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Oscar 2015 – Um Ano de Vencedores Engajados e Pouca Diversidade

Julianne Moore — essa mulher maravilhosa, sempre diva e bem-humorada — ganhou o prêmio de Melhor Atriz por seu papel em Para Sempre Alice e começou seu discurso dizendo que tinha lido em algum lugar que vencedores do Oscar viviam cinco anos mais do que o resto de nós. “Eu realmente gostaria de agradecer à Academia, porque meu marido é mais jovem do que eu”, brincou. Foi a consagração de uma atriz que merecia ter ganhado esse prêmio muito tempo atrás; ela já foi indicada quatro vezes, pelos filmes Boogie Nights (1997), Fim de caso (1999), As Horas (2002) e Longe do Paraíso (2002). Finalmente ela conquistou o prêmio, e essa era a maior certeza da noite. Ela estava lá para ganhar. Ninguém teria tirado esse Oscar dela. E se não tivesse concorrido por Para Sempre Alice, teria ido por Mapas Para as Estrelas (em que ela é igualmente incrível).

Na categoria Melhor Ator, um astro britânico em ascensão, Eddie Redmayne, nomeado pela primeira vez, teve dificuldades em encontrar as palavras para expressar sua emoção ao ganhar a estatueta por seu papel em Teoria de Tudo. Em várias entrevistas que deu anteriormente, ele se demonstrava realmente cético sobre a vitória. Já achava muito bom estar entre os indicados. Ganhar era improvável para ele. Ainda mais concorrendo com Michael Keaton e sua atuação espetacular em Birdman. Mas Redmayne saiu vencedor. Muitos disseram que ele não merecia, que ele apenas estava imitando outra pessoa. Desculpem, mas imitar é uma parte da arte de atuar. E imitar bem, é uma arte por si só. Não dá nem para imaginar o que é necessário para imitar um homem que sofre de uma doença como Esclerose Lateral Amiotrófica, captar seus trejeitos como alguém que sobreviveu a um diagnóstico improvável, e se expressar puramente através de expressões faciais simples, uma vez que o corpo e todo o resto precisam estar imobilizados… sim, Redmayne teve um papel difícil como ator, e merecia levar o Oscar tanto quanto os outros. No fim, meio vacilante com a emoção, dedicou a vitória àqueles que sofrem com a ELA em todo o mundo e ao homem que inspirou seu filme, Stephen Hawking. Achei digno.

Oscar 2015

Michael Keaton merecia muito esse prêmio? Claro que merecia. É um ator que lutou muito para chegar onde está, e sempre recebeu pouco reconhecimento por isso. Birdman é quase uma auto-biografia dele, e ele se supera em vários níveis no filme; merecia essa vitória, e eu gostaria que tivesse vencido. Não venceu, mas com essa oportunidade, abriram-se inúmeras novas possibilidades para ele, e ainda acredito que vou vê-lo de volta às indicações para, quem sabe, ganhar seu Oscar.

Keaton pode não ter vencido, mas seu filme, Birdman. Ou. A Inesperada Virtude da Ignorância, conquistou a noite, e levou quatro prêmios: Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia, Melhor Diretor e Melhor Filme. Birdman ganhou pelo Michael Keaton! E pelo filme foda que ele é, claro.

Seu diretor, Alejandro González Iñárritu, foi um dos vários vencedores a fazer um discurso de aceitação nitidamente político, ao falar de suas esperanças de que o México um dia construísse o governo que os mexicanos merecem, e pediu que os imigrantes fossem tratados com respeito. Uma coisa que chamou a atenção de muitos foi a apresentação do Oscar de Melhor Filme por Sean Penn, que brincou com Iñárritu dizendo “Quem deu um green card a esse filho da puta?” ao anunciar a vitória de Birdman como Melhor Filme. Penn, como o cara polêmico que sempre foi, obviamente, causou uma tremendo rebuliço com a declaração, que muitos tacharam de xenofóbica. A questão é que ele fez o comentário em tom de brincadeira, por dois motivos: primeiro, para fazer justamente uma crítica aos problemas constantemente enfrentados por imigrantes nos Estados Unidos (isso que ele falou é exatamente o que muitos povos, norte-americanos ou não, dizem sobre imigrantes por aí); e segundo, Sean Penn é um grande amigo de Iñárritu há mais de dez anos, desde que atuou no filme 21 Gramas (logo, isso também foi uma piada interna entre os dois).

