPG teve em sua vida e na criação dos mundos de Midkemia e Kelewan. Conversar com ele foi uma experiência divertida. Ele é irreverente nos comentários, e possui um vasto conhecimento de literatura fantástica e ficção científica, e sobre o mercado editorial em si.

Raymond E. Feist


1. Você acredita que hoje em dia existe um apelo maior da literatura de fantasia do que quando você publicou Mago? O que você acha que mudou nessas últimas três décadas?

Tudo começou com Senhor dos Anéis, e eu me lembro de ler em 1966 e todo mundo estava lendo, e era meio como foi a febre de Harry Potter recentemente. E não eram apenas leitores de ficção científica e fantasia, não eram apenas os geeks; todos estavam lendo, até mesmo pessoas que não costumavam ler literatura fantástica. As pessoas simplesmente começaram a ler, e gostaram, e de repente, aqueles que frequentavam a seção de ficção científica e fantasia (que naquela época era tudo junto em uma seção, não havia grandes diferenças entre uma e outra nas livrarias) tinham um assunto em comum com aqueles que não frequentavam e passaram a frequentar. Isso tornou toda a literatura fantástica um pouco mais acessível.

Até então, em outras mídias, ficção científica e fantasia eram uma coisa de baixo orçamento, de robôs e monstros em roupas estranhas, cenários baratos e qualidade às vezes questionável. Uma exceção era um filme chamado Planeta Proibido (1956), que contava com efeitos especiais de ponta para a época e era um filme incrível, que mais tarde inclusive serviu como inspiração para a série Star Trek, de Gene Roddenberry. Em meados dos anos 60, as pessoas estavam procurando mais coisas assim, histórias de ficção científica, de fantasia, escritores de pulp fiction, e principalmente Fritz Leiber (um dos pais da fantasia de espada e feitiçaria, conhecido, entre outras coisas, pelas histórias de Lankhmar). Fritz foi uma grande influência para mim, mais até do que Tolkien. Eu adorava as histórias dele. Jack Vance também, entre outros grandes escritores. Eles tiveram grande impacto no que me tornei como pessoa e escritor.

Quando comecei a publicar, eu não precisava competir por espaço como um escritor iniciante faz hoje em dia. O mercado mudou, abriu mais espaço para a literatura fantástica, e um escritor também precisa conquistar mais seu próprio espaço. Primeiro tivemos a onda Harry Potter, depois o boom da série Game of Thrones e isso influenciou na expansão dos livros. Tudo é maior hoje em dia.

2. Como você usou essa mistura de conhecimentos de ficção científica e fantasia quando escreveu Mago, que possui humanos que usam magia e invasão de seres de outros planetas, entre outras coisas?

Estruturalmente, em alguns casos. Uma coisa importante é que a ficção científica teve uma importância imensa para os Estados Unidos nas décadas passadas. Depois da Segunda Guerra Mundial, os norte-americanos em especial não queriam ouvir sobre efeitos nocivos de lixo atômico, queriam construir dispositivos brilhantes e que fizessem barulhos e coisas legais. Estávamos fascinados por pesquisa nuclear, viagens espaciais, quebrar a barreira do som, entre outras coisas. Assim a ficção científica se tornou muito popular, e até o homem chegou à Lua.

Mas olhando para essa época em que eu cresci, é fácil perceber que a ficção científica é uma parte da fantasia; é a fantasia que contém conhecimento científico embutido, a fantasia que engloba o que conhecemos como possível. As pessoas gostam de regras, ou pelo menos algo que aparente ser regras, mesmo em fantasia. Se um mago pode explodir um grande dragão no capítulo um, por que ele não poderia abrir uma porta no capítulo dez? Isso é algo que me fascina na fantasia, e que mantenho em mente. Também é algo que muda constantemente aos trancos e barrancos. Ainda assim, independente de tudo, o que importa é que ainda tenhamos uma história sobre pessoas, e esse é o ponto da fantasia e da ficção científica. Então, apesar de eu escrever com uma voz um pouco mais contemporânea, não existe a ficção científica em si na minha fantasia.

3. Algumas pessoas criticam livros inspirados por campanhas de RPG. Você acha que existe algum preconceito com livros inspirados em jogos de RPG? E como o RPG influenciou você a escrever seus livros?

Não importa de onde vem a inspiração, desde que seja um bom livro. No meu caso, eu tive uma história com Midkemia, com um bando de amigos sentados em uma mesa. Foi quando a magia aconteceu. Durante o jogo, algo deu errado e abrimos um portal para outra realidade e a aventura girava em torno de fechar o portal. Essa foi minha história para The Darkwar Saga (uma das séries de livros do autor ainda não publicadas no Brasil), e foi quando comecei a construir o mundo. Eu tinha materiais de estruturas, e coisas escritas que me serviam como guia, que eu podia colocar onde eu quisesse. Então construí conflitos entre personagens e trabalhei as ideias em uma estrutura para a história. Foi como nasceu o Saga da Guerra do Portal (The Riftwar Saga).

