Filmes

Protagonistas Femininas – Uma Época Incrível Para Mulheres na TV

Grandes Mulheres das Séries de TV

Esse ano muito foi comentado como nenhum dos principais filmes concorrentes ao Oscar contava com uma protagonista feminina, todos eram sobre personagens masculinos. A atriz Patricia Arquette, ao subir ao palco para receber seu prêmio de melhor atriz coadjuvante, chamou atenção para o fato de que até hoje as mulheres ganham muito menos do que os homens em Hollywood.

Acredito que toda essa discussão apenas constate um sintoma que vem ocorrendo há um tempo, enquanto o cinema se encontra em um redemoinho de falta de criatividade, ousadia e eternas adaptações ou remakes, a televisão ganha espaço por não ter medo de ousar. Nela há espaço para todos, onde é possível encontrar séries que agradem todos os públicos. Se no passado, quando um ator de cinema acabava em uma série de televisão, era visto como um sintoma de que sua carreira estava no fim; atualmente, grandes atores estão migrando para a televisão, exatamente por causa da maior liberdade e criatividade, onde podem exercer seus talentos sem limites.

É na televisão que vemos surgir novos talentos, principalmente femininos, como o caso de Lena Dunham e sua série Girls, que mostra o universo feminino de forma honesta, sem glamour ou necessidade de criar tendências. Dunham é fruto de uma geração que se espelhou em uma anterior, formada por comediantes e escritoras fortes, sem medo de contarem ao mundo o que pensam. Entre elas, destaque-se Tina Fey que acaba de lançar, através do Netflix, a série Unbreakable Kimmy Schmidt, que tem cara de comédia leve mas discute assuntos bem sérios, todos relacionados ao universo feminino.

E é nesse universo em expansão da televisão, que vivem as grandes protagonistas femininas, onde algumas merecem destaque por conseguirem traduzir toda a luta que existe pela igualdade de gêneros. A mais “antiga” delas é Alicia Florrick, interpretada por Julianna Margulies, de The Good Wife, série criada e produzida por Robert King e Michelle King. Digo antiga porque, das séries que pretendo listar aqui, é a que está mais tempo no ar, desde 2009.

Alicia tinha um casamento perfeito, com filhos perfeitos e poucas preocupações, até o dia que seu marido é preso por causa de um escândalo envolvendo prostituição e corrupção. A partir desse ponto, ela é obrigada a buscar um emprego e uma casa nova. Acaba retomando sua carreira de advogada e consegue ser contratada pela Lockhart e Gardner, onde um antigo colega de faculdade, Will Gardner, lhe dá uma nova chance. Já em sua sexta temporada, é quase viciante acompanhar a trajetória de Alicia, que por mais que represente uma elite, é totalmente possível se identificar com tudo pelo qual ela passa. Os dramas com o marido, do qual ela se separou mas não divorciou, o romance com Will, as questões envolvendo os filhos, todos os preconceitos por causa de seu passado e todos os julgamentos que envolvem o fato de ser mulher e não viver de acordo com as convenções. The Good Wife consegue equilibrar todas essas questões com os casos que formam a série, além de contar com personagens secundários fortes e tão cativantes quanto Alicia, como Diane Lockhart, magistralmente interpretada por Christine Baranski, o complemento perfeito ao personagem de Alicia. Diane é completamente comprometida com sua firma e seu trabalho, o que levanta outras questões e discussão, dentro da série.

O interessante é que The Good Wife é a típica série voltada para o público feminino, onde quase todas são dramas. Muitos esquecem que esse público gosta de tudo, desde dramas, passando por sitcoms, chegando às séries de ação, suspense, terror e até ficção científica.

Nesse campo, o canal canadense Space deu espaço para Graeme Manson e John Fawcett que criaram a personagem feminina mais incrível dos últimos tempos. Na verdade criaram seis, todas interpretadas por Tatiana Maslany, que criou uma personalidade para cada uma delas e nos faz, durante todos os episódios, esquecer que todas elas são interpretadas pela mesma pessoa. A série é Orphan Black, de 2013, já conta com um enorme fã clube pelo mundo inteiro, na sua maioria composto por mulheres. O mais interessante dessa série, é que apesar de contar a história de Sarah Manning, que descobre que tem clones espalhados por aí, de apresentar um mistério e uma organização bizarra por trás de tudo, também discute a questão da individualidade. Por mais que Sarah, Helena, Beth, Allison, Cosima e Rachel sejam interpretadas por Maslany, cada uma tem uma personalidade muito forte e bem diferente das outras. Sarah vive de pequenos golpes, acaba se envolvendo com toda a confusão dos clones, e é a única que tem uma filha biológica. Helena foi criada por fanáticos religiosos na Rússia, que a fizeram acreditar que ela é uma aberração que não deveria estar viva. Beth era uma policial que parece não ter conseguido lidar com todo o drama dos clones, e é a razão de Sarah descobrir tudo. Allison é uma típica mãe suburbana (com filhos adotados), que tem uma vida normal e que apesar de sua aparência fútil, sabe muito bem como sobreviver em situações extremas. Cosima é uma hacker e cientista super inteligente. Rachel é a única que sabe desde muito pequena que ela é um clone e que trabalha para a organização responsável pela existência de todas elas.