Durante a noite, os ganhadores tocaram em várias questões sociais, desde os direitos civis dos negros até os direitos das mulheres e dos homossexuais. Essa foi uma das cerimônias do Oscar de discursos mais engajados dos últimos anos. O que é curioso pelo fato de que essa também foi a edição que mais enfrentou polêmicas por não ter diversidade em suas indicações.

Isso porque, pela primeira vez desde 1998, todos os vinte nomeados que concorrem aos prêmios por atuação (Ator, Atriz, Ator Coadjuvante e Atriz Coadjuvante) são brancos. E pela primeira vez desde 2000, as produções indicadas à Melhor Filme são exclusivamente histórias sobre homens. O grande preterido desse ano talvez tenha sido Selma, a biografia de Martin Luther King que por si só carrega consigo um grande valor para a sociedade, por contar uma história que precisa ser conhecida e poucos (especialmente fora dos Estados Unidos) conhecem. Selma recebeu apenas indicações à Melhor Filme e Melhor Canção Original (com a belíssima “Glory”), mas poderia (deveria) ter ganhado nomeações também em algumas outras categorias técnicas, para Melhor Ator (David Oyelowo), e principalmente para Melhor Direção (Ava DuVernay). Além de ser diretora de um filme sobre os direitos civis dos negros, DuVernay também é negra e mulher, um nível de representatividade que fez uma falta imensa nas indicações. Mesmo que não ganhasse, merecia estar indicada, por seu trabalho (que é muito bom) e pelo que representa. Isso sem mencionar outros nomes que poderiam ter entrado na lista, como Carmen Ejogo, também de Selma, ou Gugu Mbatha-Raw, maravilhosa em Belle e que também fez Além das Luzes, cuja música, “Grateful”, estava concorrendo a Melhor Canção Original.

E por falar em mulheres, este é o primeiro ano desde 2000 em que nenhum dos indicados a Melhor Filme tem uma protagonista feminina (Gravidade, A Hora Mais Escura, Histórias Cruzadas, Cisne Negro, são alguns dos filmes dos últimos anos que se encaixam nesse quesito). Apenas uma das cinco indicadas a Melhor Atriz deste ano aparecia em um indicado à Melhor Filme: Felicity Jones (Teoria de Tudo). Reese Witherspoon (Livre), Rosamund Pike (Garota Exemplar), Marion Cotillard (Dois Dias, Uma Noite) e a vencedora Julianne Moore (Para Sempre Alice) tiveram suas indicações por filmes que não receberam o mesmo reconhecimento em outras categorias.

Esse, de fato, não foi um Oscar preocupado com a diversidade. Talvez por isso tenha inspirado tantos discursos engajados. Foi como suprir uma carência que precisava ser suprida. Esperemos apenas que isso não se torne uma constante nas cerimônias do Oscar e nas produções cinematográficas daqui por diante. Porque muitos podem não perceber o impacto que isso tem, mas existe um impacto. E ele é bem significativo. TODA a indústria cinematográfica se pauta com o Oscar, e a premiação, para o mal ou para o bem, impacta na produção de filmes em muitos níveis, afetam aqueles que são escalados e contratados para papéis, e no quanto eles são pagos por seu trabalho. Isso importa para os tipos de histórias que serão contadas. Eu adoro cinema, todo o tipo de cinema, por isso sou sempre a favor de que todo tipo de histórias sejam contadas. É assim que conhecemos nossa história, a sociedade em que vivemos e, muitas vezes, a nós mesmos.

