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Vício Inerente

No fim dos psicodélicos anos 60, quando a paranoia está tomando conta do dia a dia, Shasta Fay Hepworth (Katherine Waterston) faz uma visita à casa de praia de seu ex-namorado Larry “Doc” Sportello (Joaquin Phoenix) em Gordita Beach, uma cidade fictícia em Los Angeles. Doc também é um investigador particular hippie que vive chapado e tem um jeito bem peculiar de olhar as coisas. Shasta conta a ele sobre seu novo amante, Mickey Wolfmann (Eric Roberts), um rico promotor imobiliário, e pede que ele a ajude a prevenir que a esposa de Mickey (Serena Scott Thomas) e seu amante concluam um plano de sequestrar Mickey e prendê-lo em um asilo para loucos. Doc aceita o serviço, o problema é que sua investigação acaba por envolvê-lo em outros casos que podem não ser tão bons para sua saúde.

(Inherent Vice) – Crime. Estados Unidos, 2014.

De Paul Thomas Anderson. Com Joaquin Phoenix, Josh Brolin, Owen Wilson, Katherine Waterston, Eric Roberts, Joanna Newsom, Serena Scott Thomas, Jena Malone, Maya Rudolph, Benicio Del Toro, Reese Witherspoon e Martin Short. 148min. Classificação: 18 anos.

Vício Inerente


VÍCIO INERENTE – RESENHA

Sangue Negro (2007) nos conta sobre o nascimento do capitalismo norte-americano, O Mestre (2012) nos oferece as incertezas do mundo pós-guerra e agora Vício Inerente nos leva à mistura de hábitos e costumes do californiano moderno. Como a maioria dos “vícios inerentes” de Paul Thomas Anderson, esse é um filme construído para ser a melhor abordagem de como deveríamos ver e saborear imagens oníricas, ou viagens alucinógenas regadas a maconha, de modo que às vezes parece que nós mesmos estamos tão chapados que rimos das piadas mais bobas e até nos esquecemos de aprofundar efetivamente na trama. Situado na Los Angeles dos anos 1970, em dado momento do filme, estamos apenas seguindo a maré, desfilando por uma história bizarramente psicodélica, querendo saber onde seus excêntricos personagens estão dispostos a nos levar. Ou quão chapados vamos ficar quando tudo terminar.

Isso é especialmente divertido por seu protagonista, Larry “Doc” Sportello, um investigador particular extremamente acessível, e meio sem foco. Doc, que é interpretado de forma seca e espirituosa por Joaquin Phoenix, vai com o fluxo de cada encontro, sempre nos levando a uma nova coincidência, perplexidade ou epifania, enquanto investiga o misterioso desaparecimento de sua ex-namorada, que depois o leva a vários outros misteriosos casos, que a princípio parecem não ter conexão, mas aos poucos (sutilmente) se ligam. O elenco também possui atrações como Owen Wilson, Maya Rudolph, Benicio Del Toro, Reese Witherspoon e Martin Short, que nos proporcionam momentos que, sem querer, fazem brotar um sorriso meio débil nos lábios (são muitas dorgas na mente, bicho).

Sou um admirador dos filmes de Thomas Anderson, e ainda que Vício Inerente possa não ser um de seus maiores momentos, de qualquer maneira merece todos os elogios que vem recebendo (e que eu tenho a oferecer). O filme é uma adaptação do romance policial de Thomas Pynchon, a primeira vez que um romance do autor é adaptado para o cinema. E o próprio romance é tão absurdo e louco quanto o filme é absurdo e louco, com uso massivo de jogo de palavras e um pensamento labiríntico, que às vezes podem soar confusos e, por isso, exigem uma dose cavalar de abstração para serem absorvidos (dorgas?… pois é) Existe um certo charme em passar boa parte do filme tentando entender se a Golden Fang é um cartel de drogas asiático ou uma grande companhia de dentistas, ou as duas coisas; e o asilo que tem um culto bizarro e totalmente non-sense dentro dele? — Lunático é pouco para definir esse filme! — O que falar das soturnas divagações do detetive Christian “Bigfoot” Bjornsen?… (um desempenho sensacional de Josh Brolin.)

Como uma espécie de noir psicodélico, Vício Inerente é um salto estilístico para Anderson, cujos riscos se pagam maravilhosamente. É um trabalho incrível, que captura bem a vibe meio alucinada dos anos 70 e do romance no qual é inspirado. O enredo é simples (bobo, eu diria), mas seu emaranhado de sub-tramas e seus supostos impasses são aquilo com que Thomas Anderson melhor trabalha sua magia. O verão de uma história de amor é longo, e o sonho de ontem é o pesadelo de amanhã; essa é a premissa da história. A sombra dos seguidores de Charles Manson (que assassinaram a atriz Sharon Tate e outras quatro pessoas) ainda pesa sobre tudo; os hippies estão sob suspeita constante e as autoridades estão sedentas por sangue. O governo (conturbado) do presidente Richard Nixon está começando, e o mundo passa por grandes mudanças culturais. Esta é uma visão de noir como se olhado por através de um espelho; uma sociedade corrupta, exagerada a proporções alucinantes.

No centro do turbilhão está Doc, constantemente infeliz e apedrejado. Do indomável Philip Marlowe de Humphrey Bogart em À Beira do Abismo (1946) até o fatalista Philip Marlowe de Elliott Gould em Um Perigoso Adeus (1973), o detetive ideal do noir sempre serviu como uma representação do mal-estar contemporâneo. O detetive particular de Anderson e Pynchon é um produto claro dos tempos que ele reflete, mas ele ainda cumpre um papel mítico como homem à parte; aquele que rompe com os padrões. Doc segue a música, cantarolando sua própria música (destaque para a trilha sonora radiante Jonny Greenwood). Requintado e estranho, afetado e misterioso, música é o que na verdade o filme pretende ser.

Vício Inerente

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