O cenário principal de Orphan Black é a clonagem e todo o mistério que envolve a existência de todas essas personagens, mas, de forma sútil, também aborda questões bem próximas à realidade da mulher, como o fato de nem todas poderem gerar um filho, a luta por terem controle de seus próprios corpos (já que são clones, há toda uma discussão se elas são ou não propriedades de uma empresa), além dos dramas pessoais de cada uma delas. É incrível como uma série que não tem, de forma explícita, o intuito de ser apenas para um público específico, conseguir atingi-lo de forma tão positiva e bem no ponto.

Saindo da ficção científica, entramos no campo do suspense policial, com The Fall, a série que tem uma detetive mais do que fodona como protagonista, Stella Gibson, interpretada por ninguém menos que Gillian Anderson. Stella é durona, não se deixa abater, muito menos se dobrar pelo fato de ser uma mulher chefiando uma força tarefa especial em busca de um serial killer na Irlanda do Norte. O lance é que Belfast é uma das cidades mais violentas da Irlanda do Norte e também é, em sua essência, extremamente machista e conservadora. Assim como em Arquivo X, Anderson representa uma mulher forte, com um trabalho “masculino”; porém, a realidade de Stella é bem mais dura. Ela não pode vacilar em nenhum segundo que logo é julgada e diminuída pelo fato de ser uma mulher, e essa honestidade da série que torna a personagem de Anderson tão real. Stella não é perfeita; exatamente por conviver 24 horas com um mundo tão agressivo, ela vive uma eterna preocupação de se afirmar e mostrar que é mais do que acham que ela pode ser. O que é muito atual para as mulheres hoje em qualquer mercado de trabalho, sempre poder provar que é melhor do que esperam delas.

O mais interessante em The Fall é a inversão de papéis. Enquanto Stella é uma mulher fechada, solitária e muito introspectiva, seu nêmesis, Paul Spector, interpretado por Jamie Dornan, é um simpático psicólogo, casado, com dois filhos adoráveis. O único problema é que Paul é um serial killer que mata apenas mulheres. No decorrer da série, descobrimos que Stella também é vulnerável, enquanto Paul parece perder o controle das coisas. Por fim, um se torna a obsessão do outro, levando a série a um outro nível.

Saindo do drama policial e suspense, chegamos ao mundo dos quadrinhos, com a série que mais aqueceu meu coração nesse início de ano: Agent Carter. Acho que pouquíssimas vezes um personagem tem um spin off tão bem aproveitado e trabalhado. Peggy Carter, vivida por Hayley Atwell, parece uma pin up perfeita saída de romances da década de 40. É mais ou menos por aí, Peggy lutou na Segunda Guerra ao lado do Capitão América, seu interesse amoroso, e provou ser tão importante quanto ele, durante a batalha. Quando Capitão América some, ela vai morar nos EUA e vira agente da SSR (Strategic Scientific Reserve – Reserva Estratégica Científica), um braço do governo que foi criado durante a Segunda Guerra para lidar com ameaças nazistas de ordem tecnológicas. Peggy trabalha com outros agentes da SSR, todos homens, em um escritório disfarçado, já que a Reserva é secreta. Em pleno 1946, ser uma mulher solteira, de um outro país, sozinha em Nova York, já é um desafio por si só. Trabalhar como agente secreta ao lado de homens que acreditam que ela não tem capacidade de cumprir seu serviço por ser mulher, é um desfio maior ainda. Mas Peggy sabe seu valor, sabe muito bem do que é capaz e não se deixa intimidar em nenhum segundo por isso. Ser mulher é um fator que só contribui a favor dela, que consegue passar despercebida pelas situações, que contorna os problemas e o resolve de forma mais prática. Enquanto seus colegas dão voltas em cima da mesma questão.

Agent Carter estreou para cobrir o hiato de Agents of SHIELD, com o intuito de ser uma minissérie de oito capítulos apenas. Mas ela merece uma segunda temporada; uma personagem tão importante dentro do Universo Marvel merece ganhar uma série completa, para mostrar para todas as meninas por aí o quanto se pode fazer exatamente por ser mulher.

Felizmente a DC também percebeu que esse é o caminho a ser trilhado, porque meninas também cresceram lendo quadrinhos e precisam se ver representadas nos filmes e nas séries, assim foi anunciado, para o meio do ano, a estreia da série sobre a Supergirl, interpretada pela fofa Melissa Benoist.

Alicia, Sarah (e todas as suas clones), Stella e Peggy, são uma mostra de tudo que se é capaz quando não há barreiras ridículas como preconceito ou sexismo, pelo caminho. São exemplos de que a força feminina é um bom argumento dentro de uma trama e mais ainda, de que o mundo está mudando e que devemos mudar junto com ele. Enquanto o cinema permanecer lá no início do Século XX (assim mesmo, em algarismo romano), ele vai continuar perdendo espaço para a televisão, que nunca tem medo de se renovar e buscar formas de se adaptar ao novo mundo.

Compartilhe este Post

Posts Relacionados



Nível Épico em Imagens

Facebook

Google Plus