Reese Witherspoon, Patricia Arquette e Julianne Moore, antes mesmo da premiação, emprestaram suas vozes a uma campanha no Tapete Vermelho para levar as mulheres mais a sério. A campanha #AskHerMore (Pergunte Mais a Ela) incentiva a imprensa a perguntar às atrizes mais do que apenas sobre o que está vestindo. Durante a premiação, quando subiu ao palco para receber sua estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante por Boyhood, Arquette também discursou em prol da igualdade de remuneração para as mulheres. “Para cada mulher que deu à luz, para cada contribuinte e cidadã deste país, temos lutado pela igualdade de direitos em todo mundo. É hora de termos igualdade salarial, de uma vez por todas, e igualdade de direitos para as mulheres nos Estados Unidos da América”, disse a atriz, para logo depois receber aplausos acalorados da plateia, especialmente de Meryl Streep, que também concorria como Melhor Atriz Coadjuvante, e vibrava ao lado de Jennifer Lopez.

Dana Perry, produtora do vencedor de Melhor Documentário em Curta-Metragem, Crisis Hotline: Veterans Press 1, apelou a uma maior sensibilização do público para o suicídio. Graham Moore, vencedor de Melhor Roteiro Adaptado por Jogo da Imitação, revelou que tinha tentado suicídio aos 16 anos porque se sentia “estranho” por ser gay, e dedicou seu prêmio àqueles que, assim como ele, se sentiam de mesma forma. “Continue estranho, continue diferente”, ele disse, exaltando a importância disso no meio criativo.

Em contrapartida, JK Simmons, o primeiro vencedor da noite como Melhor Ator Coadjuvante por seu papel em Whiplash, usou seu tempo para lembrar às pessoas próximas e seus pais, e a importância de fazer de vez em quando uma ligação por telefone, e não por texto, para as pessoas importantes na sua vida.

Entre os maiores destaques da noite estavam as apresentações musicais, a começar pela linda homenagem aos 50 anos do musical Noviça Rebelde, com um desempenho impecável de Lady Gaga em um medley de músicas do filme. Lady Gaga é uma cantora de qualidade, e quando não tenta ser exageradamente excêntrica, é melhor ainda. E como se não bastasse o desempenho bonito dela, no final, Julie Andrews ainda entrou no palco. Foi de chorar. Noviça Rebelde é pura infância, e Julie Andrews é puro amor. Não tinha como ser diferente.

Em outro momento musical da noite, esse mais engraçado, um festival de cores tomou o palco durante a apresentação da música “Everything is Awesome”, de Uma Aventura LEGO. A animação, que foi preterida nesse Oscar, teve um número musical divertido e sensacional.

Por falar em animação, quando todo mundo achava que Como Treinar Seu Dragão 2 levaria a estatueta de Melhor Longa-Metragem de Animação, quem levou foi Operação Big Hero 6, seguido por seu curta, Banquete, que ganhou o prêmio de Melhor Curta-Metragem de Animação. Eu, como muitos, esperava uma vitória de Como Treinar Seu Dragão 2 porque era o mais interessante dentre os indicados, considerando o tipo de filme que normalmente recebe o prêmio na categoria de animação. Isso era um pensamento lógico. Pensando emocionalmente e por merecimento real, eu teria dado o prêmio para O Conto da Princesa Kaguya sem pensar duas vezes. Mas não posso negar meu lado de fã de super-heróis, e com a vitória de Big Hero 6, são super-heróis levando alguma coisa, então… FUCK YEAH! Viu como sou democrático?

Aliás, se for falar emocionalmente e no puro amor, eu teria dado todos os prêmios para Grande Hotel Budapeste. Essa coisa linda merecia tudo. No fim, ganhou prêmios mais técnicos: Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Cabelo, Melhor Design de Produção (esse não tinha como dar para outro filme) e Melhor Trilha Sonora (Alexandre Desplat). No meu coração, ganhou tudo e saiu vencedor da noite. Me deixa sonhar.