Mas sabe, ser escritor é sentar sozinho no seu quarto, escrever, colocar algo no papel e as pessoas reagirem a isso a sua maneira. Isso é algo que não importa para muita gente, especialmente quem não está familiarizado com o processo de escrita. É um diálogo, um diálogo bem estranho na verdade. Eu faço meus 50%, e o leitor cuida da outra metade. Quando terminei Mago, eu fiz a minha metade. As pessoas que leram completaram o diálogo. E essas pessoas, os leitores, conhecem as duas metades. Eu não escuto a outra metade, apenas a minha. Cada leitor e leitora tem a própria experiência, imaginação, gatilho emocional, forma como reage e outros aspectos que tornam a história única.

Margaret Weis e Tracy Hickman (criadoras de Dragonlance) e RA Salvatore (que escreveu romances em Forgotten Realms) impulsionaram suas carreiras escrevendo romances para Dungeons & Dragons, e hoje em dia eles têm suas próprias séries literárias, seus próprios personagens e suas próprias agendas. E são ótimos escritores. Como eu disse, o que importa em um livro é que ele conte uma boa história.

4. Você ainda joga RPG hoje em dia?

Hoje em dia, não. Meus amigos ainda continuam jogando, e eles se reúnem de vez em quando para jogar, à moda antiga, com dados, mapas e miniaturas. Uma coisa que eu jogo de vez em quando é World of Warcraft. Comecei com meus filhos, e hoje meu filho gosta de jogar Destiny e minha filha faz outras coisas. Mas de vez em quando ainda me junto com meu filho para jogar algumas horas e a gente percorre uma masmorra ou realizamos alguma missão juntos. É uma coisa boa.

5. Hoje em dia, muitos jovens se tornam leitores por causa de filmes e séries baseadas em livros. Como você vê esse crescimento da fantasia impulsionado por outras mídias?

Grande parte da indústria de cinema e TV, e grande parte da indústria literária, é focada em seguir tendências, enquanto torce para não parecer idiota diante de escolhas erradas. Por exemplo, vamos pegar a literatura para Jovens Adultos sobre vampiros adolescentes. Era algo que muitos viam como arriscado e de pouco potencial, e de repente todos os editores dos Estados Unidos tinham sua própria história para Jovens Adultos sobre vampiros adolescentes. O que quero dizer é que isso é o mercado da publicação. E se você vir um filme ou série que se destaque bastante e conquiste uma parcela imensa do público, rapidamente você vai encontrar um monte de produções parecidas. Existem variações sutis, mas a ideia é essa. Por exemplo, se não existisse James Bond talvez nunca tivéssemos Jason Bourne.

A questão é: existe um foco no cruzamento de mídias. A pessoa vê alguma coisa interessante em uma série de TV e decide dar uma olhada no livro. A pessoa lê o livro e decide dar uma olhada na série de TV. Por exemplo, grande parte do dinheiro de George R.R. Martin vem do imenso salto que os livros deram nas listas de mais vendidos por causa da série de TV. Martin tem uma carreira sólida de anos escrevendo livros e roteiros para cinema e televisão, e ele é um tremendo escritor. Sou um grande fã das obras dele, especialmente depois que li Armageddon Rag (romance de fantasia urbana de 1983). Ele sempre teve uma venda razoável de livros, então veio a série, e boom, as vendas cresceram absurdamente e agora temos Game of Thrones em brinquedos, colecionáveis, quadrinhos, videogames. Agora também teremos Shannara Chronicles, baseado nos livros da série A Espada de Shannara, e Terry Brooks escreveu o primeiro livro bem antes de eu escrever Mago. Eu conheci Terry alguns anos atrás, uma cara adorável, muito gente boa. Ele é uma das razões por que meus livros tiveram boas vendas.

Muitas coisas que eu li quando era mais jovem, estão ganhando destaque agora. Então, sim, existe um grande jogo interno entre estúdios, produtores, editores. ‘Os tubarões sentem o cheiro de sangue na água’. Eles certamente sentiram que alguma coisa está acontecendo, e vamos ver aonde isso vai dar. Algumas coisas falham, outras dão certo, outras falham e recebem mais uma chance para dar certo. Mas a verdade é que nunca veremos um fim da fantasia, assim como nunca veremos realmente o fim do faroeste norte-americano ou das histórias de detetives. Existem períodos de altos e baixos. Se vai continuar com esse alto nível de popularidade? Eu não sei dizer. Mas espero que sim, pelo menos até eu me aposentar. Não que eu esteja pensando em me aposentar. Ainda pretendo fazer isso por muitos anos.

6. Agora que você terminou o Ciclo da Guerra do Portal (Riftwar Cycle) com o livro Magician’s End, o que podemos esperar dos seus próximos livros?

Sexo, drogas e rock’n’roll! (risos!) A seguir eu pretendo construir algo um pouco menor e mais contido, sobre um mundo completamente diferente, com diferentes regras de magia, política diferente e personagens muito diferentes do que construí com o o Ciclo da Guerra do Portal. Só acredito que cometi um deslize ao nomear de The War Of Five Crowns (A Guerra das Cinco Coroas) porque eu não tinha me dado conta de que uma das coisas do mundo de Game of Thrones é a The War of Five Kings (A Guerra dos Cinco Reis), mas isso faz parte do trabalho. Agora eu estou escrevendo o livro King Of Ashes (Rei das Cinzas), que é o primeiro volume da nova série e será focado em dois personagens. Nada mais posso dizer além disso. Aguardem até estar pronto. A previsão é que seja lançado em 2016.

Raymond E. Feist

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