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Agent Carter

Situada um ano após o fim da Segunda Guerra Mundial e do desaparecimento do Capitão América, série conta a história de Peggy Carter (Hayley Atwell) enquanto ela tenta se adaptar ao mundo pós-guerra. Ela agora trabalha na SSR (Strategic Scientific Reserve), uma agência do governo onde não tem suas habilidades reconhecidas por ser uma mulher. Isso muda quando um velho amigo, Howard Stark (Dominic Cooper), é acusado de traição e começa a ser caçado por seus companheiros de agência. Com ajuda de Jarvis (James D’Arcy), mordomo de Stark, Carter busca provas que possam livrar o amigo das acusações, e acaba envolvida em uma conspiração envolvendo um misterioso massacre de soldados soviéticos ocorrido durante a Segunda Guerra.

(Agent Carter) – Ação. Estados Unidos, 2015.

De Christopher Markus e Stephen McFeely. Com Hayley Atwell, James D’Arcy, Chad Michael Murray, Enver Gjokaj, Shea Whigham, Bridget Regan, Ralph Brown e Dominic Cooper. Rede ABC. 08 episódios. 42min.

Agent Carter


PRIMEIRA TEMPORADA – RESENHA

Agent Carter é muito mais uma sequência direta de Capitão América: O Primeiro Vingador do que qualquer outra coisa. E como tal, não tenta reinventar a roda, contentando-se apenas em complementar um pouco o universo deixado por Steve Rogers logo após a Segunda Guerra Mundial. Carter também já havia aparecido em um Marvel One-Shot — curtas com personagens dos filmes da Marvel — que mostrava a agente durante uma missão logo após dos eventos do primeiro filme. O curta, lançado no Blu-ray de Homem de Ferro 3, fez sucesso o bastante para garantir que novas aventuras de Peggy Carter fossem contadas na televisão. Projetada para ter apenas 08 episódios e um arco de história completo, a série segue uma linha simples e, no fim, revela-se (nada mais, nada menos) do que um estudo de personagem.

Uma grande parcela do show se dedica a fornecer uma caracterização sólida para seu elenco, com foco maior, obviamente, em Carter. Em comparação com outra grande série da Marvel/ABC, Agents of SHIELD, Agent Carter lança um olhar novo sobre os primórdios do Universo Cinemático da Marvel. Só que ao invés de gastar quantias exorbitantes de tempo seguindo de forma servil às histórias dos grandes filmes da Marvel — que é o que acontece com Agents of SHIELD —, a série se permite funcionar de forma diferente, aproveitando-se principalmente do fato de se passar na década de 1940. Com personagens profundos e acenos agradáveis para as origens das histórias em quadrinhos, o que vemos é uma primeira temporada forte, ainda que não seja perfeita.

O desenvolvimento dos personagens é realmente o grande ponto positivo. Todos têm sua hora de brilhar, alguns mais do que outros, mas ainda assim, com um equilíbrio adequado. Eles evoluem em muitas frentes, enquanto alguns vão se mantendo consistentes ao longo de toda a trama. Um elemento interessante é podermos acompanhar a mudança de perspectivas em relação à Peggy, à medida que seus colegas de trabalho do sexo masculino começam a perceber que ela é muito mais formidável do que eles estavam dispostos a reconhecer. E isso é tão verdade que ela consegue fazer suas próprias investigações sobre o caso de Stark em paralelo aos colegas, sem que eles descubram quem é ela.

A série faz questão de mostrar que Carter é uma mulher sagaz e extremamente qualificada, que não consegue explorar todo o seu potencial por causa dos preconceitos de uma visão machista de mundo (que era bastante presente na sociedade nos anos 40). Quando ela tem oportunidade de usar seu potencial, é espetacular vê-la em ação, e ver como ela tem as melhores sacadas para resolver os problemas, muitas vezes deixando seus colegas machões/fortões/espertões para trás, com cara de bobos. Fica claro que, com Agent Carter, a Marvel queria explorar um pouco mais o poder da mulher, e criar uma história com uma personagem feminina forte, abrindo espaço para outras mulheres que virão para mostrar sua força, como a Capitã Marvel.

