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Jupiter’s Legacy

Jupiter’s Legacy

Nível Heroico

Maturidade e excelência técnica

(Jupiter’s Legacy) – Ficção Científica. Estados Unidos, 2015. De Mark Millar. Arte de Frank Quitely. Com os personagens Sheldon Sampson/The Utopian, Walter Sampson, Grace Sampson/Lady Liberty, Chloe Sampson, Brandon Sampson, Hutch, Jason Hutchence e Barnabas Wolfe. Editora Image Comics. 140 páginas.

Em meio a uma crise econômica, um grupo de norte-americanos ganha super-poderes numa ilha misteriosa no ano de 1932, liderados pelo patriota Sheldon Sampson e seu irmão Walter. No século XXI, em meio a uma nova crise, os filhos destes super-heróis tentam definir seu lugar no mundo, onde estão sempre à sombra dos pais. Mais do que um conflito de gerações, as diferenças entre pais e filhos podem literalmente mudar o mundo.

Desde Édipo Rei que o conflito de gerações é um dos temas centrais de reflexão na arte e na literatura. Tanto pais quanto filhos possuem dificuldade em entender o outro, como se a distância de idade se refletisse também no abismo em termos de ideias e valores, ainda que próximos fisicamente. E este parece ser o tema central da nova HQ da dupla Mark Millar e Frank Quitely, que não trabalhavam juntos desde sua parceria no título Authority no início dos anos 2000.

Há um toque de tragédia que remete à peça de Sófocles referida acima, bem como a Hamlet de William Shakespeare, misturado à mitologia e um clima de aventura pulp que dá muito certo.

A trama começa nos anos 30 do século XX, onde Sheldon Sampson, após perder tudo na crise de 29, tem uma visão de uma ilha paradisíaca misteriosa que lhe daria super-poderes. Junto com seu irmão Walter, lidera então uma expedição para localizar tal lugar. Assim, tem início neste universo a existência dos super-heróis, com Sheldon assumindo o papel de The Utopian.

No século XXI, somos apresentados a Brandon e Chloe Sampson, os filhos de Sheldon com Grace Sampson, ou Lady Liberty. Enquanto os pais possuem uma visão bem da Era de Ouro do super-heroísmo, onde os super-poderosos só podem agir para fins nobres e não podem interferir na política, os filhos estão mais preocupados em serem famosos, irem para baladas e namorar, sem maiores compromissos.

Quem mais sente isso é Brandon, cujo peso de ser um fracasso aos olhos do pai parece mover cada uma de suas decisões. Isso acaba servindo como brecha para que seu tio, William, o use a favor dos próprios interesses e mine a liderança de Sheldon perante a comunidade super.

A primeira coisa que chama a atenção nesta obra é a maturidade de Millar escrevendo. Embora haja momentos violentos, nenhum deles é para chocar a audiência. Todos servem bem ao andamento da trama. Os personagens aqui possuem tridimensionalidade. Entendemos o drama de todos, o que leva a uma inevitável tragédia. Desta, passamos ao cenário distópico onde os super-heróis se tornaram os grandes vilões.

Sheldon é um personagem do tipo Capitão América ou Superman. Sua retidão moral é inquestionável, mas ao mesmo tempo está sempre acima dos demais. Como resultado, temos um líder que não houve seus liderados, apenas impõe sua visão como a única certa, cobrando de todos que a sigam. Isso nos mostra que mesmo as boas intenções podem levar a resultados desastrosos se os valores democráticos são deixados de lado.

Jupiter’s Legacy

Da metade para o final, a protagonista passa a ser Grace. Casada com Jason Hutchence, filho do vilão Hutch, o casal tenta sobreviver incólume ao mundo distópico que surge. Ambos possuem um filho de 9 anos, Jason, que precisa esconder seus poderes para não ser descoberto. Mas Jason puxou ao avô, e é neste equilíbrio entre agir e não ser pego que se dá a dinâmica da trama, com destaque para o confronto final com o vilão Barnabas Wolfe. Aliás, é curioso como, num mundo onde os heróis se tornaram os vilões, sejam os vilões que tenham que fazer a coisa certa.

Como não poderia deixar de ser, a arte de Quitely é um show à parte. No início parece até contida, mas quando as cenas de ação começam, o artista mostra todo o seu talento. O traço dinâmico e seu domínio da narrativa tornam tudo mais empolgante. Não é à toa que, mesmo conhecido pelo ritmo lento, é um dos artistas mais requisitados do mercado de quadrinhos.

A maturidade de Millar e a excelência técnica de Quitely resultam numa das mais memoráveis sagas de super-heróis do século XXI. E com certeza é a melhor obra do Millarworld, o universo de histórias com personagens criados pelo roteirista do qual também fazem parte Wanted, Kick Ass e Kingsman, entre outros. Os direitos cinematográficos da série já foram vendidos. Mas não fique esperando pelo filme, até porque a HQ não é apenas um storyboard aguardando Hollywood. Ela tem os próprios méritos, e merece ser conhecida por todo fã de super-heróis.

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