Voltando aos números musicais, existem outros que precisam ser mencionados. A abertura é um deles, conduzida pelo anfitrião Neil Patrick Harris. Foi uma abertura ESPETACULAR de Oscar! Uma tremenda homenagem ao cinema como um todo, brincando com filmes e atores — tensão sexual entre os amigos Matt Damon e Ben Affleck?!…a zueira não tem mesmo limites —, e fazendo até mesmo um desfile de cosplays (ou quase isso). Teve até a Anna Kendrick atirando o sapato no Jack Black… isso ZEROU a abertura.

Esse começo promissor de Patrick Harris aos poucos se perdeu no restante do evento. Em dado momento, me fez pensar: “sinto falta da Ellen DeGeneres”. Ainda assim, apesar do desempenho mais ou menos como apresentador, Harris teve alguns bons momentos. “Benedict Cumberbatch: o nome que você ouve quando pede a John Travolta para anunciar Ben Affleck”, essa piada me fez rir alto. E em outro momento, ele entrou no palco de cueca, após ficar trancado fora de seu camarim, simulando a já icônica cena de Michael Keaton andando de cueca pelas ruas da Broadway em Birdman.

O momento mais emocionante da noite, contudo, foi provavelmente a apresentação da canção “Glory”, de Selma, nas vozes de John Legend e Common. Além da música por si só ser bonita e emocionante, os cantores ainda foram acompanhados no palco por uma encenação da famosa travessia da ponte Edmund Pettus pelos manifestantes que seguiam Martin Luther King, e que é um dos momentos-chave do filme. A cena foi de levar as lágrimas… e tenho certeza que o Chris Pine concorda comigo, porque ele não parava de chorar. “Glory” recebeu o prêmio de Melhor Canção Original, uma vitória merecida, e que mais pareceu uma compensação por tudo o que Selma não recebeu nesse Oscar controverso e que, apesar de todos os seus méritos, deu pouco valor ao mérito da representatividade.

Olhando por um lado bom, esse também foi um Oscar cujas indicações foram especialmente direcionadas para dramas, com orçamentos mais moderados e um espírito de filme independente, ao invés de focar em grandes produções arrasadoras de grandes estúdios. Ao menos, é uma glória que a premiação desse ano conseguiu alcançar.


OS VENCEDORES:

Melhor Ator Coadjuvante: JK Simmons, Whiplash

Melhor Figurino: Grande Hotel Budapeste

Melhor Maquiagem e Cabelo: Grande Hotel Budapeste

Melhor Filme Estrangeiro: Ida

Melhor Curta-Metragem em Live-Action: The Phone Call

Melhor Documentário em Curta-Metragem: Crisis Hotline: Veterans Press 1

Melhor Mixagem de Som: Whiplash

Melhor Edição de Som: Sniper Americano

Melhor Atriz Coadjuvante: Patricia Arquette, Boyhood

Melhores Efeitos Visuais: Interestelar

Melhor Curta-Metragem de Animação: Banquete

Melhor Longa-Metragem de Animação: Operação Big Hero 6

Melhor Design de Produção: Grande Hotel Budapeste

Melhor Fotografia: Birdman

Melhor Montagem: Whiplash

Melhor Documentário em Long-Metragem: CitizenFour

Melhor Canção Original: Glory, Selma

Melhor Trilha Sonora: Alexandre Desplat, Grande Hotel Budapeste

Melhor Roteiro Original: Birdman

Melhor Roteiro Adaptado: Jogo da Imitação

Melhor Diretor: Alejandro González Iñárritu, Birdman

Melhor Ator: Eddie Redmayne, Teoria de Tudo

Melhor Atriz: Julianne Moore, Para Sempre Alice

Melhor Filme: Birdman. Ou. A Inesperada Virtude da Ignorância

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  • Dani

    Julianne merece há muito tempo, e é mesmo surpreendente ver que só agora ganhou seu primeiro Oscar. Mas a Rosamund Pike está espetacular em Gone Girl.

    • http://www.nivelepico.com/ Alan Barcelos

      Rosamund Pike é sensacional! Ela ainda vai ter outra chance de ganhar um Oscar, acredito nisso. Adoro ela :)

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