Uma coisa intrigante, que reforça os interesses da série, é quando descobrem a verdade sobre as habilidades de Carter. Seus companheiros, obviamente, perdem a confiança nela, acreditando que ela é uma traidora. E o primeiro a apontar o dedo para ela é justamente Sousa (Enver Gjokaj), um homem que sofre um tipo de discriminação parecido com ela por ter que andar de muletas (resultado de um ferimento que sofreu durante a guerra). Sousa visivelmente tem uma queda por Carter e estava sempre querendo protegê-la; ele é quem descobre sobre o segredo dela, e deveria ser o primeiro a dar a ela um voto de confiança, o benefício da dúvida. Mas não dá. Somente depois que ela é presa e interrogada é que Sousa começa a acreditar que ela poderia estar certa, e isso depois que ele e os outros deixam escapar o verdadeiro vilão. Aliás, outra coisa que chama atenção, é que os agentes da SSR perdem ótimos momentos de avançar com suas investigações por causa dos preconceitos com Carter ou com o próprio Sousa.

Olhar por essa perspectiva, me faz lembrar de algo que escrevi na resenha do filme Jogo da Imitação, cuja história se passa mais ou menos na mesma época de guerra/pós-guerra; e a citação é essa: — “Imagina quantos passos no avanço científico e tecnológico nós deixamos de dar porque homens e mulheres extraordinários foram segregados ou impedidos de exercer suas profissões por causa de intolerância e preconceitos estúpidos. Imagina quanto conhecimento se perdeu no tempo por causa disso.” — Curioso ver como Agent Carter corrobora com essa verdade, ao vermos que informações importantes sobre a investigação eram tratadas com desdém porque vinham de uma mulher ou de um deficiente.

O que torna o enredo interessante é justamente podermos acompanhar como a mentalidade sobre Carter aos poucos vai mudando. Thompson (Chad Michael Murray), o que mais duvidava das habilidades dela desde o início, começa a respeitá-la quando ela salva sua vida em uma missão na Rússia. Isso faz dele o mais cauteloso quando Peggy é acusada de traição, ainda que ele seja o que mais reconhece Carter como uma mulher difícil de enfrentar. Esse tipo de mudanças que a série promove conta um pouco não apenas sobre seus personagens, como também sobre o universo em que eles estão inseridos (um universo que ainda não viu grandes super-heróis contra vilões super-poderosos, uma vez que os vilões aqui assumem outras formas).

Um personagem que merece destaque especial é Jarvis, o mordomo de Howard Stark. James D’Arcy é incrível no papel. Sua relutância em colocar as mãos muito a fundo na sujeira e sua devoção a Stark são equilibradas com maestria. Jarvis prova ter um forte código moral e apesar dele não sofrer grandes mudanças ao longo da série, sua presença destaca-se bastante por sua relação verdadeira com Carter. Quando os dois estavam juntos, tudo se tornava mais divertido. Ao longo da temporada, ele começa a valorizar mais e mais sua amizade com Peggy, a ponto de tomar qualquer decisão precipitada para ajudá-la a escapar de uma enrascada (quando assina um contrato falso como se fosse Howard) ou devolver para ela o frasco com o sangue de Steve Rogers sem que Stark soubesse. Engraçado também é a devoção de Jarvis à esposa, que nunca aparece efetivamente, o que cria um clima leve para o personagem. Como se trata de uma série de poucos episódios, infelizmente, em alguns momentos, Jarvis acaba ficando de lado na história, e faz falta.

Por outro lado, parte da razão pela qual Agent Carter funciona tão bem é o ritmo ágil de seus episódios. Não há perda de tempo com excesso de subtramas ou fillers, justamente pelo fato de ser uma temporada curta, que precisa rapidamente configurar seus objetivos e chegar a um desfecho; isso impede a história de estagnar ou se tornar cansativa. Com isso, cada peça contribui de alguma forma para a trama. Angie falando sobre suas aulas de atuação, por exemplo, estão lá para ela usar seus dotes de atuação quando Peggy precisa de ajuda. Peggy e Jarvis indo atrás de cada ex-amante de Stark, uma por uma, ajuda a criar uma ideia de como Howard trata as mulheres com quem ele se envolve, de modo que, por esse descaso, ele acabou sendo enganado por uma delas (e sequer é capaz de reconhecê-la quando é capturado). Pequenos momentos informam sobre momentos maiores do enredo, também reforçando o conceito geral de cada episódio e nos contando mais um pouco sobre o arco que está sendo construído.

Agent Carter, aliás, é muito eficiente em nos mostrar um pouco mais do Universo Cinemático da Marvel. Situado em 1946, muito do que acontece na série não tem grande impacto sobre o universo. Mesmo assim, não significa que a série não semeie e informe mais sobre o universo como um todo. Um dos pontos de interesse mais relevantes apresentados na série é Dottie (Bridget Regan). Ela é uma perigosa assassina russa. Desde que era pequena, foi treinada para ser uma assassina mortal, que pudesse passar despercebida enquanto executa suas missões (entre outras coisas, por ser mulher). Considerando a história que se passa em 1946 e a luta de Peggy para ser aceita dentro do SSR, a construção de Dottie é mais do que convincente. Mas não para só nisso. Peggy descobre que Dottie é parte de um programa russo que treinava várias garotas para se tornarem assassinas, nos oferecendo um vislumbre interessante do Programa Viúva Negra, que anos mais tarde nos levaria a conhecer Natasha Romanoff.

Há também a aparição de Johann Fennhoff (Ralph Brown), que atende pelo nome de Dr. Ivchenko, embora na verdade seja o vilão Dr. Faustus, que é um dos inimigos do Capitão América nas histórias em quadrinhos (inclusive isso fica evidente quando ele aparece lendo a clássica peça A Trágica História do Doutor Fausto, de Christopher Marlowe, no qual o vilão dos quadrinhos é inspirado). Embora Ivchenko seja pouco desenvolvido, focado principalmente na crueldade de seu dom para hipnotizar outras pessoas, sua presença é um aceno agradável para o Universo Cinemático da Marvel, e também para os típicos vilões das antigas revistas pulp, que eram sempre gênios do crime meio caricatos e com planos mirabolantes. Revistas pulp foram bastante populares na década de 40, e os próprios super-heróis das histórias em quadrinhos que conhecemos hoje em dia são considerados derivados da literatura pulp. Essa relação entre as revistas pulp, os quadrinhos e a época em que se passa a história de Agent Carter acrescenta um pouco mais de charme à série, e também ajuda a entender por que essa é uma trama tão simples e de personagens marcantes. Além de divertido, tem um quê de pulp. Poderia até ser escrito em papel barato.

Hayley Atwell é simplesmente a razão de ser da série. Linda, charmosa, forte e obstinada, ela encarna perfeitamente Peggy Carter — o que não chega a ser surpresa para quem a viu em Capitão América: O Primeiro Vingador. — Ela tem a combinação perfeita de vulnerabilidade, tenacidade e porte físico que a personagem precisa, de tal modo que não dá sequer para imaginar outra pessoa no papel. Em suas missões, ela frequentemente cruza o caminho de caras durões, grupos de bandidos e assassinos bem treinados; e por estar quase sempre sozinha e não ter super-poderes (como é comum quando se pensa em Marvel), nos passa realmente a sensação de que ela está em perigo. Mas ela se safa bem das situações mais perigosas, sem perder o que faz dela uma personagem adorável. Ainda que ela esconda bem, suas emoções ainda afloram de vez em quando, especialmente quando se trata de Steve Rogers. Ela ainda chora pela morte dele, mas ao mesmo tempo, ela luta para aceitar que ele está morto. Uma das cenas mais maravilhosas da série acontece na ponte do Brooklyn quando ela finalmente percebe que é hora de seguir em frente. Esse é o momento definitivo para o fechamento da temporada, uma forma singela e agradável de mostrar que, a partir de agora, Peggy Carter pode ter novas aventuras pela frente, e uma nova forma de encará-las.

Agent Carter

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